Naema, a bruxa









NAEMA, A BRUXA

Autor: Conde J. W. Rochester







I — O PACTO

Um bonito dia de julho do ano da graça de 1485 chegava ao seu termo; os últimos raios do sol poente brincavam nas torres e nas muralhas da cidadezinha de Friburgo, em Brisgau(1)
***
(1) Entre a Floresta Negra e o Reno, na Alemanha (N. do T. )
***
O sufocante calor tinha dado lugar a uma agradável fresquidão e das alturas circundantes uma brisa ligeira soprava perfumes balsâmicos e vivificantes. Esta calma e serena beleza da natureza, formava um lúgubre contraste como interior de uma grande sala, sombria e abobadada, cujas paredes de pedra
transudavam umidade: era a prisão da cidade.

Pelas estreitas seteiras gradeadas que lhe serviam de janela, nenhum raio de sol conseguia penetrar e somente uma penumbra descolorida iluminava fracamente os seres desventurados que ali estavam encarcerados.

Sobre um dos montes de palha, atirados a esmo nos ladrilhos de pedra,estendia-se uma velha mulher, visivelmente agonizante. Mechas de cabelos brancos emolduravam-lhe o rosto desfigurado pelo sofrimento e inundado de suor gelado. Tiras de linho ensanguentadas enrolavam-lhe as pernas, evidentemente quebradas pela tortura, porque o menor movimento arrancava da desafortunada um gemido que nada tinha de humano.

Ajoelhada a seus pés e recitando com voz entrecortada de soluços a prece dos moribundos, postava-se uma moça de beleza deslumbrante, ainda que alterada neste momento por uma expressão de intolerável sofrimento e de profundo desespero.

Alta e esbelta, ela podia ter dezessete ou dezoito anos. Sua blusa de cambraia e saia curta de um tecido cinzento deixavam adivinhar suas formas admiráveis. Os traços do semblante eram de grande delicadeza, duma regularidade clássica, e os cabelos de um louro dourado, que pendiam em desordem, envolviam-na como um véu, esparramando até pelos ladrilhos suas madeixas sedosas duma incrível opulência.

Ela também, certamente, fora submetida à tortura, porque suas pernas e seus braços nus estavam cobertos de manchas sanguinolentas e de queimaduras.

Apertando convulsivamente contra o peito suas pequenas mãos juntas, ela orava à meia-voz, inclinando-se ansiosamente sobre a moribunda, cada vez que esta fazia um movimento.

Subitamente a velha reabriu os olhos e seu olhar apagado se voltou para a moça, com uma indefinível expressão de amor e de sofrimento.

- Oh! Lori, Lori, se você pudesse como eu morrer antes do amanhecer! - murmurou ela.

A estas palavras a moça estremeceu e com um surdo gemido enlaçou a pobre mulher, mas sob a dor atroz que lhe causou este brusco abraço, um grito lancinante escapou dos lábios da moribunda, um arrepio espasmódico sacudiu-lhe todo o corpo e depois, de repente, a cabeça pendeu inerte, os olhos desmesuradamente abertos tornaram-se vítreos e os membros se enrijeceram. 

A morte, mais misericordiosa do que os homens, viera e com sua doce mão pusera fim aos sofrimentos da infortunada. Lori se arrojara bruscamente para trás, ao grito desferido pela velha mulher, mas, vendo que não tinha diante de si mais do que um cadáver, tomou-se dum acesso de louco desespero. 

Com gritos, imprecações e torrentes de lágrimas, ela arrancava os cabelos, batia no peito, abraçava a morta e a cobria de beijos, dando-lhe os nomes mais ternos. Porém, esta super-excitação extinguiu-se tão pronto como veio. 

Vencida pela dor moral e pelo insuportável sofrimento físico que seus movimentos desordenados ocasionavam a seu corpo torturado, prostrou-se na palha e ficou agachada, encostando-se à parede numa triste apatia.

Nesta imobilidade, com o rosto lívido e descomposto, de olhos fechados, acreditar-se-ia que a moça estava morta, ou pelo menos desmaiada. Não era nada disso! Todavia, um torpor mudo e gélido imobilizava unicamente seus membros, o cérebro dolorido continuava a trabalhar e era a sua própria vida que a pobre Leonor revivia. 

Ela se revia menina, descuidada e feliz, na casinha tão limpa e tão confortável de seu pai, o velho Klaus Lebeling, que ocupava na jurisdição dos mercadores o cargo modesto de escrevente. 

Ela jamais conhecera sua mãe, mas a tia Brígida, irmã de seu pai, educara-a com os desvelos de mãe, estragando-a com mimos e cumulando-a de ternura. E entre esta doce e pia criatura e o pai, que a adorava, Lori crescera bela e inocente, como uma flor que se abre ao sol.

A tia lhe ensinara a arte do bordado, que ela mesma exercia. Contudo, bem depressa, a aluna excedeu a mestra. Com a inspiração que somente um grande talento concede, os dedos de fada de Lori criavam verdadeiros quadros nas bandeiras, faixas e adornos da igreja, que ela bordava. Os fios de ouro e de seda pareciam animar-se sob sua mão e transformarem-se em flores vivas, ou em verdadeiras cabeças de querubins.

Assim a fama da jovem bordadeira espalhara-se rapidamente, as encomendas apareceram numerosas, da cidade e dos arredores, transformando num bem-estar quase luxuoso a modesta abastança da família.

Klaus Lebeling orgulhava-se de sua filha, dos olhares de admiração que se fixavam nela, dos pretendentes que afluíam e entre os quais se achava até o filho de um rico negociante, que representava para a filha de um pobre e ínfimo escrevente, um partido tão brilhante quanto inesperado. 

Mas o coração de Leonor permanecia frio e ela recusara francamente o pedido do rico pretendente que, ferido em seu orgulho, retirara-se cheio de cólera e rancor.

Depois, numa penosa claridade, surgia diante do olhar espiritual da moça, o dia feliz e funesto que lhe decidira o destino. Era o dia de Natal. Ela assistira à missa com Brígida e se preparava para deixar a velha catedral quando, junto à pia de água benta, percebeu um fidalgo ricamente vestido, cujos olhos se gravavam nela com admiração apaixonada. 

Era um bonito jovem, alto e delgado, cujas vestes justas, da época, faziam ressaltar-lhe as formas elegantes. De seu gorro de veludo, enfeitado com uma pena branca, escapavam espessos cabelos castanhos. Uma barba curta, ligeiramente frisada, enquadrava a parte inferior de seu rosto. A corrente de ouro no pescoço e a espada ao lado demonstravam que era um rico patrício, ou algum nobre senhor dos arredores.

Com uma ligeira saudação, ele ofereceu água benta à moça, que enrubesceu e abaixou os olhos, quando suas mãos se tocaram. Mas ela vira o bastante e a lembrança do belo fidalgo a seguiu até em casa. 

Seu coração bateu novamente quando, vários dias depois, o mesmo elegante senhor apareceu na modesta casa de Klaus Lebelinge e encomendou uma toalha de altar, de riqueza excepcional e com desenho bastante complicado. Nesta ocasião, ela soube que o visitante era o nobre fidalgo Walter de Küssenberg. Sua mãe morava em Friburgo e Leonor a conhecia de vista.

A senhora de Küssenberg era originária da cidade onde seu falecido pai ocupara um alto cargo na magistratura. Em seguida à morte do marido, sentindo-se só e isolada em seu castelo, seu filho único estava na corte do Imperador, dona Cunegundes viera fixar-se na bonita casa que possuía em Friburgo.

Depois desta primeira visita, Walter veio freqüentemente à casa de Klaus Lebeling certificar-se de como ia sua encomenda; cada dia ele se demorava mais tempo e, de dia em dia, Leonor esperava com mais impaciência, sua chegada. Com uma alegria eivada de temor, a boa Brígida via crescer o amor entre os dois jovens.

Ela conhecia o duro e intratável orgulho da senhora de Küssenberg; e o seu projeto de casar o filho com a rica Filipina, a filha de Conrado Schrammenstedt, o futuro burgomestre da cidade, era sabido  de todos.

Portanto, quando Walter pediu honestamente a mão de Leonor a seu pai, declarando sua imutável resolução de desposá-la apesar de todos os obstáculos e da oposição de sua mãe, a boa mulher se tranqüilizou, agradecendo a Deus a grande fortuna que Ele concedia à sua querida sobrinha.

A felicidade de Leonor desafiou toda descrição e foi como um raio que a horrível acusação de feitiçaria caiu sobre seu sonho de amor e o destruiu para sempre. Onde poderia ter surgido esta acusação que equivalia a uma sentença de morte, na época em que se passava os acontecimentos que narramos?

Uma loucura de destruição varria a Alemanha; o medo da magia, dos sortilégios, flutuava no ar como uma nuvem negra. Por toda parte o povo perturbado pressentia bruxas e feiticeiros, filtros, encantamentos e malefícios.

Constantemente flamejavam as fogueiras, devorando as centenas as vítimas inocentes ou culpadas, que o iníquo processo do tempo entregava ao carrasco, abrindo à perversidade, aos ódios pessoais, um campo vasto e fecundo.

Inicialmente, um vaqueiro veio denunciar Brígida, acusando-a de lançar feitiços às vacas de seu rebanho, das quais ficaram doentes um número considerável, enquanto que as três vacas de Lebeling continuavam sãs.

De manhã, no momento em que o velho Lebeling se preparava para ir ao seu serviço no Magistério da Justiça Militar, toda a família foi presa e conduzida diante do juiz. Já uma segunda acusação viera agravar a situação dos acusados: uma criada, despedida por falta de probidade, depôs que Brígida e Leonor iam freqüentemente ao sabá(1).
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(1) Assembléia de feiticeiros que, segundo a superstição popular, realizava-se às sextas-feiras à meia-noite. (N. do T. )*
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Vira-as cozer um ungüento que exalava um odor estranho e nauseabundo; surpreendera a tia esfregando os braços e o estômago com a poção diabólica e sair "voando"pela janela. Quanto à moça, fora vista colhendo ervas nos campos, mágicas, no dizer da velha criada, por meio das quais, as duas mulheres acusadas preparavam filtros de amor, de que tombaram vítimas primeiro o jovem Ruperto
Schwarz, em seguida o fidalgo de Küssenberg.

Citado como testemunha, Ruperto Schwarz declarou que, verdadeiramente, tinha bebido leite e também uma infusão de ervas amargas em casa dos Lebeling e que seu amor imoderado por Leonor só passou depois de uma peregrinação à Santa Odila.

Semelhantes acusações, apoiadas por três testemunhas, eram mais do que suficientes para perder os infortunados Lebeling. Um medalhão encontrado no pescoço de Leonor e contendo cabelos de Walter, foi julgado uma prova esmagadora da malvadeza da moça.

Debalde o fidalgo veio corajosamente declarar perante o tribunal que ele mesmo fizera presente do medalhão à sua noiva, e que a beleza e a virtude dela eram os únicos filtros que prenderam seu coração.

O juiz ouviu o moço com um sorriso de compaixão, com toda certeza o infeliz se achava ainda sob o poder do encantamento. "O martelo das feiticeiras", terrível manual dos juízes, publicado pelo dominicano Sprenger, relatava fatos semelhantes e descobria todas as artimanhas do demônio.

Leonor e Brígida foram submetidas à tortura; elas ousavam negar o crime apesar das provas tão flagrantes, mas, graças a Deus, não faltavam meios para fazer calar os mais teimosos. Um arrepio de horror e de medo percorreu a epiderme da moça, quando ela relembrou as torturas sofridas em seu pudor virginal, abafadas, contudo pelos sofrimentos sobre-humanos experimentados, enquanto a flagelavam, pinçavam-na com ferros rubros e submetiam-na ao suplício da estrapada(1).
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(1) Castigo que consistia em erguer a vítima pelas mãos amarradas nas costas e deixá-la cair violentamente no chão. As mãos eram atadas numa corda pela qual a puxavam para erguê-la; esse suplício levado ao extremo acabava por desconjuntar os  passos das articulações. (N. do T. )
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Meio ensandecida, ela reentrou na prisão, cujo carcereiro lhe anunciou brutalmente que seu covarde pai, fugindo duma justa punição, enforcara-se de noite.

Perdida em seu delírio desesperado, Leonor não prestava atenção ao que se passava ao seu redor. Toda sua alma se concentrava agora num único pensamento, cujo horror fazia eriçar-lhe os cabelos. Ela fora condenada à fogueira; a sentença devia ser executada na manhã seguinte e, por antecipação, ela sentia a atrocidade desta morte lenta, que Sprenger recomendava que se infligisse às feiticeiras.

Leonor, repetimos, nem notara que mais duas pessoas partilhavam sua prisão. Uma delas, um velho pastor igualmente acusado de magia e que, horrivelmente mutilado pela tortura, urrava e gemia em seu leito de palha. A segunda era uma velha mulher, tão magra, enrugada e curvada, que era impossível dar-lhe uma idade exata. Sessenta anos? Cem? Seu corpo confirmava essa última suposição, mas seu olhar desmentia todas as anteriores, porque os olhos esverdeados, de uma expressão sinistra e cruel, cintilavam com o fogo e o brilho da juventude.

Ela também sofrera a tortura, porém com um estoicismo espantoso e quase desdenhoso. Os juízes, como os carrascos, ficaram convencidos de que ela possuía o "feitiço" da taciturnidade, que tornava o corpo insensível ao sofrimento; mas como tinha sido impossível, apesar dos esforços, encontrar o talismã diabólico, a megera fora condenada a ser queimada viva em companhia de Leonor, de sua tia e do pastor.

A expectativa do suplício pouco parecia inquietar a estranha criatura; calma e indiferente, elas e encostava na parede; suas mãos ossudas e enrugadas se cruzavam em seus joelhos. Somente por vezes ela reajustava na cabeça raspada um velho lenço listado, ou gritava ao pastor que ela parecia conhecer:

- Não urre como um danado, Sebastião, uma vez que estupidamente você se deixou desarmar; espera pacientemente o mestre; ele nos salvará.

Por vezes também seus olhares se fixavam em Leonor, sempre imóvel em seu canto. Como que tomando uma brusca resolução, ela se arrastou sem ruído para a moça e tocou ligeiramente seu braço.

- Ouça, você quer escapar da fogueira, viver e vingar-se? - perguntou-lhe a velha em voz baixa.

- Se o quero! - exclamou Leonor com amargura. - De certo! Eu o quisera se fosse possível, mas sabes bem, mãe Gertrudes, que estou perdida; Deus me abandonou.

- Deus, sim; mas talvez um outro terá piedade de você e a salvará, a despeito dos monstros que nos encerram aqui e nos julgam impotentes. Você quer que eu o chame?

Leonor fitou-a perturbada e incrédula. Por inverossímil que fosse a salvação, a esperança provocada pelas estranhas palavras da velha despertaram na alma entristecida da moça, toda a energia, toda a aspiração à vida que palpitava em seu jovem e robusto organismo.

- Chama aquele que pode me salvar — murmurou ela com a sua voz alterada.

Sem responder, a velha se arrastou para seu monte de palha, remexeu-o, e tendo encontrado uma espécie de osso recurvado, ergueu-o fazendo-o girar acima de sua cabeça; depois, com uma força e uma agilidade incríveis, pulava sobre os pés. Ganhando então o centro da prisão, entoou a meia-voz um canto esquisito e cadenciado, ao passo que girava sobre si mesma com uma rapidez sempre crescente.

Tomada de um terror supersticioso, Leonor se levantou e, dominando a horrível dor que lhe causava cada movimento, apoiou-se à parede procurando ver o que Gertrudes fazia. A escuridão era quase completa agora e aumentava ainda mais o horror do lugar infecto. Mas, a pouco e pouco um crepúsculo sem cor encheu a prisão e Leonor percebeu distintamente a velha que, com a boca espumante, os olhos fora das órbitas, continuava a girar. Ela era horrenda de se ver: a saia curta descobria-lhe as pernas nuas, pretas e magras, enquanto que seu braço de esqueleto continuava a brandir acima de sua cabeça um objeto informe, mas do qual parecia desprender-se fosforescência que clareava a prisão.

De repente, o cárcere se encheu dum frio intenso; um vento glacial nele se engolfava sibilando. Depois, barulhos estranhos se elevaram. Bater de asas, rugidos longínquos de animais selvagens, entremeados dos balidos duma cabra.

Um furacão parecia sacudir as paredes do velho edifício enquanto que um cheiro acre, fétido e sufocante tirava a respiração de Leonor, que muda e como que paralisada, fitava o esqueleto vivo que girava como um pião. Pouco a pouco, numa das paredes nuas, formou-se uma larga mancha fosforescente, da qual emergiu uma fumaça avermelhada que, por sua vez, se condensou e tomou a
forma duma cortina ondulante, sulcada de clarões.

Enfunando-se como sob o efeito dum golpe de vento, esta cortina se fendeu bruscamente e ao olhar estarrecido de Leonor apareceu um homem de alto talhe, cujas calças negras colantes e um gibão de veludo da mesma cor desenhavam-lhe os membros finos e flexíveis. O rosto duma palidez mate, emoldurado de cabelos pretos e ondulados, era impressionante em sua beleza sinistra e diabólica. O nariz aquilino de narinas dilatadas denunciava paixões ardentes. A boca se crispava num sorriso sardônico e cruel; e os grandes olhos esverdeados, sombrios e insondáveis como um abismo, dardejavam sobre Leonor um olhar terrificante.

Na mão erguida, o misterioso personagem segurava uma lanterna na qual chamejava, crepitando, uma luz esplendente que tomava sucessivamente todas as cores do arco-íris. A feiticeira se arrojara ao solo com a aparição daquele que ela evocava. Mas ao cabo dum instante ela se pôs a rastejar em sua direção, repelindo com voz baixa e entrecortada:

- Mestre, mestre Leonardo, salva-nos, a ela e a mim!

Aquele que acabavam de chamar pelo nome temido de mestre Leonardo, não pareceu prestar a mínima atenção à abjeta criatura que se arrastava a seus pés; seus olhos não deixavam Leonor que, bela como uma estátua de alabastro, fitava-o igualmente.

- Escutei o chamado e vim. Agora escolha, Leonor. Você quer viver ou morrer? — perguntou-lhe o desconhecido com uma voz clara e metálica como o som de um sino.

Não obstante o terror que lhe fazia fremir cada fibra, Leonor estendeu suas mãos juntas para o estranho visitante que parecia dispor do direito de perdoar e com a voz entrecortada.

- Viver, eu quero viver — clamou ela.

Um sorriso de escarninho e cínico aflorou aos lábios do desconhecido.

- Você quer viver!... Para um ser tão jovem, tão belo, o desejo é natural. Mas, minha querida, neste mundo tudo se vende e se compra; e a vida é um bem muito precioso para ser concedido gratuitamente.

- Qual o preço que você exige de mim? Não possuo nada - balbuciou Leonor tremendo.

- Oh! Você é muito modesta! Mas em resumo, eis a minha resposta. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo; se quiser minha proteção, rompe com o passado.

Com um movimento rápido e brusco, ele descalçou seu pé esquerdo e, com horror, Leonor viu no fundo do sapato de ponta comprida uma cruz de marfim e uma hóstia.

- Esmague, renegue, pise estes símbolos que você adorou - continuou mestre Leonardo, atirando nos ladrilhos os símbolos sagrados, que um visco avermelhado parecia envolver.

Por um instante Leonor ficou petrificada de terror. Renegar Deus e o misericordioso Jesus, cometer o sacrilégio de calcar aos pés a cruz? Não! A morte era preferível.

- Vade retro, Satanaz! — gritou a jovem fora de si; e fazendo o sinal da cruz, acrescentou:

- Antes que entregar minha alma à condenação eterna prefiro a fogueira.

Uma crispação desfigurou momentaneamente o semblante da misteriosa visita; depois, um ligeiro riso, mas no qual tilintava uma infernal ironia se fez ouvir.

- Contemple a recompensa que lhe reserva o céu, bem mais surdo do que eu, porque ele não respondeu ao seu apelo.

Estendeu a mão pálida como uma mão de cera. Dos longos dedos afilados jorrou um rastro de fogo. As paredes como que pareceram dilatar-se e fundirem-se num longínquo brumoso. Diante de Leonor desenrolava-se a grande praça da cidade, repleta duma multidão compacta. No centro se alteava a fogueira, na qual o carrasco acabava de por fogo.

Entre as vítimas, cujas vestes as chamas já queimavam, Leonor se via a si própria. A cena era tão real que se ouvia o murmúrio das vozes, o crepitar da madeira resinosa, os clamores desesperados dos padecentes misturados com os cantos dos padres, e o cheiro sufocante das carnes queimadas encheu a prisão.

Os cabelos de Leonor se eriçaram; acreditava sentir as chamas morderem-lhe a carne. Todas as agonias da morte a estrangulavam, inundando seu corpo de um suor gelado.

Neste momento mestre Leonardo se inclinou, seu hálito inflamado tocou a face de Leonor e sua voz estridente e metálica murmurou, enquanto que o olhar fulgurante parecia transpassar a jovem:

- Vê: aqui a morte odiosa, sem honra. Lá, além dessa cruz, a vida, a liberdade, a riqueza, os prazeres e o amor. Renegue, atravesse o obstáculo que a separa da felicidade e... da vingança.

Um estremecimento nervoso sacudia cada fibra da moça e insensivelmente uma amargura desesperada, um ódio selvagem contra a injustiça de que era vítima despertava em seu íntimo. Era então verdade que o céu era surdo? Nesta mesma prisão não se tinha ela prosternado, batendo nos ladrilhos com a fronte, implorando com lágrimas ardentes o socorro, a proteção de Deus? E qual fora à resposta a esta ardente invocação?Seu pai se suicidara, o cadáver mutilado de sua segunda mãe jazia a dois passos dela. Ela própria abandonada, desonrada, ia morrer de morte medonha. Mas onde estava este Deus de justiça que permitia semelhantes iniquidades e abandonava os inocentes? Seu corpo inteiro não era mais do que uma ferida. A seus ouvidos vibravam ainda os rugidos de dor de sua tia, da qual quebravam as pernas; e o céu ficara surdo e indiferente! Com uma raiva desesperada, ela perguntou a si mesma se, verdadeiramente, Satanás não era mais misericordioso do que Deus. Uma odienta blasfêmia escapou de seus lábios e com um pé furioso ela esmagou o símbolo da redenção.

No mesmo instante ela se sentiu erguida pelo braço flexível do desconhecido, cujos lábios abrasantes se colaram aos seus. Leonor não protestou. Ela estava no fim de suas forças, a cabeça girava e, aniquilada, caiu nos braços do homem terrível e misterioso.

- Mestre, mestre, não me esqueças! - gritou neste momento a velha com voz clemente.

Mestre Leonardo, pois tal era o nome do terrível desconhecido, tirou do bolso uma bola negra, que jogou à feiticeira.

- Amanhã escaparás - ele respondeu, mas sua voz parecia já ressoar ao longe.

***

Em um quarto do primeiro andar duma bonita e rica casa construída no canto da grande praça, mantinha-se um belo homem jovem, cujo semblante pálido e desfeito, os olhos vermelhos, demonstravam uma profunda dor. Walter de Küssenberg, pois era ele, não tinha pregado os olhos toda à noite. Mil projetos, mais aventureiros uns do que outros, se tinham entrechocado em seu cérebro e,
por momentos, a convicção de sua impotência para salvar sua inocente noiva como que lhe tirava a razão.

Extenuado, acabou por se atirar numa poltrona e com a cabeça entre as mãos ensaiava orar. Os rumores da multidão que se aglomeravam na praça para ver o suplício vieram ferir o coração do pobre Walter como um golpe de punhal. Este suplício que atraía a brutal e cruel população, não ia causar a morte de sua Leonor adorada?

Dentro de algumas horas, daquele corpo gracioso e encantador, não haveria mais que restos informes de carnes calcinadas! Se ao menos ele pudesse matá-la, para poupar-lhe esta morte dolorosa!

Soltando um surdo gemido, saltou de sua cadeira, correu para a alta janela gótica, de vitrais coloridos, e abriu-a com um movimento nervoso. Uma última vez ele queria ver sua bem-amada e sustentá-la com um olhar de amor.

Neste instante a porta se abriu com estrondo e um jovem escudeiro, pálido e agitado, precipitou-se no quarto.

- Meu nobre senhor, aconteceu algo de inacreditável na prisão! - gritou ele, com voz ofegante - Lori Lebeling desapareceu!

- Desapareceu?Como é possível e de quem você teve tal notícia, Leberecht? - perguntou o fidalgo pálido de emoção.

- Tive-a do Sulpício, o ajudante do carcereiro. Ele me contou que esta manhã, quando ele entrou na prisão para dar de comer aos condenados, encontrou a velha Brígida morta, bem como o pastor Sebastião, o qual tinha uma das faces toda preta. Evidentemente o diabo lhe tinha torcido o pescoço.

A feiticeira Gertrudes tinha perdido os sentidos. Ela estava sentada, os olhos arregalados e sem brilho, a boca aberta e os membros rígidos; quanto à Lori Lebeling, ela tinha desaparecido sem deixar vestígios. Verificando uma tão visível intervenção do demônio, Suplício aterrorizou-se e correu a avisar o carcereiro, o qual informou o juiz e o escrivão. Os magistrados foram imediatamente à prisão, porém nada mais puderam descobrir; somente o juiz averiguou que a alma de Gertrudes fora ao sabá e não tinha ainda voltado ao corpo.

Ele então ordenou que queimassem a megera com os cadáveres dos outros dois infiéis; logo em seguida iam arrastá-los à fogueira!

Mudo de espanto, o fidalgo fitou o adolescente todo perturbado. Ele também não compreendia nada do desaparecimento de Leonor, mas um suspiro de imenso alívio desafogou-lhe o peito. Graças a Deus! Ela escapara da fogueira!

- Olhe, olhe, senhor!Eis lá a feiticeira e sua alma ainda não voltou — gritou Leberecht que olhava pela janela.

O fidalgo se aproximou também e, apoiando-se no rebordo, fixou os olhos na porta da prisão que acabava de se abrir, dando passagem a duas padiolas nas quais se estendiam os cadáveres. Logo depois vinham o carrasco e um de seus ajudantes que arrastavam, sustentando-a sob os braços, a velha Gertrudes, a qual, na verdade, parecia idiotizada, não compreendendo nada do que se passava.

O eco dos acontecimentos sem dúvida já transpirara, porque uma febril emoção se apoderara da multidão. Gritos, vaias e maldições se elevavam contra a feiticeira que, muda e indiferente, deixou-se içar à fogueira e amarrar ao poste. Logo as flamas subiram de toda parte e espessas nuvens de fumaça
ocultaram ao povo a condenada que não dava mais sinal de vida.

- Ela dorme o sono mágico - gritaram várias vozes. Mas nesse instante uma ave noturna apareceu fendendo o ar com um voo pesado soltou um grito estridente e, quase tocando a cabeça dos assistentes, desapareceu.

Como que respondendo a este chamado, surgiu das chamas outra ave que esvoaçou por um momento no alto da fogueira e soltando lúgubres grasnados, dirigiu seu vôo para as montanhas da Floresta Negra, que se viam no horizonte.

Gritos de terror se elevaram de todos os lados. Ninguém duvidava ter visto fugir a alma da feiticeira e que Satanás viera buscá-la e num piscar de olhos o povo se dispersou, correndo em todas as direções.

II — A EVOCAÇÃO MATERIALIZADA

Quando Leonor reabriu os olhos, viu-se deitada num leito acortinado de pesados brocados, vestida com uma ampla veste de lã branca e sob uma leve coberta de seda púrpura. A jovem não se lembrava dos acontecimentos passados e com um profundo espanto examinou o lugar desconhecido onde se achava.

Era um quarto de tamanho médio, luxuosamente mobiliado. As mesas e as cadeiras eram de ébano esculpido. Um grande espelho de Veneza pendia da parede e pesados reposteiros de veludo escondiam as portas bem como uma estreita janela gótica, através de cujos vitrais coloridos filtrava-se raios de sol.

Súbito a memória lhe voltou e arrepiando-se fechou os olhos. Tinha sonhado? Mas não, não era num sonho que ela sofrera a tortura, que a condenaram à fogueira e que em sua prisão o demônio lhe aparecera.

Sacudida por um calafrio de angústia, a jovem se ergueu e escorregou do leito. Suas pernas vacilantes não a sustiveram e ela se deixou cair numa cadeira. Contudo, não sentia nenhuma dor e um fugitivo exame lhe mostrou que todos os sinais das feridas e das queimaduras tinham desaparecido. Somente se sentia fraca e esgotada.

Arrastada por uma curiosidade inquieta levantou-se, aproximou-se da janela e afastando a cortina debruçou-se para fora. Não havia dúvida, ela se encontrava num castelo fortificado. À direita e esquerda prolongavam-se as muralhas flanqueadas de torres da fortaleza, construída numa rocha a pique, dominando uma garganta profunda, no fundo da qual uma torrente bramia, espadanando nos
blocos de pedra.

Descortinava-se desta altura uma paisagem admirável. De todos os lados, montanhas cobertas de matas recortavam o horizonte e somente do outro lado da torrente, uma terra árida como deserto, cercada de rochas nuas, destoava por seu aspecto desolado do verde que se desdobrava por todas as partes.

Pensativa, Leonor voltou a sentar-se numa poltrona e meditou na estranha aventura da qual era a principal protagonista. Onde estava? E o homem misterioso que lhe aparecera na prisão? Nada respondia a suas perguntas.

A sensação de fome violenta arrancou-a de suas reflexões. Fez uma inspeção no quarto, mas nada encontrou de comer. Sobre uma cadeira havia vestidos novos e elegantes e os trapos que ela usara na prisão tinham desaparecido.

Com uma satisfação íntima, Leonor se vestiu, calçou elegantes sapatos de brocado, pôs um vestido de seda azul bordado, preso na cintura por um cinto de prata, ornado de turquesas, do qual pendia uma escarcela de veludo. Por fim colocou no pescoço uma corrente fina de ouro. Depois olhou-se no espelho.

Estava pálida e magra, mas o rico e elegante vestido que parecia feito para ela, assentava-lhe maravilhosamente.

Quando terminou de se arrumar, acalmou-se e esperou. A fome aumentava sempre, mas não vinha ninguém. Então ela viu numa mesinha, uma campainha de prata. Depois de um momento de hesitação tocou-a e, ansiosamente, aguçou o ouvido. Seu apelo não foi em vão. Ao cabo de um instante, ouviu passos no quarto contíguo e na soleira da porta apareceu um personagem que inspirou a Leonor terror e aversão. Era um homem gordo e baixinho, mas apesar disso flexível e ligeiro. Seus movimentos lembravam os de uma serpente. O rosto magro e anguloso tinha uma expressão dissimulada e seu olhar vesgo brilhava de malvadez. Espessos cabelos ruços e grossas sobrancelhas da mesma cor ardente, sobressaiam singularmente em sua pele bronzeada.

- Para servi-la, senhora. Mestre Leonardo me pôs à disposição de sua bela noiva, - disse o estranho personagem saudando-a obsequiosamente. E com sua comprida mão magra, de dedos aduncos, ergueu o reposteiro e acrescentou: - Queira seguir-me.

As palavras do desconhecido provocaram em Leonor um calafrio de medo e de horror. - Ele a tinha chamado de noiva de mestre Leonardo? De resto, que importava? Ela não renegara Deus e Jesus e pelo mais odiento sacrilégio vendera sua alma a Satanás?

Um suor frio orvalhou a fronte de Leonor, mas quase imediatamente a angústia se fundiu numa indiferença fatigada. Ela sentia apenas fome e sem pensar noutra coisa a não ser num bom repasto, seguiu seu condutor.

O serviçal a fez atravessar um quartinho de trabalho onde havia uma roca de marfim, um bastidor grande e cestinhas cheias de novelos de seda, ouro e prata. Em seguida a introduziu numa sala redonda, de paredes, forradas de carvalho escuro. Junto a uma mesa repleta de alimentos, havia duas cadeiras de altos espaldares esculpidos.

- Sirva-se, senhora, e depois distraia-se como puder. A senhora pode fiar ou bordar, ou então visitar o castelo se isto a interessar. Pode ir a todo lugar onde a passagem estiver aberta. Mas onde encontrar portas fechadas, não tente penetrar ali, o que de resto seria em vão, - disse o auxiliar. Saudou-a ligeiramente e desapareceu.

Impelida pela fome, Leonor tomou lugar à mesa e logo a refeição absorveu-a inteiramente. Parecia-lhe que jamais comera manjares tão delicados ou bebera um vinho tão delicioso. Quando saboreou tudo e comeu empadas e aves assadas, massas e doces em calda, sentiu-se estranhamente reconfortada. A força e a elasticidade da juventude lhe voltavam e com elas a alegria de viver e a descuidada confiança da pouca idade. O lúgubre passado, as torturas morais e físicas que ela padecera, apagavam-se.

O sol que brilhava lá fora, o ar quente e puro que entrava pela janela aberta, tentavam-na. Aspirou o ar com delícia e resolveu aproveitar-se da permissão do estranho personagem e visitar o castelo. Atravessou muitos quartos ricamente mobiliados, depois três vastas salas, cuja serventia ela não saberia explicar, e no fim de um longo corredor descobriu uma escada por onde subiu e que a levou a
uma das torres. Lá havia um balcão do alto do qual pôde ver uma outra parte do interior e do exterior da fortaleza. Verificou que de um lado, um largo fosso cheio d'água costeava as muralhas.

Uma ponte levadiça erguida e mais longe uma porta na muralha que dava para um caminho estreito. Este caminho em ziguezigue serpenteava entre as rochas, conduzindo ao fundo da garganta. No interior do castelo, percebeu um pátio pavimentado, no centro do qual via-se um poço com a abertura de pedra e uma corrente para puxar água.

Mais longe, separadas do pátio por um muro, viam-se as árvores copadas dum jardim. Leonor desceu orientando-se como pôde, acabou por descobrir o pátio e o poço que ela tinha visto do alto. Num canto havia uma portinha meio aberta que dava para um jardim pequeno, mas cheio de luxuriante vegetação e flores magníficas. Sob uma gruta formada de rosas e de madressilvas, havia um banco de musgo. Leonor sentou-se nele e pensou.

Com espanto notou que o castelo parecia vazio. Em nenhuma parte, ela encontrara um ser vivo. Apesar da ordem que reinava em tudo, o vasto edifício estava mudo e deserto como uma casa abandonada. Um pungente sentimento de angústia e de solidão tomou conta da moça. Ela estava então só no mundo? Seu pai, sua tia estavam mortos.

Walter, perdido para sempre e pela força das circunstâncias, ela se achava à mercê do homem temível que chamavam de mestre Leonardo e que a ligara a si por um espantoso sacrilégio. Lágrimas jorraram dos olhos de Leonor. Amargura, desespero, sede de vingança, tudo lutava em seu íntimo. Se ela pudesse saber quem inspirara a seus dois miseráveis denunciadores o pensamento de lançar contra sua inocente família, a infame e mentirosa acusação de feitiçaria que a perdera e a separara de Walter!
Súbito ela foi tomada de sonolência e da estranha indiferença que já experimentara. Suas lágrimas secaram e suas pálpebras se fecharam. Incapaz de se erguer, estendeu-se no banco de musgo; um agradável torpor a invadiu, seguindo-se um profundo sono.

Dormiu por muito tempo, sem dúvida, porque quando acordou, o crepúsculo caía e a brisa da tarde, fresca e perfumada; agitava a folhagem. Leonor se ergueu e quase imediatamente percebeu o personagem que vira de manhã, o qual se aproximava rapidamente.

- Venha, senhora, mestre Leonardo a chama, - disse ele, com voz obsequiosa e desagradável.

Apesar do estremecimento nervoso que a sacudia toda, Leonor se levantou prontamente e de cabeça baixa seguiu seu condutor. O que ia dizer o mestre terrível ao qual ela se entregara de corpo e alma?
Flexível e ligeiro como um gato, escorregando sem barulho pelos degraus da escada, o homenzinho conduziu a moça a uma parte do castelo que ela não visitara. Fê-la atravessar muitos corredores iluminados por lampiões suspensos do teto e enfim parou diante duma porta grande de madeira preta, na qual estavam esculpidos e pintados de vermelho sinais cabalísticos. No centro, frente a frente um do outro, uma serpente e um dragão.

Antes mesmo que alguém a tocasse, a porta se abriu por si mesma sem ruído e os dois penetraram numa antecâmara clareada por duas janelas.

- Fique aqui e espere que o mestre a chame. - disse o serviçal em voz baixa - Seja prudente e, sobretudo, obediente. Ele, o poderoso que tudo pode, não suporta que se lhe resista.

Ficando só, Leonor sentou-se numa cadeira e esperou. Seu coração batia rapidamente e um frio glacial invadia seus membros.

Os minutos que se escoavam, pareciam-lhe horas. A obscuridade aumentava rapidamente e o crepúsculo dava um aspecto lúgubre a todos os objetos mergulhados na sombra.

As poltronas, as arcas, tudo tomava dimensões fantásticas. Alguma coisa aterrorizante, como que flutuava no ar e o medo de Leonor atingiu seu apogeu quando, no quarto contíguo, uma voz sonora e metálica se pronunciou:

- Entre, Leonor, e não trema assim. Eu apenas lhe desejo o bem.

Apesar do medo que lhe inspirava mestre Leonardo, o som de uma voz humana naquele terrificante silêncio, foi para a moça uma libertação. Ela se levantou rapidamente e se dirigiu para uma porta que acabava de se abrir, através de cujas cortinas, filtrava-se um raio de intensa luz.

Leonor logo se achou numa sala vasta e comprida que, evidentemente, era um laboratório de alquimista. As paredes, forradas de carvalho escurecido pelo tempo, sustentavam numerosas prateleiras carregadas de alfarrábios, de manuscritos, de pacotes de ervas secas e de caixas de todos os tamanhos. Muitos armários estavam cheios de frascos, de ânforas, e de saquinhos multicores. Nas
mesas se amontoavam tubos, alambiques e instrumentos esquisitos para fins desconhecidos. No fundo, havia um fogão grande e não longe dele, ao pé da parede, erguia-se uma espécie de tenda de estofo preto, cujos lados ocultavam o que ela continha.

No meio do quarto, num púlpito esculpido, havia um objeto redondo, espécie de espelho metálico cuja superfície irradiava todas as cores do arco-íris, meio coberto por uma cortina de pano escuro.

Os olhares curiosos de Leonor corriam por esses objetos estranhos e desconhecidos, mas ela não tinha tempo de se entregar a um exame atento, porque toda sua atenção se concentrava no senhor daquele lugar. Era mesmo o misterioso visitante da prisão; somente que neste momento ele parecia menos espantoso. Sentado numa poltrona de espaldar alto, diante duma mesa sobrecarregada de livros, ele se apoiava com os cotovelos. Oito velas de cera fixadas em dois candelabros de ouro iluminavam fortemente suas vestes negras, simples, mas ricas e seu rosto pálido, característico, abria-se neste instante num sorriso benévolo.

- Aproxime-se, Leonor. Por que você treme e abaixa os olhos? Você tem medo de mim? Todavia não lhe fiz mal nenhum e até salvei-a duma morte odiosa. Sente-se lá, - e indicou-lhe um banco dobradiço, - bebe isto e sossega.

Você treme porque não compreende e julga ter caído no inferno. Mas eu lhe asseguro que um inferno como o que você pensa não existe.

Ele tirou da mesa uma taça cheia de um líquido vermelho e a estendeu a Leonor que a esvaziou docilmente. Um calor vivificante percorreu suas veias, sentiu-se mais calma e não vacilou quando os grandes olhos esverdeados de mestre Leonardo fitaram os seus com um olhar perscrutador. Este sorriu e se levantou. Neste instante, seu talhe alto e delgado, a sinistra beleza de seu rosto, agradaram a moça e o terror que ele lhe havia inspirado se dissipou.

- Agora escute atentamente o que lhe vou dizer; é seu futuro que você vai decidir. E o que espero, você deve fazê-lo de sua plena vontade, - disse mestre Leonardo com um tom sério - Você tem medo porque julga ter ofendido e renegado seu ideal, mas não tem razão, porque o seu Deus é inexorável e
impotente contra o mal, que é o senhor do mundo. Lance um olhar ao seu redor. Por toda parte, o bem é esmagado, ridicularizado, desprezado, e sucumbe sem que o céu tome o partido do justo.

As preces e as súplicas são em vão, porque é o mal que reina, que distribui as riquezas e os gozos, que recompensa e eleva, que destrói e se vinga. Você mesmo e os seus são uma prova da verdade de minhas palavras. Vocês três eram inocentes e, no entanto, foram destruídos. A justiça celeste não se comoveu, nada fez para ajudá-los, enquanto que aquela que os perdeu, a mãe de Walter, aquela que para se desfazer de você comprou os miseráveis que a denunciou, goza da estima geral e das honrarias.

A senhora Cunegundes e Filipina, sua cúmplice e protegida, assassinaram toda uma família. Não importa. Filipina desposará o noivo que ela arrancou de você e esses mesmos homens que condenaram você à fogueira, pedirão para ela as bênçãos do céu.

Sempre acontece o mesmo: o ímpio, o viciado, o blasfemador, triunfam. O louco que se agarra ao bem morre abandonado e miserável. É a lei do equilíbrio, que o maior domine, e qualquer lado que ele se encontre. O elemento mais fraco é absorvido pelo mais forte e no mundo que você habita, o mais forte é o mal. É diante dele que se deve curvar quem não quer ser esmagado pela fatalidade. Porque é infantil querer resistir às forças cósmicas que exigem a desordem, a desarmonia, o abuso e o sofrimento e afastam do seu caminho tudo o que lhes serve de obstáculo.

Leonardo parou diante da moça que escutava, pálida e fremente, e um sorriso demoníaco crispava seus lábios, quando continuou:

- Você compreende agora porque foi vencida?Foi porque procurou o amor puro, desinteressado, ideal, que não dá a quem o pratica mais do que miséria e decepção.

Porque não é o amor puro que exigem as forças desordenadas, os elementos desencadeados que governam nosso mundo. Se você tivesse amado seu noivo com uma paixão brutal e egoísta, você não recuaria diante de nada para tê-lo.

Você se desfaria de sua mãe, teria afastado Filipina, e os honrados magistrados que, para maior glória de Deus, arrancar-lhe-iam a carne em tiras, se curvariam até a terra, diante da bela senhora de Küssenberg.

E ainda, o que é você, ser ínfimo perdido na multidão? Atingido pela mesma fatalidade, o gênio morre de fome e quando ele morre de miséria, o coração amargurado e ralado de decepções, o povo estúpido e viciado que o ridiculariza e o renega, apodera-se de sua herança, enriquece-se com seus despojos e canta louvores àquele que não o pode mais aborrecer. Todos os gênios, os missionários,
os grandes portadores da luz, são assim condenados pela lei do mal e morrem na cruz ou na fogueira, afogados ou sufocados, porque esse é o lema deste mundo.

Eis aí, pobre Leonor, a grande lei soberana. Compreenda-a, se puder, mas infeliz de você se quiser servir duas forças ao mesmo tempo. A boa não a defenderia e a má trituraria você. E se não quiser perder seu último amparo, afaste de si a dúvida. Ela a empurrará para abismos cuja existência não pode supor.

E agora escolha. Quer voltar à virtude e ao bem?Neste caso é preciso que você morra, porque está fora da lei, marcada com o título infamante de feiticeira e condenada à pena capital. Um pouso honrado não achará mais. Se você preferir tornar-se uma filha do mal, nenhum ultraje a esperará. Não queimarão mais sua pele acetinada, seu corpo não servirá mais de espetáculo aos carrascos cínicos e
escarnecedores. E você não correrá o risco de que o verdugo a arraste pelos seus cabelos de ouro ao leito de algum inquisidor bastante misericordioso para convertê-la a portas fechadas e depois queimá-la. 

Você é bela, Leonor, como raramente o é uma mulher. Se consentir em ficar aqui como minha noiva, minha esposa, você sentirá todos os gozos do amor carnal. Nestes domínios do mal e de trevas onde eu sou rei, você será rainha. Quer? Como que fascinada Leonor ouvira o discurso insidioso e estranhamente persuasivo do representante do mal e os últimos protestos de sua consciência, a doce e harmoniosa voz de seu anjo da guarda, perderam-se no tumulto dos sentimentos novos que enchiam sua alma. Seu olhar colava-se ao pálido rosto de mestre Leonardo, a seus olhos fulgurantes, e pareceu-lhe belo como um deus.

Tinha medo deste homem, tremia diante dele e, contudo, um ardente desejo de ser amada por ele a invadia e destruía seus últimos escrúpulos. 

Caindo de joelhos, ela estendeu as mãos para ele, gritando com uma voz entrecortada:

- Graças! Tenha piedade de mim, homem terrível ou espírito infernal. Meu coração voa para você, mas o que será de minha alma? Como comparecerei diante do tribunal daquele que derramou seu sangue por mim? Diga-me, como renunciar à minha fé, à minha esperança numa vida futura?

Um tremor sacudiu o corpo flexível de mestre Leonardo e uma nuvem escureceu sua fronte. Depois ele soltou um riso estridente e metálico:

- Cega, você espera ainda alguma coisa lá do alto, depois de todas as recompensas por sua virtude? Aqueles a quem você quer adorar, prometerão a você as felicidades do céu, mas a deixarão morrer como um cão. E agora escolhe, o tempo urge: você quer voltar à prisão ou celebrar nosso casamento?
Responda!

Sob o olhar ardente de mestre Leonardo, a palidez de Leonor se tornou um sombrio rubor. Um amor cheio de paixão desordenada, bem diferente do doce e puro sentimento que Walter lhe tinha inspirado, começava a ferver nela. Um sorriso cínico e galhofeiro passou pelos lábios do misterioso castelão. Ele se inclinou e erguendo a moça em seus braços, atravessou com seu leve fardo o laboratório em toda sua extensão. No fundo, por uma porta que Leonor não tinha visto, ele penetrou numa segunda sala menor e estranhamente mobiliada. No centro, uma bacia de cristal muito funda estava cheia de uma água fosforescente, que se agitava e ondulava incessantemente como sob o sopro
duma brisa. Perto das bordas e formando um triângulo, havia três altos candelabros de prata, nos quais brilhavam, faiscando, grossas velas de cera negra.

De vários orifícios, desprendiam-se turbilhões de fumaça, enchendo o recinto de um aroma acre e atordoante. Sentindo em sua face o hálito quente de seu portador, como que um torpor embriagante se apoderou de Leonor. Ela não fez nenhuma resistência quando mestre Leonardo, tendo-a posto no chão, se pôs a despi-la rapidamente, nem mesmo observando que sob os dedos do estranho personagem, suas roupas pareciam fundir-se, destacar-se por si mesmas e escorregar para o chão. Depois, como um raio, ele a apanhou e a jogou na bacia.

No mesmo instante Leonor soltou um grito estridente; seus vestidos, que jaziam por terra, inflamaram-se e num segundo se consumiram. Quanto à moça, ela se debatia como louca na bacia, na borda da qual ela se agarrava convulsivamente.

Tinha a sensação de estar sendo queimada viva. A água da bacia lhe parecia incandescente, mil flechas a atravessavam com suas picadas de agulha. Cada nervo, cada fibra do seu corpo queimava-se, vibrava, contraía-se.

Seus cabelos se eriçavam como uma crina de ferro. Depois, todo o líquido pareceu incendiar-se e aterrada pela espantosa dor que sentia, a moça se dobrou sobre os joelhos.

Sem dar-lhe atenção, mestre Leonardo ergueu os braços sobre a bacia, tendo numa das mãos uma varinha vermelha como metal em fusão. Ele se pôs a cantar, num ritmo bizarro e cadenciado, palavras em língua desconhecida. Logo, a luz das velas se embaciou e pareceu envolver-se num vapor espesso. 

Um vento impetuoso assoprava fazendo ranger a folhagem e dobrar assobiando troncos de árvores invisíveis. O trovão ribombava, o solo tremia e através dos rugidos da tempestade ouviam-se gritos discordantes de homens e de animais. Uma auréola de relâmpago envolvia mestre Leonardo; verdadeiramente ele estava soberbo. Seus olhos lançavam chamas e de todo seu ser emanava uma tão poderosa vontade que nada parecia poder resistir-lhe. Sem querer, os olhos de Leonor se fixaram nele e ela pensou não ter jamais visto uma tão perfeita ainda que sinistra beleza.

Quando ele baixou a varinha, todos os ruídos se extinguiram e a sala retomou seu aspecto primitivo. Alquebrada, Leonor abateu-se na borda a bacia, mas com um sorriso o feiticeiro a ergueu e a depôs no solo. Como por encanto, sua fraqueza e toda sensação dolorosa desapareceram. Ao contrário, um agradável calor percorria seus membros e jamais ela experimentara uma tal plenitude de vida e de força. Com espanto, notou que nem seu corpo ou cabelos trazia qualquer traço de umidade. E quando mestre Leonardo a puxou para diante de um grande espelho, ela ficou admirada de sua própria beleza. Nunca ela tinha visto uma pele tão deslumbrante de brancura e da qual parecia irradiar-se um fulgor interno. Os cabelos de ouro estavam fosforescentes e os grandes olhos sombrios lançavam chamas. O que ela não notava era que sua beleza tinha mudado totalmente de caráter e adquirido um poder demoníaco.

Por um momento, mestre Leonardo contemplou-a com uma satisfação misturada de admiração. Ele apanhou as madeixas sedosas de seu cabelo e beijou-as. Depois apanhou uma leve túnica de fazenda prateada, talhada à grega, e prendeu-a com presilhas de diamantes. Em seguida; colocou-a nos ombros de Leonor juntamente com uma manta de seda escarlate bordada a ouro; ornou-lhe a cintura com um cinto de pedrarias; pôs-lhe no pescoço um colar de pérolas e nos braços, pesados braceletes. Por último, trouxe num cesto de vime uma grinalda de flores, colocando-a nos cabelos soltos de Leonor, que examinou maravilhada estas flores desconhecidas. Suas pétalas transparentes pareciam
rubis e de seus cálices saíam pistilos tão fosforescentes que pareciam minúsculas chamas.

- A noiva está pronta. Vamos ver nossos convidados, - disse mestre Leonardo, oferecendo-lhe a mão.

Atravessaram dois pequenos aposentos e um corredor abobadado, cujas portas se abriam por si mesmas ao se aproximarem delas. Em seguida, entraram em uma das vastas salas que Leonor tinha visto de manhã, sem saber explicar para que serviam. Agora, a sala estava cheia de gente, mas Leonor muito se espantou de ver reunidas pessoas de todas as condições, damas nobres e camponesas, burgueses e plebeus. Senhoras trajadas de veludo se misturavam amigavelmente com campônios de vestes grosseiras e faces endurecidas.

Toda a turba aclamou o castelão e sua dama freneticamente, quando ele a apresentou como sua noiva. Em seguida passaram para a sala contígua, no meio da qual estava posta uma grande mesa em forma de ferradura, carregada de baixelas preciosas e manjares delicados.

Com o modo democrático que caracterizava a assembléia, os convivas tomaram lugar e o banquete começou. O vinho corria abundante, os pálidos semblantes se coloriam e uma chama lúgubre brilhou nos olhos da multidão. Mestre Leonardo era o mais amável dos anfitriões, velando para que as taças e
os pratos estivessem sempre cheios pelos criados que circulavam atarefados ao redor da mesa. Os servidores eram pequenos seres disformes e repugnantes, verdadeiros representantes de alguma estranha raça de anões.

Leonor vivia como que um sonho. O coração batia descompassadamente e o sangue corria-lhe nas veias como uma torrente de fogo. A garganta estava seca, ela esvaziava taça sobre taça e os vivas e os brindes em sua honra e à de seu noivo, aumentavam-lhe ainda mais a excitação.

Súbito ouviu-se ao longe o som vibrante de um sino. Os assistentes estremeceram - apesar do vinho abundante ninguém estava embriagado - e gritaram a uma só voz:

- O casamento!

Todos se ergueram impetuosamente. Mestre Leonardo tomou a mão de sua noiva, a multidão os rodeou, dançando numa louca sarabanda e com clamores e cantos empurrou-os para uma porta oculta por uma cortina vermelha.

Dois dos pequeninos servidores, afastaram essa cortina e toda a sociedade penetrou numa comprida sala. Lá, sobre um altar montado em vários degraus, entronizaram uma estátua de bronze escuro representando um bode de talhe semi-humano. Entre os chifres recurvados ergueram uma tocha acesa. Parecia que das órbitas dos olhos brilhavam chamas de um amarelo baço e poderosas asas negras saiam das espáduas. O altar estava forrado de preto com duas velas de cera acesas, um livro de magia negra ao pé do ídolo, e uma taça cheia de um líquido vermelho.

Diante deste altar, paródia blásfema de um altar verdadeiro, os noivos param; um dos assistentes, velho de barba branca, sobe os degraus e depois de uma alocução cheia de um cinismo sacrílego, ele pega a taça e a apresenta a mestre Leonardo; este bebe e a passa a Leonor, que a esvazia docilmente. O líquido, acre e abrasante, dá-lhe nos lábios e na garganta uma sensação de queimadura.

Em seguida o mesmo oficiante estendeu ao esposo um anel trazendo engastado um diamante negro, que ele colocou no dedo da moça. Os assistentes entoaram um canto e se puseram a dançar em volta dos recém-casados.

Esta sarabanda desenfreada degenerou logo uma espantosa orgia; todos os demônios do inferno pareciam ter encontro marcado. Mas é preferível estendermos uma cortina sobre essas torpezas. É suficiente dizer que ao primeiro canto do galo, esta turba imunda se dispersou sem barulho, como um bando de pássaros noturnos que a um golpe de vento se esparrama em todas as direções.

Leonor acordou tarde e achando-se no quarto que ocupara na véspera, perguntou a si própria se não fora um horrível pesadelo que a atormentara durante o sono. Mas não, não foram um sonho as horrendas lembranças que lhe voltavam confusamente; o diamante negro que brilhava em seu dedo lá estava para prová-lo. Com medo e curiosidade, ela examinou o anel com a pedra preciosa que lançava brilhos multicores e trazia gravada no centro uma minúscula cabeça de bode.

Com um profundo suspiro, a jovem deixou cair a cabeça nos travesseiros. Tudo estava consumado, ela pertencia ao inferno, trazia o anel de Satanás e estava marcada com o seu selo. O que aconteceria agora? 

Ao pensar que reuniões como as da véspera poderiam se renovar, um frêmito de medo e horror percorreu-lhe a epiderme e mal grado a paixão que lhe inspirava seu misterioso e terrível esposo, houve um momento em que quase desejou a prisão e a fogueira.

Por longo tempo ficou deitada desejando chorar, mas parecia ter perdido o dom das lágrimas, e acabou por persuadir-se de que era infantil lamentar o irremediável.

Além disso, sentia fome. Levantou-se, vestiu um roupão e desta vez ela mesma encontrou a sala das refeições onde estava servido um excelente almoço. Leonor acabara de tomar um copo de leite e se dispunha a cortar uma ave assada, quando entrou mestre Leonardo. Ele parecia alegre e seu semblante não trazia nenhum traço das torpezas inenarráveis da noite. Abraçou ternamente sua jovem mulher e tão grande era a fascinação que ele exercia sobre Leonor, que ela esqueceu seus temores, seus remorsos, suas dúvidas e viu apenas aquele que cativava seus sentidos e seus pensamentos inteiramente.

O almoço decorreu alegre. Mestre Leonardo era amável e galante, ele mesmo serviu sua esposa e com sua conversa espirituosa conseguiu dissipar completamente seus pensamentos sombrios. Terminada a refeição propôs-lhe darem um passeio a cavalo.

- Certamente que eu quero - disse Leonor enrubescendo de prazer - mas eu não sei montar a cavalo.
- Ora! Não se inquiete por tão pouco, eu a ensinarei - disse rindo mestre Leonardo. - Vai, minha querida, vista-se, depois me encontre no pátio.

Em seu quarto, a esperava uma anãzinha, feia e corcunda de fazer medo, mas rápida e hábil arrumadeira, que a vestiu com um costume de veludo negro, um gorro com uma pluma da mesma cor, calçou-lhe as luvas e por fim colocou-lhe elegante gravata com laço de prata acompanhando um grosso diamante.

Impaciente e alegre, Leonor ganhou o pátio correndo. Encontrou o castelão trajado de preto como sempre e segurando as rédeas de dois soberbos cavalos negros como a noite. Ele ajudou Leonor a montar, mostrou-lhe como era preciso segurar as rédeas e depois de algumas voltas dadas no pátio, a jovem aprendeu mais ou menos a dirigir sua montaria que, de tão maravilhosamente ensinada, podia limitar-se apenas ao cuidado de não ser atirada fora da sela pela rapidez da carreira.

Satisfeito com o resultado desta primeira lição, mestre Leonardo esporeou seu fogoso ginete e eles deixaram o castelo por uma saída que Leonor não conhecia e que dava para um caminho, senão cômodo, pelo menos prático para os cavalos.

Ao alcançarem a aba da montanha, o castelão deu rédeas a seu cavalo e, rápido como o vento, os dois cavaleiros atravessaram campos e floristas. Chegando ao alto de uma colina, mestre Leonardo parou seu cavalo e, inclinando-se para Leonor que aspirava a plenos pulmões o ar puro e vivificante, disse-lhe com um sorriso:

- E então Leonor! A vida não é bela? Não é melhor do que a prisão, a fogueira e a companhia do carrasco, mesmo que ela custe alguns pequenos sacrifícios?

Leonor não respondeu. Nesse instante ela não se lamentava de nada, nem mesmo do sacrifício de sua alma. A beleza da paisagem que a circundava, absorvia-a. Realmente, a vista era magnífica. Inundada pelos raios de sol, estendia-se a seus pés a planície sorridente do Reno, bordejada de um lado pela cadeia dos Vosges e do outro pelas montanhas da Floresta Negra.

Porém, subitamente ela estremeceu. Aquela cidade que se erguia lá na planície com sua esplêndida catedral construída de pedras vermelhas, os canais que percorriam as ruas, era Friburgo, sua cidade natal, o berço e o túmulo de sua felicidade e de suas esperanças.

- Sim, sim, é Friburgo e lá iremos se você quiser - observou mestre Leonardo - ao passar, entraremos na loja de mestre Cristóvão Selve, para comprar algumas jóias e também fazendas. Seu guarda-roupa está longe de ser completo.

- O que você diz? - falou Leonor com um arrepio de espanto - Mestre Cristóvão me encomendou o estandarte que a confraria do artesão ofereceu à Virgem. Se ele me reconhecer, ou mesmo algum transeunte, prender-me-ão e me arrastarão à prisão!

Ao nome da Virgem, uma súbita crispação desfigurou momentaneamente os traços do misterioso castelão.

- É desnecessário você me contar para quem bordou estandartes. Sabes que não tenho nada a ver com aqueles lá de cima - disse ele duramente. - Quanto a seus receios de modo algum se justificam. Na altiva e rica castelã, ninguém reconhecerá a pobre moça condenada à fogueira, mesmo que notem alguma semelhança. Além disso, você se esquece de que se tornou a mulher de mestre Leonardo. Não tem mais que temer a justiça dos homens, ao contrário, é a vez deles tremerem diante de você.

Sem esperar resposta, lançou seu cavalo para a frente e Leonor o seguiu. Como por prazer, mestre Leonardo lhe fez dar uma volta por todas as ruas da cidade. Numerosas pessoas o saudavam respeitosa ou amigavelmente. Era evidente que o conheciam, mas de certo não sob sua verdadeira personalidade.

Leonor também encontrou muitos vizinhos e conhecidos: olhavam-na com admiração, mas ninguém demonstrou reconhecê-la. O próprio mestre Cristóvão examinou-a com um pouco de admiração curiosa, oferecendo-lhe amavelmente os mais belos artigos.

Deixando a cidade, o acaso quis que ela encontrasse o próprio Walter, porém o fidalgo caminhava de cabeça baixa e tão absorto em seus pensamentos que nem ao menos notou o cavaleiro e a dama que passavam perto dele.

O coração de Leonor bateu violentamente à vista de seu antigo noivo tão pálido e magro. Todavia ela notou com tristeza e espanto que não sentia por ele o mesmo amor de outrora. Durante todo o passeio pelas ruas de Friburgo e cada vez que o olhar de uma pessoa conhecida caía sobre ela, indiferente e curiosa, Leonor perguntava a si mesma se mudara de tal modo que ninguém suspeitava mesmo de sua
verdadeira personalidade.

Logo que entraram, ela correu a seu quarto e diante do grande espelho de Veneza, examinou-se como se fosse uma estranha. Notou então o que antes não notara. A mudança total operada no próprio caráter de sua fisionomia. Tinha perdido totalmente sua frescura rosada, seu rosto pálido de alabastro, parecia talhado em pedra, seus olhos tão doces e sonhadores, flamejavam agora como dois carbúnculos. O olhar apaixonado perturbava e fascinava e a pequenina boca, de um sorriso ingênuo, adquirira uma prega dura e altaneira. No seu rico costume de veludo e gorro preto nos cabelos dourados, ela representava tão bem uma orgulhosa e inabordável senhora, que era compreensível que nenhum dos pobres artesãos, seus vizinhos e amigos de outrora, reconhecessem nela a doce, tímida e cândida Lori Lebeling, tão amada de todos por sua bondade, simplicidade e virginal pureza, até o dia nefasto em que se abatera sobre ela a medonha acusação.

Tomada de súbita fraqueza, Leonor se deixou cair numa poltrona e continuou a fixar os olhos em sua imagem com dolorosa amargura. Sim, ela estava mudada, mas não era natural? Sua alma não tinha mudado mais do que seu exterior? Ela não renegara seu Deus, sua fé, sua esperança numa vida futura, e isto por uma existência vil, manchada por todos os vícios, cheia de sacrilégios e de blasfêmias, no fim da qual a esperavam a condenação e o fogo eterno?

Ocultou o rosto nas mãos e sentiu alguma coisa de pesado subir-lhe aos olhos, mas as lágrimas libertadoras não vieram.

A voz da anã que perguntava se ela não queria tirar a roupa de equitação, veio arrancar a jovem mulher de seus pensamentos. Leonor sentia um cansaço extremo, seus membros estavam pesados como chumbo. Ela aceitou então com prazer, mudar sua roupa de veludo por um vestido leve de seda branca.

Desmanchou as longas tranças que pesavam em sua cabeça dolorida e depois, foi sentar-se num balcão que descobrira no quarto junto ao seu. Sentou-se numa poltrona e com o olhar fatigado contemplou a radiosa paisagem que se lhe estendia na frente. As planícies verdejantes, as colinas cobertas de matas, a cintura de sombrias florestas que bordavam o horizonte, toda esta linda natureza, o céu azul tão puro, tudo respirava calma e quietude, mas o coração de Leonor estava vazio e triste e pouco a pouco uma apatia cheia de lassidão se apoderou dela.

Novamente, a anã tirou-a dessa fadiga sonolenta. Ela puxou uma mesinha e serviu à sua patroa uma refeição de pão, queijo, manteiga e carne fria. Leonor sentiu que tinha fome e passou manteiga numa fatia de pão. Mas súbito ela se lembrou que servira a Walter uma refeição semelhante, quando ele vinha visitála em casa de seu pai. Como ele comia com apetite as fatias de pão com manteiga que ela lhe preparava! Eles riam e conversavam juntos!E ela era ligeira e ativa, não sentindo jamais a fadiga, achando sempre tempo para ajudar sua tia nos trabalhos domésticos, sem se descuidar de seu próprio trabalho!

Leonor passou as mãos pelos olhos, mas como nenhuma lágrima viesse, persuadiu-se que não valia a pena chorar um passado que se fora para sempre. Esforçou-se por comer, bebeu uma taça de vinho e pôs-se a pensar no futuro. Ele lhe pareceu indizivelmente triste, vazio e tedioso. O castelo era deserto e ela não podia estar com seu marido senão à noite. A menos que ele mesmo viesse durante o dia, ela não devia jamais procurá-lo, nem chamá-lo, dissera-lhe mestre Leonardo.

Quando o sol se foi e os vales profundos se desvaneceram na bruma, Leonor resolveu procurar seu marido e pedir-lhe uma ocupação qualquer para preencher o tempo durante as longas horas do dia. Dirigiu-se então para o laboratório e parando diante da porta, perguntou:

- Posso entrar?

- Venha - respondeu a voz do castelão.

Mestre Leonardo estava sentado em frente à sua mesa de trabalho e quando Leonor se aproximou, viu que ele desenhava numa folha de pergaminho figuras cabalísticas. Mas, abandonando sua ocupação, enlaçou a jovem mulher, puxou-a para si, e imprimiu-lhe nos lábios um beijo ardente.

- Você vem pedir-me alguma coisa, minha bela esposa? - perguntou ele enquanto que um relâmpago de paixão acendia seus grandes olhos esverdeados. Sob este eflúvio de fogo, elevou-se de novo no coração de Leonor um sentimento antes desconhecido que abrasava todo seu ser. De um ímpeto, ela abraçou seu marido e devolveu-lhe o beijo.

- Você adivinha sempre o meu desejo, antes que eu tenha tempo de dizê-lo - respondeu ela com admiração - Sim, venho pedir-lhe alguma ocupação.

Aborreço-me quando você não está junto de mim. Ensina-me a fazer conjurações. A mulher de mestre Leonardo deve, assim me parece, ser também um pouco "feiticeira", disse ela apoiando a cabeça no ombro do marido. Mestre Leonardo se pôs a rir com aquele som estridente e metálico que causava arrepios.

- Oh! minha querida, um pouco feiticeira você sempre foi. Seus belos olhos e seus cabelos de ouro enfeitiçaram mais de um coração. Quanto a lhe ensinar minha ciência, é difícil. É muito perigoso conhecer dela apenas uns pedacinhos.

Mas diverti-la, eu o posso. Você quer olhar no espelho mágico? Verá nele o que fazem neste momento suas velhas comadres de Friburgo, ou o fidalgo de Küssenberg. Você prefere almas do outro mundo? Também posso mostrá-las.

- Almas do outro mundo! - repetiu Leonor pensativa - Oh! se você me mostrasse minha tia e meu pai, como eu lhe seria grata!

- É bem fácil, sobretudo seu pai. Quanto à sua tia, não lha posso mostrar. Ela se meteu com toda uma sociedade de santos. Lá, dizem preces e cantam mea culpa. A visão desta mulher somente a perturbaria.

- Sim, minha pobre tia era piedosa e sua fé não fraquejou nem mesmo durante a tortura, mas meu pobre pai se enforcou de medo dos tormentos, - observou Leonor com um suspiro.

- Justamente por isso é que eu posso mostrá-lo. Por sua grande "coragem" enviaram-no entre os nossos. Mas venha, posso dar-lhe logo este pequeno divertimento.

Ele levou-a para uma salinha circular, escura e sem janelas, iluminada fracamente por uma lamparina na qual crepitava uma chama verdolenga. Em frente da porta havia uma cadeira grande sobre vários degraus. Mestre Leonardo sentou-se nela, puxou Leonor para seu lado e levando aos lábios uma corneta de metal, emitiu um som agudo.

Um instante e apareceu na soleira o homem ruço e antipático que Leonor já conhecia.

- Oxarat, minha mulher quer ver seu pai. Ocupa-te disso imediatamente - disse mestre Leonardo com um sorriso ligeiro.

O homem inclinou-se respeitosamente, abriu um pequeno armário e dele retirou diversos objetos que depositou numa mesa. Entre eles havia uma tigela cheia de uma substância que parecia fogo líquido, uma espada muito afiada e um instrumento semelhante a uma flauta.

Aproximando-se da parede, Oxarat começou por traçar nos ladrilhos um círculo duplo com giz. Em seguida dispôs em triângulo, três trípodes nos quais acendeu carvões e derramou uma essência que se queimou, crepitando, com uma grande labareda exalando um cheiro acre e desagradável. Pegando então a espada, mergulhou a ponta na tigela, como uma pena no tinteiro e escreveu na parede uma inscrição em letras misteriosas que chamejavam como caracteres de fogo.

Depois tomou uma flauta e se pôs a tocar, porém os sons do instrumento eram discordantes, agudos e dolorosos como o grito de uma alma angustiada. Enquanto retinia essa música enervante, uma fumaça negra começou a brotar da parede, no centro do círculo que ele tinha traçado. Uma nuvem se formou, sulcada de faíscas e de ziguezagues de fogo e, subitamente, acenderam-se nos trípodes, clarões verdolengos. Da mesma nuvem fizeram-se ouvir gemidos estridentes, depois a massa brumosa se fendeu e, iluminado por um clarão embaciado, materializou-se um homem de porte alto, com uma corda no pescoço. Suas roupas estavam rasgadas e seu rosto lívido, crispado por uma angústia sem nome. Os olhos baços e arregalados.

- Pai, pai! - gritou Leonor fora de si e querendo lançar-se para ele, mas mestre Leonardo a reteve com mão de ferro.

O fantasma, ouvindo o chamado da filha quis precipitar-se para ela, mas Oxarat impediu o ato dirigindo-lhe a ponta da espada mágica, onde brilhava uma chama amarelada.

O espírito recuou imediatamente arrojando-se para o círculo e Leonor viu com espanto, o rosto de Oxarat transfigurar-se sob a expressão de uma vontade extraordinária. Seus olhos faiscavam, e os lábios cerrados demonstravam toda sua vontade. Ele governava o espírito evocado com a ponta de sua espada mágica, não deixando nem por um instante a figura da aparição.

- Salva-me, alivia-me, filha querida - gemeu o espírito estendendo para Leonor as mãos súplices - Eu estou sufocado, sofro mil mortes! Ah! Porque preferi a morte material e criminosa em vez da morte do mártir? Leonor, roga por mim ao Crist...

Antes que ele terminasse de pronunciar o nome venerado, Oxarat lhe cortou a palavra. Espetando lateralmente o espectro com a espada, fê-lo girar no ar.

Diante deste espetáculo, dos gritos agudos e desesperados que o espírito soltava, a vertigem do desespero se apossou de Leonor.

- Pai, pai! - gritou ela juntando as mãos - eu sou uma renegada, mas o senhor pode rogar. Oh! Jesus, Senhor misericordioso, tenha...

No mesmo instante Oxarat vacilou e caiu por terra como que abatido por uma pancada. O espírito do suicida desapareceu. O rosto de mestre Leonardo se descompôs tomando uma expressão verdadeiramente infernal. Sua boca retorcida mostrava dentes brancos e agudos como de um lobo. 

Com seus dedos flexíveis e longos ele agarrou o pescoço de Leonor e revirou-a na cadeira. A jovem tentou debater-se, mas a respiração lhe faltou, tudo ao seu redor girava e se tornava negro. A cabeça parecia estourar e em instantes ela perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, viu-se no laboratório, estendida na poltrona de mestre Leonardo que, debruçado sobre ela, enxugava-lhe o rosto com um pano de linho que exalava um forte cheiro de lírio. Ele estava sombrio como uma nuvem de tempestade, as sobrancelhas franzidas e testemunhava a terrível comoção que acabara de passar. Seu rosto estava lívido, lábios azulados, dedos violáceos e o
corpo tremia e se arrepiava.

- O que você fez, insensata? Se o galo não tivesse cantado, você estaria bem arranjada!- disse ele severamente - Jamais, entendeu? Jamais ouse, mesmo em pensamento pronunciar o nome daquele que você renegou. Nada poderá salvá-la. Você morrerá de uma morte em comparação da qual a fogueira seria uma delícia. Os espíritos infernais rasgarão seu corpo em tiras e eu próprio serei forçado a tornar-me seu carrasco. Tome cuidado em não desafiar forças que lhe são desconhecidas!

- Perdoe-me - murmurou Leonor, fitando medrosamente o rosto descomposto desse poderoso servidor do mal.

- Eu a perdôo porque você não sabia o que fazia. Para o futuro seja mais prudente. Lamentemos somente esse pobre Oxarat que foi quem mais sofreu. Ele está com o corpo coberto de feridas. Enfim, como tudo terminou de modo feliz, esqueçamos esta história e vamos cear. 

Leonardo levou a jovem para a sala de refeições e com sua habitual indiferença bebeu, comeu, e foi amável para com ela, rindo e zombando do terror pelo qual passaram e do perigo que correram. Em seguida conduziu Leonor a seu quarto e lhe fez companhia até que o galo cantou pela primeira vez depois da meia-noite. Quando ele levantou e se despediu para se recolher a seus aposentos particulares, Leonor abraçou-lhe o pescoço e murmurou num tom suplicante:

- Oh! diga-me quem é você! Homem estranho e terrível, grande é a sua ciência, imenso seu poder! Você é feiticeiro ou espírito das trevas?

Ele ergueu seu alto corpo, esticou seus membros flexíveis com movimentos felinos e respondeu, piscando o olho:

- Rainhazinha do sabá, eu sou mestre Leonardo.

Amedrontada, Leonor recuou. Ele, divertindo-se evidentemente com o medo dela, abraçou-a, puxando-a para si como a serpente à sua vítima. E se pôs a rir com aquele som sinistro que arrepiava a pele. E subitamente, tal riso pareceu continuar como se demônios o repetissem de eco em eco, abalando cada fibra do corpo da jovem.

Esta sentia o solo fugir-lhe dos pés. A cabeça girava, ela não via mais do que os olhos esverdeados que dardejavam sobre ela um olhar paralisante. Por uma segunda vez perdeu a consciência de si mesma.

Ao acordar de seu desfalecimento, era dia claro. Por um instante julgou ter sido vítima de um pesadelo. Porém quando se aproximou do espelho e viu no pescoço, as manchas violáceas dos dedos de mestre Leonardo, voltou-se estremecendo. Como estivera perto da morte! E o que teria acontecido se o galo não tivesse cantado a tempo?

III — A ESTÁTUA DE CERA

Depois do estranho desaparecimento de sua noiva, uma profunda melancolia se apoderara de Walter. Freqüentemente ele quebrava a cabeça para adivinhar como ela pudera fugir do cárcere. Ele agradecia a Deus por tê-la subtraído à morte horrível que a esperava. E, todavia, a convicção de que a perdera para sempre, roia seu coração como uma chaga. Nesta disposição de espírito, as determinações de sua mãe de casá-lo com Filipina Schrammenstedt lhe eram odiosas e a tenacidade com a qual a moça visitava sua casa sob o pretexto de ver dona Cunegundes, inspirava-lhe aversão por ela.

Uma tarde em que a senhora de Küssemberg o atormentava ainda mais do que o costume, descrevendo-lhe todas as vantagens do casamento que ela desejava e elevando a beleza e as virtudes de Filipina, o fidalgo respondeu impaciente:

- Deixe-me em paz, mãe! Jamais desposarei Filipina, porque amo Leonor. Não amarei senão a ela - e não a esquecerei até a minha morte. Eu sei que para mim ela está perdida, desonraram-na e destruíram-na. Onde e como desapareceu, somente Deus o sabe. Mas minha convicção de que ela era
inocente, é inquebrantável. Ela, Brígida e o pobre velho Klaus, são vítimas inocentes e possa a maldição de Deus abater-se sobre aqueles que lhes causaram tal infelicidade por odiosas mentiras!

Sem notar a súbita palidez da senhora Cunegundes, ele continuou:

- Em todo o caso é um péssimo serviço que a senhora quer prestar à sua protegida, tornando-a minha mulher. Eu não tenho nem mesmo amizade por essa moça vaidosa e fútil e sua vida não seria alegre ao lado de um marido cujo coração está cheio de amor por outra.

Depois desta conversa, a senhora de Küssenberg calou-se e deixou Walter tranqüilo durante várias semanas. Porém, depois voltou mansamente à carga reiniciou seus lamentos sobre a velhice desolada que a esperava junto a um filho celibatário, em lugar de ter a alegria de embalar netinhos em seus joelhos.

Muitas pessoas de sua parentela que ela soube conquistar para sua causa, puseram-se igualmente a persuadir Walter e cansado, o moço começou a ceder.

Aproveitando este momento de indecisão, o pai de Filipina que desejava ardentemente este casamento, organizou uma reunião íntima, para a qual convidou o fidalgo e sua mãe, bem como todas as pessoas que favoreciam a união projetada.

Walter compareceu mais taciturno do que nunca, porque sabia que não perderiam a ocasião de torná-los noivos. Há muitos dias que o catequizavam para isso. Repugnava-lhe fortemente esta união. Contudo estava esgotado e lhe era penoso entristecer sua mãe com mais recusas.

O jantar, composto de pratos particularmente delicados, foi não obstante, muito aborrecido, visto o sombrio mutismo do pretendente. Depois da ceia todos foram para o terraço que dava para o jardim, mas Filipina, sob um falso pretexto, levou Walter a um pavilhão todo coberto de vinhas e mostrou-lhe um bordado que ela andava fazendo. Em seguida, ofereceu-lhe frutas sobre uma mesa.

Walter, que compreendia muito bem a razão desta excursão a dois no fundo do jardim, resolveu pôr fim a esta situação enervante, explicando-se com a própria moça.

- Senhorita Filipina - disse ele sem preâmbulos - você sabe tanto quanto eu que nossos pais desejam ver-nos unidos. Mas eu julgo de meu dever dizer-lhe que este casamento lhe trará pouca felicidade, porque meu coração está morto desde o desaparecimento da pobre Lori de Lebeling. Não é segredo que eu a amei apaixonadamente. Pois bem!Eu a amo ainda e sua lembrança me será sagrada até a morte. A você eu não posso oferecer mais do que uma amizade fraterna. Contudo, se nestas condições você quiser aceitar-me por esposo e suportar a vida tal como tenciono vivê-la, não exigindo jamais meu amor, cederei ao desejo de nossas famílias, e anunciarei agora o nosso noivado. Reflita bem, Filipina, antes de tomar uma decisão. Jovem, amável e rica como você é, poderá casar-se com um homem que a ame unicamente e que lhe dará mais felicidade do que eu.

Durante este discurso pouco lisonjeiro, rubor e palidez alternaram-se nas faces de Filipina. Certamente uma outra moça recusaria um pedido de casamento assim formulado.

Mas ela era de uma outra têmpera: não somente Walter lhe agradava, como a perspectiva de entrar na nobreza, de acompanhar seu marido à corte do imperador, tentava sua vaidade. Além do que, suas amigas lhe invejariam o brilhante casamento, o belo e aristocrático noivo e as bodas esplêndidas que seu pai queria preparar! E por que, afinal de contas, ela não se faria amar pelo fidalgo? Justos céus! Ela valia bem mais que uma miserável artesã como Leonor, aquela maldita que lhe roubara o coração de Walter! Jamais se consolaria de que ela tivesse escapado da fogueira!

Refletindo bem, resolveu não deixar escapar esta ocasião única de agarrar o marido desejado e curvando a cabeça com fingida modéstia, respondeu-lhe em voz baixa:

- Suas palavras são cruéis, Walter, porque você sabe que eu o amo mais do que tudo e prefiro mesmo sua amizade, ao amor mais ardente que me oferecesse um outro homem. O orgulho me impele a recusar seu pedido tão hostil, mas meu amor é mais forte do que meu orgulho. Quero contentar-me em viver perto de você, velar por seu bem-estar, sem jamais me queixar.

Trabalharei por não desagradar-lhe e esperarei com paciência que você sinta por mim uma amizade mais viva. Compreendo e desculpo a dor que você sente, porque eu mesma deploro do fundo de minha alma o triste fim da bela e doce Leonor, que eu não posso crer culpada, apesar de todas as provas que recaem contra ela. Walter ergueu a cabeça espantado. Jamais julgara ser tão vivamente amado. Mas o insidioso discurso da astuta moça tocou seu ponto fraco: a generosidade.

Ele era profundamente correto e honesto para duvidar da sinceridade das palavras que acabava de ouvir.

Estendendo a mão à Filipina, ele lhe disse bondosamente:

- Se você não receia ligar sua vida à minha, torne-se minha companheira. Eu me esforçarei honestamente para tornar-lhe a existência tão suportável quanto possível.

Quando Filipina pousou sua mão na dele, ele puxou-a para si e deu-lhe um beijo na testa, mas a moça sentiu toda a frieza da primeira carícia e a cólera ferveu-lhe o íntimo. Todavia ela era muito senhora de si para nada deixar transparecer de seus sentimentos mais profundos e com aparente resignação, apoiou a cabeça no peito de Walter.

O noivado encheu de alegria a senhora Cunegundes e a família de Filipina e quando a novidade se espalhou pela cidade, todas as mães que tinham aspirado a ter Walter por genro e todas as moças que tinham sonhado com o rico e encantador fidalgo, experimentaram um pungente ciúme. Sob este aspecto, Filipina pôde ficar amplamente satisfeita e ela não se furtou ao prazer de reunir freqüentemente suas amigas para mostrar-lhes as finas fazendas, os brocados, as rendas, a baixela, e a prataria e os cristais destinados ao seu enxoval. E, sobretudo, para exibir aos olhos ávidos das moças, que ainda não eram noivas, o esplêndido estofo de seda, bordado de pássaros e rosas de prata, e o colar de diamantes e pérolas, que lhe foram enviados por seu futuro esposo e que ela devia usar na cerimônia.

Cheias de inveja, as amigas se desforravam criticando as relações dos noivos, a indiferença do fidalgo, que preferia conversar com as velhas a falar de amor à Filipina.

Esta, muitas vezes em tais momentos, tinha o rosto em fogo, mas visivelmente não se atrevia a fazer cenas. Jamais se falara tanto do amor de Walter por Lori Lebeling e se sentira tanta compaixão pelo seu triste fim.

O barulho, o movimento, os mil preparativos que enchiam as duas casas dos futuros cônjuges, pesavam indizivelmente ao fidalgo. Para se livrar disto e se furtar ao mesmo tempo de seus deveres de noivo, declarou que iria passar as três últimas semanas antes de seu casamento num convento distante, onde um de seus tios era prior. Ele desejava pedir a bênção do rígido e venerável ancião e se preparar pela prece e pela solidão para a cerimônia.

Esta resolução pareceu tão natural que ninguém se espantou e Filipina ficou satisfeita com a partida de seu noivo cuja reservada frieza e frouxa amizade a envergonhavam e a comprometiam somente. Walter partiu sem alarde, feliz por se refugiar durante os últimos dias de sua liberdade na calma e no silêncio do claustro, a fim de aí chorar livremente sua felicidade perdida.

Depois de sua partida, os preparativos do casamento continuaram ainda com mais ardor. Tudo devia estar pronto para a volta do noivo. A senhora Cunegundes primeiro pensara em mudar-se para deixar aos jovens esposos o gozo de toda a casa, mas Filipina suplicou-lhe que ficasse. Ela contava com a influência de sua sogra para forçar Walter a ser mais carinhoso para com ela. Apesar de tudo, tinha medo do futuro, da vida com um marido que não a amava, que jamais a amaria.

A senhora Cunegundes deixou-se então persuadir por sua futura nora e consentiu em ocupar três bons aposentos do segundo andar, até aí destinados aos hóspedes. Quanto às refeições, decidiram que seriam tomadas em comum.

* * *
Enquanto se passavam em Friburgo esses acontecimentos, Leonor continuava a viver no estranho castelo, do qual ela não conhecia nem o nome, nem o proprietário. Mestre Leonardo a fazia tremer.

Em seus longos dias solitários, ela pensava nessa estranha situação, perguntando a si mesma se seu terrível amante ou esposo, a amava verdadeiramente ou a considerava somente como um brinquedo passageiro.

Quem era ele? Em que se ocupava o dono do castelo durante todo o dia, em que ela não o via senão raramente? De resto Leonor jamais via alguém, exceto a anã que a servia, e Oxarat, o qual, depois da evocação de seu pai, demonstrava-lhe um ódio mal disfarçado.

Nos compridos dias desta vida reclusa (ela não assistira mais a nenhuma reunião como a de seu casamento), Leonor recomeçou a pensar em Walter. Ela se lembrava com amargura dos calmos momentos de amor passados com ele.

Nestas horas de devaneio solitário, a fascinação exercida sobre ela por mestre Leonardo enfraquecia-se e a imagem de Walter retomava seu império. O que ele fazia agora? Há mais de seis meses que ela desaparecera e não sabia nada dele. E de revê-lo, mesmo de longe, ela não tivera mais ocasião. Ainda que de tempos em tempos passeava a cavalo com o misterioso castelão, este não a levara mais à cidade.

Ela resolveu interrogar mestre Leonardo a respeito de seu antigo noivo, porém cada vez que a ocasião se apresentava, um vago temor lhe fechava a boca. Por fim, uma tarde, à ceia, vendo o marido particularmente amável e de bom humor, decidiu-se e perguntou inopinadamente:

- Você não sabe que fim levou Walter? Ele ainda está em Friburgo ou voltou a Viena, ou a seu castelo?

- Certamente que o sei. O fidalgo de Küssenberg está em Friburgo e vai desposar a filha do conselheiro Schammenstedt. Se, porventura, você quiser vingar-se deles, eu lhe darei as possibilidades. Prometi e mantenho minha palavra, - afirmou ele com um olhar dissimulado e escarninho.

Leonor estremeceu e franziu as sobrancelhas.

- Sim, eu quero vingar-me não de Walter que certamente forçaram a este casamento, mas de Filipina e da miserável mãe dele que destruiu minha vida e me arrojou no abismo. Pois bem! Já que sou uma renegada, quero ao menos saborear a vingança. Desejo erguer-me entre Walter e essa moça detestável e tirar-lhe o gosto de possuí-la.

Mestre Leonardo que partia tranqüilo uma asa de ave, sorriu descobrindo seus dentes brancos e agudos.

- Ingrata, salvei-lhe a vida, iniciei-a em todos os gozos do amor e você ainda se lamenta de ter perdido a alma!...

Em seu contato diário com o estranho personagem, Leonor se tornara mais audaz e fixando-o com um olhar ardente, ela aduziu:

- A alma é um bem muito precioso para que se possa perdê-la sem sentir remorsos. E eu, ai de mim! Sei que sou uma maldita porque reneguei tudo o que outrora adorei. Pertenço a um ser cujo nome tremo ao pronunciar e o qual nem sei se é um homem ou um espírito infernal.

Um relâmpago de indizível ironia brilhou nos olhos verdolengos de mestre Leonardo cravados na jovem, a qual se jogou bruscamente de costas vendo de repente aparecer entre os espessos cabelos negros e ondulados, pequenos inchaços. Ao mesmo tempo, por uma causa desconhecida, um clarão de um vermelho intenso tingiu a cabeça de seu marido, seu rosto, o fundo da cadeira de espaldar alto na qual ele estava sentado e até a ponta de seus dedos finos que seguravam ainda o osso do frango, que ele acabava de deglutir.

Vendo Leonor cobrir o rosto com ambas as mãos, mestre Leonardo, que se divertia gostosamente com o susto da jovem, soltou uma estridente gargalhada e afastando-lhe as mãos, afirmou:

- Vejamos, acalme-se medrosa, e não se desespere. Você vai vingar-se cruelmente de seus inimigos e a vingança satisfeita é um bálsamo para muitas chagas. É verdade que se eu não a visse nunca, jamais me teria apoderado de você e não se tornaria uma sólida e entusiasta filha do mal. Aquela víbora da
Gertrudes, que sabe que tenho um fraco pelas belas criaturas, evocou-me para me tentar pelos seus cabelos de ouro e salvar-se a si mesma. E ela o conseguiu. Por causa de você, concedi-lhe sua miserável vida. Sem isso eu a teria deixado arder na fogueira, sem misericórdia. Mas conversamos muito para o momento. Vamos ao laboratório. Se eu quiser pôr em execução o projeto que envenenará o dia do casamento da senhorita Filipina, não temos tempo a perder. 

Olhos baixos, Leonor tomou o braço que ele lhe oferecia e o seguiu ao laboratório, onde afez sentar-se numa poltrona e chamou Oxarat. Com a ajuda deste, amontoaram e queimaram nos trípodes, ervas que exalaram um aroma tão forte e perturbador que Leonor foi tomada de vertigem. Em seguida acenderam o fogo, puseram nele um enorme caldeirão de cobre e derreteram cera branca, à qual mestre Leonardo juntou um pó avermelhado. Quando a massa estava em ebulição, ele estendeu as mãos sobre o caldeirão e pronunciou conjurações numa língua desconhecida, modulando-as num ritmo bizarro, às vezes lenta, às vezes vivamente.

Leonor, que o observava curiosamente, sentiu um sopro gelado percorrer-lhe as veias e uma vaga sonolência a invadiu. Seus membros estavam pesados como chumbo. Incapaz de fazer um movimento, ela se abateu na poltrona.

Como num sonho viu, por entre suas pálpebras meio fechadas, Oxarat trazer um objeto que lhe pareceu um esqueleto humano. Em seguida mestre Leonardo tirou do caldeirão a cera rosada e flexível, endureceu-a e aplicou-a ao esqueleto.

Depois ela perdeu os sentidos. Sem prestar-lhe atenção, mestre Leonardo continuava o trabalho com uma rapidez fantástica. Sob seus dedos, a cera obediente se moldava com uma incrível facilidade e logo ficou esculpido o corpo do seu modelo, estendido em sua frente como que adormecido.

Oxarat o ajudava, apresentando-lhe ora um pincel ou tintas, ora cinzéis e esmaltes. Em último lugar o demoníaco artista incrustou nas órbitas, dois grandes olhos negros feitos de uma substância desconhecida, mas vivos até a ilusão.

Enfim, com o auxílio de Oxarat, mestre Leonardo raspou a cabeça de Leonor e colou tão habilmente seus cabelos louros na cabeça da estátua, que pareciam ter nascido ali, envolvendo-a com um manto sedoso e dourado. Ele contemplou com satisfação sua obra verdadeiramente admirável. Cada fibra da linda estátua parecia vibrar e palpitar. Com não menos cuidado, vestiu a estátua de cera com uma túnica branca, pôs-lhe no pescoço um colar de pérolas e nos pulsos, braceletes. Recuando um passo e examinando sua obra infernal, ele disse:

- Para ser perfeita, falta-lhe a vida. Tentemos corrigir este último defeito. Tocou com uma varinha a fronte de Leonor, cujos olhos se abriram desmesuradamente. Ela contemplou com mudo estupor sua imagem que lhe sorria como refletida num espelho. Quanto à falta de seus cabelos, ela nada notou. Leonor também não viu Oxarat trazer um trípode cheio de brasas, sobre as quais ele esvaziou um frasco de essência incolor. Uma fumaça branca encheu o laboratório, exalando um cheiro sufocante. A vertigem a retomou, ela sufocava.

Cascatas de centelhas fosforescentes turbilhonavam diante dos olhos. Sentia seus membros se enrijecerem e o sangue subir-lhe ao cérebro fervendo. Depois ela teve a sensação de que um vapor ardente emergia de todo seu corpo, condensava-se numa nuvem de um vermelho carregado, o qual,  como uma onda de sangue precipitava-se para o corpo de cera, ficando ligado a ela por um fio de fogo. Por um instante tudo turbilhonou em torno dela com uma tal violência que de novo perdeu os sentidos. Voltou-lhe a compreensão e com ela a esquisita e indescritível sensação de penetrar num outro corpo, nele se esparramando de qualquer jeito e animando com vida e calor essa matéria estranha.

Um instante mais tarde, seu olhar dilatado de espanto percebeu seu corpo abatido e inerte na poltrona, cabeça raspada, o semblante lívido e contraído numa tensão mortal.

Notando que era pelos olhos da estátua que ela agora via, um rouco suspiro escapou de seus lábios. Porém mestre Leonardo soltou um grito de triunfo. Ele tinha terminado sua obra infernal e animado à matéria inerte com uma alma humana, exteriorizando o corpo perispiritual de Leonor. (1)

***
(1)— Sem estar totalmente de acordo com o autor, seria o que a Doutrina
Espírita denomina de agênere (N. da E. ).
***

E colocando ainda no dedo da estátua animada um anel mágico, colando no pedestal que a suportava uma faixa de pergaminho, na qual ele escreveu:

"Naema", mestre Leonardo esfregou as mãos com satisfação. E voltando-se para seu ajudante, afirmou:

- Agora, amigo Oxarat, é preciso levar para o quarto a bela Leonor, a verdadeira, e providenciar tudo para que ela não sofra nada durante a viagem que sua alma fará a Friburgo.

Oxarat que, num êxtase de admiração, se tinha prosternado e beijado os pés de seu amo, levantou-se imediatamente e correu a buscar uma espécie de maca de rodas, na qual estenderam o corpo inerte de Leonor, que Oxarat transportou em seguida para o quarto.

Lá, ele chamou a anã que a servia e com sua ajuda deitou o corpo rígido e frio, cobriu-o com um cobertor, depois de lhe ter colocado na cabeça raspada um gorro de lã embebido numa essência fosforescente. Feito isto, ele abaixou as cortinas de brocado do leito, bem como as que cobriam as janelas, acendeu carvões num trípode e entregando à anã um saquinho e um frasco, ordenou-lhe sob ameaça da mais severa punição, que entretivesse noite e dia uma defumação ligeira que manteria no quarto um perfume acre e vivificante.

Quando ele voltou ao laboratório, encontrou mestre Leonardo sentado, contemplando a estátua que parecia ainda mais bela do que seu modelo e desta admiração Oxarat participava sinceramente.

- Você me ouve? - perguntou-lhe depois de um silêncio, mestre Leonardo.

- Sim - respondeu como um sopro entre os lábios de cera.

- E qual é o seu nome?

- Naema.

- Sorria para mim, bela Naema.

Nos olhos estranhos, transparentes e luzentes como diamantes negros perpassou uma expressão como se do interior uma flama os iluminasse e um fugitivo clarão animou as pupilas, enquanto que um sorriso fraco e forçado franzia os lábios encarnados.

- Agora, Naema, desça e colha-me uma flor lá naquele vaso. É preciso que você aprenda a manejar seu corpo de cera.

- Eu não posso, os pés não me obedecem - respondeu a voz baixa e velada.

Mestre Leonardo sorriu e erguendo os braços começou a dar passes na estátua da cabeça aos pés. Um clarão fosforescente, semelhante a uma fumaça, parecia exalar-se de seus compridos dedos afilados, enquanto que uma ligeira tinta vermelha percorria os membros da estátua de cera. Um pouco mais tarde, um dos pezinhos moveu-se e desceu do pedestal. Com um passo um tanto automático, Naema dirigiu-se para o vaso e com sua mão rosada colheu uma flor que ela ofereceu a seu misterioso criador.

- Perfeito! Podemos agora, minha linda, enviá-la a seu destino. Vá, vingue-se sem ter medo nenhum. Enquanto este anel mágico estiver em seu dedo, ele a protegerá e nada poderá destruí-la. De resto, eu mesmo velarei incessantemente por minha bela esposa.

Enquanto ele falava, Oxarat empurrava para o laboratório uma comprida caixa de madeira com o interior forrado de cetim azul acolchoado. Com precaução, colocaram nele o corpo de cera e o cobriram com uma leve gaze.

Leonor sentia-se cair num agradável relaxamento, uma estranha frescura percorria seus ombros, agora de uma leveza ainda desconhecida. Nenhuma fadiga, nenhum temor a atormentava. Quanto tempo durou esta inconsciência?

Ela não o podia dizer.

Vozes altas e a sensação de uma luz muito viva arrancaram-na do seu torpor e no mesmo instante um estremecimento percorreu todo seu ser. A voz conhecida do homem amado acabava de dizer bem perto dela:

- Meu Deus! Quem me terá enviado este presente?

Leonor sentiu que a tiravam da caixa e a depunham no chão. Ela se achava no pedestal, mas via tudo o que se passava. Ao redor dela se comprimia uma multidão de damas e fidalgos ricamente vestidos, cujos olhos se fixavam curiosamente nela. Na primeira fila ela viu Walter em traje de cerimônia, uma
pesada corrente de ouro no pescoço, mas pálido e triste. Perto dele, a senhora Cunegundes vestida de brocado carmesim. Filipina em seu esplêndido vestido de noiva, coberta de jóias. Atrás deles, entre muitos magistrados, Leonor reconheceu os juízes que a condenaram impiedosamente. À vista de todas as pessoas que destruíram sua vida e foram causa de sua maldição, uma onda de ódio encheu-lhe o coração. O grupo fora arrancado da ceia pela chegada do estranho presente. Pela porta largamente aberta da sala percebia-se no salão contíguo a mesa do banquete, carregada de cristais e pratarias, o pavão assado que lhe enfeitava o centro e as ricas jarras cheias de vinho. A senhora Cunegundes celebrava pomposamente o casamento de seu filho.

Os convidados giravam ao redor da estátua esquisita, trocando comentários e suposições a respeito do doador. Um jovem pintor chamado Raimundo, amigo de Walter, estava sobretudo admirado.

- Que obra divina é esta Afrodite - repetia ele apalpando com precaução a mão transparente da estátua. - Sim, deve ser Afrodite, a túnica o indica. Ela é feita de cera, mas a perfeição do trabalho é tal que a acreditaríamos vivente. E os cabelos, são verdadeiros! Senhor Deus, quem pode ser o artista que criou esta obra-prima?

- E vejam que pérolas ela tem no pescoço e que braceletes! No dedo um anel com um diamante negro! É um presente de rei, senhor Walter - gritou uma das damas contemplando com inveja as jóias incomparáveis.

Somente Filipina não disse nada e seu olhar sombrio e rancoroso passava da estátua para seu jovem esposo, o qual não conseguia despregar os olhos do rosto dessa fascinante mulher de cera. Verdadeiramente o coração de Walter batia de se romper, enquanto ele examinava os traços da mulher adorada e uma espécie de ciúme de que tantos olhos estranhos a admiravam, tomou-o de repente.

Voltando-se para dois criados, ordenou-lhes que transportassem a estátua para seu gabinete de trabalho e que a colocassem num nicho, no momento ocupado por um busto.

- Voltem a cear, caros amigos e convidados. Irei logo que instalar em seu nicho a maravilhosa estátua — falou o fidalgo com um sorriso afável. Mas logo que os convidados tomaram o caminho do banquete, o jovem correu atrás dos criados que transportavam o misterioso presente, que ele acabara de receber.

Logo Naema se achou instalada em seu nicho. Os criados se retiraram, masWalter, sentando-se numa cadeira, contemplou alinda estátua, cujos olhos fosforescentes no escuro, fitavam-no com uma expressão indefinível.

- Obrigado, quem quer que sejas, amigo desconhecido, que modelaste esta imagem maravilhosa de minha amada - murmurou o fidalgo - Não lhe pudeste dar a expressão da pura e radiosa inocência que iluminava o doce semblante de Leonor, mas são seus traços, seus belos cabelos de ouro, que tantas vezes eu cobri de beijos.

Levantou-se bruscamente, aproximou-se da estátua e, pegando com as duas mãos as madeixas sedosas que a cingiam como um véu ondulante, nelas encostou seu rosto.

Porém imediatamente ele pulou para trás assustado: parecia-lhe que uma mão acariciava sua face e uma voz doce e velada murmurava - "Walter".

Seu olhar correu pela estátua, imóvel na sombra do nicho. Evidentemente ele sonhara, ou então sua imaginação o enganava. Apressadamente ele deixou o gabinete.

Terminado o banquete enquanto as pessoas idosas se agrupavam para conversar e os jovens dançavam no salão ao som de flautas e oboés, e depois que Walter cumpriu o dever do primeiro número com sua mulher, Raimundo se reuniu a ele e dando-lhe o braço arrastou-o para o vão profundo do balcão que dava para a rua.

- Walter - murmurou ele, inclinando-se quase em sua orelha - é a estátua de Leonor que lhe enviaram? Você a reconheceu como eu? A expressão não está correta. Nos traços da estátua há qualquer coisa de altaneiro, de voluptuoso, direi quase de demoníaco, que não havia absolutamente em sua pobre noiva, mas é ela e, sobretudo, são os cabelos dela. Penso que em todo o Reino não existe uma segunda cabeleira com este colorido e de tal opulência.

- Sim, é mesmo a imagem de minha pobre Leonor, que me ofereceu um amigo desconhecido. - respondeu baixinho o fidalgo - Infeliz criança, jamais me consolarei de não ter podido salvá-la e até minha morte, seu vulto ensanguentado se elevará entre eu e esta estúpida e insignificante criatura que minha mãe me forçou a desposar!

O jovem pintor apertou-lhe a mão.

- Sim, a senhora Cunegundes deu provas, neste negócio de uma tenacidade rara, e Filipina, de raríssima modéstia. Salta aos olhos mesmo de um cego que você não a ama. Quanto à pobre Leonor estou certo de que ela morreu no meio das torturas, e que a história de seu desaparecimento é uma simples invenção.

Sem isto, como o artista conseguiria seus cabelos? Quero a respeito disso tentar uma investigação junto ao carrasco. Sua filha, a bonita Hildebranda, me quer bem. Mas antes de tudo, Walter, faço-lhe um pedido. Você me permitirá desenhar sua estátua? Encomendaram-me um quadro para o qual julgo não encontrar um modelo melhor do que esta fada de cera.

- Sem dúvida, concedo-lho com o maior prazer. Venha dentro de alguns dias e desenhe tanto quanto você quiser.

IV — INFORTÚNIO DE RAIMUNDO

Terminada a festa, a brilhante sociedade se dispersou. Os recém-casados retiraram-se para seus aposentos e a escuridão e o silêncio reinaram na casa. Pela alta janela do gabinete de trabalho de Walter, projetava-se um largo raio de lua cheia, inundando com sua luz o carvalho escuro do forro da parede, o feixe de armas e a armadura do fidalgo perto da porta, mas o nicho no qual estava Naema permanecia mergulhado em escuridão profunda.

Súbito, um suspiro abafado escapou dos lábios de cera, e um arrepio de vida percorreu os membros da estátua. Lentamente ela desceu de seu pedestal, deu alguns passos e, hesitante, parou em plena claridade da lua, bela e estranha como uma visão fantástica.

Cólera, angústia, amargura, embaralhavam-se na alma de Leonor. O que poderia fazer ela, uma estranha, encerrada neste corpo de cera, para lutar contra a mulher que lhe arrebatara o noivo amado?Desencorajada, ficou imóvel fixando os olhos na janela com um olhar distraído, quando de repente uma nuvem avermelhada moveu-se nos vidros, projetando seu clarão sangrento no solo e na túnica de Naema-Leonor. E logo, desta nuvem saiu um vulto humano, e ela percebeu de pé, no rebordo da janela, a alta e fina estatura de mestre Leonardo. A lua iluminava fortemente seu traje preto, sua cabeça pálida e os grandes olhos esverdeados que dardejavam sobre ela um olhar escaldante e imperativo.

- Em que você está pensando em lugar de agir? Vá e arranque o homem que você ama dos braços da mulher que lho tomou! Não se esqueça, Naema, de que você é uma serva do mal, que você deve fazer o mal e jamais ficar inativa. Os sofrimentos que você infligir aos outros é que serão sua seiva vital e seus gozos.

O clarão vermelho empalideceu, o vulto humano se desfez como uma bruma ligeira, mas todo o ser de Naema estremeceu e sacudiu-se como sob o sopro de um golpe de vento.

Depois, como que animada de vida e de resolução novas, ela se dirigiu rápida para a saída, percorreu um longo corredor e encaminhou-se diretamente para o quarto do casal. A porta estava fechada, mas ao toque do dedo de cera ela se abriu sem ruído.

Naema ergueu o reposteiro e parou na soleira. Ao suave clarão de uma luzinha, ela viu Walter sentado numa poltrona. Diante dele, de costas para a porta, Filipina ajoelhada, vestida com uma camisola branca. Ela abraçava o pescoço do marido que, pálido e mudo, ouvia as palavras carinhosas e cheias de amor, que ela lhe dizia.

Um sentimento acre e ardente atravessou como uma flecha o coração de Leonor. Todo seu ser palpitava de ciúme e de ódio contra esta mulher que lhe tinha roubado tudo. Se neste instante ela pudesse com seus dedos de cera estrangular Filipina, ela o faria com alegria. Mas pelo menos, não lhe cederia o coração de Walter, ela o defenderia como sua propriedade legítima e somente a ela, a renegada, ele amará doravante! Sim, ela o queria e assim seria. Não era em vão que vendera a alma às potências infernais.

Dando um curto passo à frente, Naema ergueu a mão e no mesmo instante os olhos do fidalgo se voltaram para ela e se fixaram, pasmados, na branca aparição que se apresentava a alguns passos dele, em toda sua estranha e misteriosa beleza.

Vendo a aparição fazer sinal de segui-la e depois desaparecer nas dobras do reposteiro, Walter saltou da cadeira e livrando-se dos braços que lhe enlaçavam o pescoço, repeliu bruscamente Filipina e lançou-se fora do quarto. No corredor ele percebeu uma sombra branca que parecia deslizar em sua frente e que desapareceu em seu gabinete de trabalho.

Walter aí entrou em seguida e trancou a porta. Queria estar só. Os acontecimentos da noite o tinham perturbado e ele não duvidava que a alma penada de sua pobre noiva acabava de lhe aparecer, pobre infortunada, assassinada Deus sabe onde e como, privada de uma sepultura cristã!

Soltando um profundo suspiro, ele deixou-se cair numa poltrona perto da janela e cobriu o rosto com as, mãos. Um leve suspiro e o contato em sua face de dedinhos afilados fizeram-lhe erguer a cabeça. No mesmo instante, seu coração deixou de bater e seus cabelos se eriçaram de pavor. Sentada no braço da poltrona estava a linda estátua de cera, sua Leonor adorada. Agora ele a reconhecia bem. Era seu olhar amante, seu sorriso tão, doce e tão acariciante.

Inclinava-se sobre ele, enlaçando-lhe o pescoço em seu braço diáfano, cobrindo-o com as madeixas sedosas de seus cabelos de ouro. Ela mergulhava nos olhos dele um olhar cheio de amor, enquanto que de seus lábios entreabertos escapava-se um hálito ardente que perturbava e embriagava Walter.

- Minha querida, como você veio aqui? Como você escapou da morte? - balbuciou ele todo trêmulo. - Oh! fale-me, dê-me a certeza de que não estou louco, que não sou vítima de uma miragem enganadora, que é mesmo você que está aqui e não a estátua de cera que mandei colocar neste nicho!...

- Meu Walter, não pergunte de onde venho, nem o que me tornei. Contente-se em saber que eu o amo com todas as forças de minha alma e que eu vivo para você. Veja, meu corpo é macio e tépido, meus lábios quentes, meus cabelos sedosos como outrora. Mas o sentimento que você me inspira tornou-se diversamente poderoso, - porque aprendi a sentir como eu nunca supunha que pudesse sentir. Não tenha medo de mim, mas não procure jamais aprofundar o mistério que esconde meu ser sob esta figura de cera. Era preciso tomar uma forma que me permitisse chegar até você sem que sua mãe e Filipina, sua cúmplice, pudessem denunciar-me ao carrasco.

Ela contou-lhe brevemente a intriga tramada pela mãe e pela mulher de Walter para destruí-la e continuou:

- Se me encontrassem em carne e osso, arrastar-me-iam à fogueira. Tenho, portanto, que me ocultar para estar junto de você, para reclamar o que é meu: seu coração. E para estabelecer-me em sua casa e reservar-nos estas venturosas noites em que gozaremos da felicidade de entregarmo-nos inteiramente um ao outro. Agora, meu Walter, jure-me jamais pertencer à mulher detestável que me atirou no abismo... Diga-me que você não tem medo de mim e que me ama ainda.

Embriagado, cego, esquecendo tudo exceto a paixão que lhe fervia dentro, Walter atirou-se em seus braços e colou seus lábios aos da jovem mulher.

- Se eu a amo? Mas nunca deixei de amá-la! Somente a você pertenço de corpo e alma. E pouco me importa que você seja de carne e osso ou de cera, já que você está viva e não mais temerei que o carrasco venha arrancá-la de meus braços. Jamais, eu lhe juro, jamais a mulher odienta que traz o meu nome, gozará da menor parcela de meu amor. É para você que eu serei o esposo mais terno e mais fiel, a você pertencerão todas as minhas horas de liberdade, estas horas embriagadoras que nenhum inimigo não mais poderá perturbar.

Ele apertou contra si a estranha e misteriosa criatura e contemplando-a com adoração, acrescentou:

- Você é linda de fazer um pobre mortal perder a razão, minha Leonor!

- Não me chame jamais de Leonor, poderiam ouvir e procurariam destruir-me. Trago agora o nome de Naema.

- Bem, querida, o nome pouco importa, contanto que seja você quem o traz, você, minha noiva, minha esposa, o sol de minha vida!

As horas da noite escoaram-se como um sonho embriagador. Nunca em sua vida Walter experimentara uma tão ardente e fogosa paixão como a que lhe inspirava esse ser enigmático. E somente aos primeiros clarões da aurora, ele adormeceu, embalado mesmo em seu sono por visões estridentes e tentadoras.

Batidas violentas dadas na porta despertaram Walter e quando ele se levantou em sobressalto da poltrona, viu que era tarde e que o sol enchia o gabinete com seus raios.

O moço esfregou os olhos. As recordações da noite lhe vinham em tropel e seu olhar procurou ansiosamente o nicho. Lá em seu pedestal, erguia-se radiante a maravilhosa estátua. O sol brincava em seus cabelos rutilantes, nos diamantes das presilhas e dos braceletes, e os lábios róseos pareciam sorrir-lhe. Walter correu para a estátua e imprimiu em seu ombro descoberto um beijo longo e ardente.

Pareceu-lhe a este contato sentir sob seus lábios o estremecimento da carne e um sentimento de inefável felicidade o invadiu. Um bater reiterado na porta o chamou à realidade e de sobrancelhas franzidas ele abriu. Imediatamente a senhora Cunegundes, de rosto vermelho, com os olhos chamejantes, irrompeu no gabinete e gritou com voz aguda e trêmula de cólera:

- Você ficou louco para fazer um tal escândalo sem mais nem menos? Com que direito você ofende tão cruelmente a inocente criança, cheia de amor por você? Você se afasta dela e foge para passar sua noite de núpcias encerrado aqui? É um ultraje sem causa que você faz a toda a família de Filipina, a seu venerando pai e a ela mesmo! A pobre criança que não compreende nada de sua conduta chora de romper o coração.

Walter encostara-se na poltrona e com os braços cruzados escutou sua mãe sem interrompê-la. Vendo-a parar para tomar fôlego, respondeu num tom gelado e hostil:

- A senhora não tem razão, minha mãe, de me fazer censuras. Não podem forçar um homem a amar uma mulher, mesmo se chegam a fazê-lo desposá-la. E quanto à Filipina, eu lhe disse francamente que não a amo e que ela me seria sempre indiferente.

- Mas isto não é justo. Desde o instante em que você consentiu em desposá-la, deve aceitar todas as conseqüências de sua nova posição.

- Era minha intenção, mas ao consentir nesta união que me repugnava, eu não sabia que a senhora e ela foram às instigadoras da odiosa intriga que custou a vida da minha pobre Leonor e que o ouro dos Küssenberg serviu para pagar os vis mentirosos que pelas suas declarações caluniosas levaram ao massacre toda uma família inocente. Se outrora Filipina me era indiferente, agora eu a odeio desde o instante em que eu soube da participação que ela teve na morte de minha noiva adorada. E vocês duas responderão diante da justiça divina pelo sangue inocente, derramado por sua culpa e que cairá sobre ambas.

A senhora Cunegundes recuou pálida e de punhos cerrados.

- Calúnia! Quem ousou caluniar assim sua mãe e sua mulher?

- Calúnia? - observou Walter com desprezo, mencionando alguns detalhes que confundiram a senhora Cunegundes, e aumentaram sua raiva.

-Não somente esta miserável feiticeira o enfeitiçou com algum filtro diabólico, mas ainda sem dúvida insinuou-lhe suspeitas contra sua própria mãe!

Uma leve crepitação, que parecia vir do nicho, interrompeu-os, mas a estátua estava imóvel em seu pedestal e somente o véu ondulava como que agitado pela brisa. Todavia foi sobre ela que se abateu a cólera da senhora de Küssenberg:

- Eu bem queria saber qual foi o brincalhão de mau gosto que teve a impertinência de enviar-lhe esta hedionda boneca de cera, que se assemelha à feiticeira. Semelhantes estátuas de traje pagão e de expressão escandalosa ficam deslocadas numa casa cristã e honrada. Você deve vendê-la o mais depressa possível ou dar de presente esta obra impudica.

- Nunca! - gritou Walter postando-se diante da estátua como para defendêla - Destruir esta admirável estátua seria um ato de vergonhoso vandalismo e sou muito reconhecido ao amigo que me ofertou esta inimitável obra-prima.

Neste momento uma gargalhada estridente e prolongada se fez ouvir na rua. A senhora Cunegundes debruçou-se vivamente para ver quem ria assim sob sua janela e viu um cavaleiro que fazia galopar seu fogoso corcel preto na porta da casa. Seu rosto pálido se ergueu para ela e o riso sinistro que escapava de seus lábios lhe causou arrepios.

- Peço-lhe, minha mãe - acrescentou Walter que não voltes mais a estes dois assuntos que acabamos de tratar. Todas suas persuasões serão vãs e me levarão somente a medidas penosas para a senhora. Saiba que jamais eu me separarei desta maravilhosa estátua de cera e que do mesmo modo recuso-me a ter relações mais íntimas com Filipina. Entre nós se ergue um passado criminoso e a sombra sangrenta da pobre Leonor. Preciso de tempo para poder esquecê-la, para vencer a repugnância que Filipina me causa e perdoá-la. Diante do mundo, eu lhe prestarei todas as honras devidas à uma esposa, mas na intimidade permaneceremos estranhos um ao outro. E agora pare com discussões inúteis e venha tomar a refeição da manhã.

Tranqüilo e interiormente feliz, ele se dirigiu à sala de jantar. O que lhe importava sua mãe e mesmo Filipina? Seu coração estava ocupado apenas por Naema.

Taciturna, carrancuda, os olhos inchados de tanto chorar, a jovem senhora de Küssenberg veio sentar-se à mesa sem cumprimentar seu marido, mas este não pareceu absolutamente afetado pela falta de atenção. Bebeu e comeu de alma tranquila, e somente quando o almoço terminou é que se voltou para a jovem esposa dizendo com frieza:

- Toda má ação, senhora Filipina, é punida cedo ou tarde. Destruindo e entregando ao carrasco Leonor Lebeling, você pensava achegar-se a mim. Você conseguiu apenas repelir-me. Mulher impudica e sem coração, você passou por cima de três cadáveres para subir o leito nupcial e disto não me esquecerei por muito tempo.

Ergueu-se, esvaziou um copo de vinho e sem lançar um olhar para Filipina, pálida e consternada, virou as costas e saiu. Mandando selar o cavalo, deu um longo passeio, sonhando com a noite e devorado pela impaciência de rever Naema.

Voltou e após o jantar servido, Walter disse à sua mãe que decidira arrumar o quarto de dormir num cômodo junto ao gabinete de trabalho e cheio no momento de arcas e armários. A senhora Cunegundes ficou escandalizada. Abandonar assim o quarto nupcial era dar à publicidade o segredo de sua incompatibilidade com a mulher. Ela esbravejou, rogou, suplicou, quis opor-se pela força a esta mudança, mas Walter permaneceu inflexível e apesar das invectivas de sua mãe, dos soluços e reproches de Filipina, o cômodo foi esvaziado e posto em ordem. Só que o fidalgo não levou nenhum objeto do quarto de sua mulher. O velho Gaspar, o fiel criado, trouxe do celeiro uma cama que já estava armada, bem como algumas cadeiras. Um judeu que fazia todo serviço e traficava com objetos
inimagináveis, veio discretamente ao cair da tarde, colocou cortinas no leito, um lampião no teto, arrumou tudo e quando a noite chegou, o cômodo estava pronto e transformado num aposento elegante e confortável.

Furiosas e desoladas, Cunegundes e Filipina trocaram idéias. Como agir em tão extraordinárias circunstâncias? Nem uma nem outra duvidava que Walter fora vítima de novo sortilégio. Era preciso descobrir o feitiço e destruí-lo, mas para isso necessitavam de tempo e de prudência, porque na época em que viviam, a feitiçaria era uma questão perigosa, na expressão da palavra e ninguém podia saber se, de acusador, não tornaria acusado e em que findaria um inquérito a tal respeito. As duas mulheres decidiram então calar-se para o momento, observar e ocultar tanto quanto possível para os estranhos o que se passava entre os recém-casados.

Não dando nenhuma importância ao que pensavam sua mulher e sua mãe, Walter se fechou no quarto e acendeu as velas de dois candelabros. Depois, sentando-se numa poltrona diante do nicho, fixou os olhos na estátua pensando, todo palpitante, se ele não tinha sido um louco, se verdadeiramente esta estátua lhe tinha falado e depositado nos seus lábios, beijos embriagadores.

Como Naema não se mexesse, ele fechou os olhos. Talvez ela não quisesse que ele a visse descer, mas seus ouvidos super-excitados procuravam apanhar o menor ruído.

Walter não ouviu nada, mas de repente um hálito tépido e perfumado acariciou-lhe a face e uma mão se apoiou em seu braço, enquanto que a voz brincalhona de Leonor lhe perguntava:

- Você dorme, belo fidalgo?

Sem responder, Walter estendeu os braços e apertou contra o peito a estranha mulher de cera, neste momento ágil e flexível como uma cobra.

À claridade das velas, ele notou que o pedestal no nicho estava vazio. Depois, examinou curiosamente a estranha criatura deitada em seus braços. Seu busto de cera palpitava, os olhos de esmalte lhe sorriam e lábios rosados lhe falavam de amor e felicidade que não tinham passado nem futuro, mas apenas o presente e este era tão embriagador, que fazia esquecer todo o resto.

***

Alguns dias mais tarde o jovem pintor Raimundo veio, como lhe havia permitido Walter, começar a desenhar a estátua. Rolaram o pedestal para o meio do gabinete e Raimundo pintou Naema de frente, de perfil, de costas, não se cansando de admirá-la e de se extasiar pela perfeição das formas desse corpo belo, que se percebia nitidamente através da gaze leve que o cobria.

- Veja, Walter, há alguma coisa de esquisito nesta estátua. - observou ele um dia - Por vezes parece-me que ela respira, que a cera se agita e palpita e no meu estúdio, quando trabalho por estes desenhos, dir-se-ia que eles se animam e que é uma mulher vivente que posa diante de mim. Assim penso não ter feito nada de tão belo, de tão completo como essa Afrodite. Venha ver meu quadro e você se convencerá. Walter sorriu e prometeu. Alguns dias mais tarde ele foi ao estúdio do pintor.

Encontrou-o radiante. Não somente Afrodite já achara um comprador, mas nesta mesma manhã um dos cônegos da catedral encomendara a Raimundo um quadro da Anunciação e como a cabeça do pintor estava cheia apenas de seu extraordinário modelo, ele explicou ao fidalgo que seria também Naema que representaria a Santa Virgem. Somente que ele daria ao rosto a expressão pura e doce que tivera a falecida Leonor.

Walter admirou o quadro começado e não achou nada a dizer do novo projeto do amigo. Tudo de resto lhe era indiferente fora da louca paixão que lhe inspirava a estátua de cera.

Desejoso de terminar o mais rapidamente possível o quadro de Afrodite, Raimundo trabalhava com ardor, mas notava com espanto que nunca um trabalho seu se adiantou tão depressa. O pincel parecia fazer um trabalho duplo, as cores se colocavam como por si mesmas e ainda nunca o que ele pintara antes tivera esta intensidade de vida. Era a própria natureza que parecia palpitar na tela. Todavia ele julgou de bom alvitre levar ao cônego um esboço ou dois do quadro encomendado, para discutir com ele as minúcias desejadas e, com esta intenção, o pintor foi uma manhã à casa do fidalgo de Küssenberg. Este se dispunha a sair a negócios, mas autorizou seu amigo a ficar no gabinete e fazer quantos desenhos quisesse.

Depois de bom almoço, Walter saiu e Raimundo, sentado na poltrona perto da janela, se pôs a desenhar, tendo colocado o pedestal em plena luz. Apenas o jovem pintor começava a rascunhar a cabeça da Virgem, um arrepio nervoso sacudiu-lhe os pés e as mãos, e um golpe de ar gelado lhe tocou o rosto.

Espantado, ergueu a cabeça e tremeu de assombro e terror vendo os olhos de esmalte da estátua fixá-lo com um olhar sombrio e irritado. Ao mesmo tempo Raimundo sentiu um sufocante cheiro de enxofre e meio asfixiado, paralisado, incapaz de fazer um movimento, ele se abateu na poltrona. Apesar deste torpor e da vertigem que o tomou, ele viu distintamente a estátua mover-se no pedestal,
seus lábios se entreabriram e ouviu uma voz metálica e velada pronunciar estas palavras:

- Se tens amor à vida, não ouses jamais dar a ela uma semelhança comigo, porque eu sou uma alma renegada, eu sou Naema, a esposa de mestre Leonardo.

Por toda outra obra em que reproduzires meus traços, eu te darei a glória e a riqueza. Mas toma cuidado em não divulgares às almas viventes o que acabas de saber; minha vingança será terrível.

A mão de cera se ergueu, parecia que uma chama jorrou-lhe dos dedos rosados e afilados e subitamente tudo girou ao redor de Raimundo. Ele sentiu-se rolar num abismo negro e perdeu a consciência. Quando ele reabriu os olhos, Walter, pálido e ansioso, se inclinava, passando-lhe no rosto um pano de linho molhado n'água.

- Pelos céus! O que aconteceu? O que significam esta tela queimada e o seu desmaio? - perguntou o fidalgo, ajudando seu amigo a erguer-se.

Este lhe endereçou um olhar estranho:

- Walter, se você tem amor à alma e à sua salvação eterna, afaste esta terrível mulher de cera. Enquanto ela estiver aqui, não porei os pés em seu gabinete.

- Fale então mais claramente o que você sabe sobre esta estátua? Por que você a teme? - perguntou-lhe Walter empalidecendo.

- Eu não posso falar. Apenas repito: afaste esta medonha estátua. E agora, adeus! O chão queima-me os pés.

E o pintor partiu deixando a tela queimada totalmente no centro.

Tomando contacto com o ar fresco, Raimundo sentiu dissipar-se o peso de chumbo que lhe pesava nos ombros, e serenado de corpo, mas perturbado de espírito, entrou em seu estúdio e sentou-se diante do quadro quase terminado de Afrodite.

Ele tivera a idéia de representar nela, o símbolo da eterna beleza tal como aparecia à humanidade, para enobrecê-la e com uma admiração apaixonada, contemplou sua obra. O plano esquerdo do imenso quadro era ocupado por uma praia pedregosa, bordada ao fundo por rochas. Os raios do sol levante inundavam de ouro e púrpura as ondas que se quebravam na areia e de uma destas ondas, mais alta do que as outras, e coroada de espuma branca tingida de rosa surgia a deusa, esplêndida e triunfante em sua soberba nudez. Um sorriso voluptuoso entreabria os lábios púrpuros, os olhos sorriam e a brisa da manhã erguia seus cabelos de ouro como uma auréola.

Na atmosfera transparente, tão leves e vaporosos que pareciam tecidos de ar e de luz, flutuavam os espíritos dos elementos, rodeando e ataviando a deusa. Um zéfiro penteava-lhe os cabelos com um pente dourado, um outro lhe oferecia pérolas, um pequeno Eros prendia em sua testa uma estrela chamejante e as sereias cantavam sua beleza. Na praia via-se ajoelhado um homem que, braços erguidos e cheio de êxtase, admirava a eterna beleza que acabava de nascer para brilhar para sempre diante da humanidade deslumbrada, como uma visão longínqua e tentadora.

Mas o que fazia deste quadro uma verdadeira obra-prima, era a perfeição do trabalho. Era como se o espectador aspirasse à brisa matinal, o aroma acre e fresco do oceano. As ondas pareciam marulhar no bordo da tela e as gotículas de água que orvalhavam a pele acetinada da deusa, resplendiam ao sol como verdadeiros diamantes.

Quanto mais Raimundo contemplava sua obra, mais a admirava. Afrodite, sobretudo o fascinava. Parecia-lhe que seu lindo corpo palpitava, docemente embalado pelo rodamoinho das ondas e que seus olhos lhe sorriam. Esqueceu que o que ele via era uma criação de seu pincel, não uma mulher viva e uma fogosa paixão acendeu-se em sua alma intumescendo-lhe o coração de impetuosos desejos.

No estranho e mudo êxtase que acabava de tomá-lo, o pintor perdeu completamente a compreensão da realidade. Um mundo fantástico surgia ao redor dele. Era ele próprio que se achava sentado na praia pedregosa. A alguns passos de si marulhava o mar e as vagas se quebravam contra as rochas da costa.

Um vapor úmido molhava seu rosto escaldante e do abismo surgiam monstros aquáticos que o fitavam curiosamente. Parecia que sereias com corpo de peixe, de cabelos verdolengos, brincavam na praia e nas ondas em que batiam com a cauda. E lentamente, balançando voluptuosamente seu corpo esplendente de brancura, avançava para ele, Afrodite. Ao redor dela surgiam enormes sapos, peixes odientos e imensos pássaros negros voejavam ao redor dela com gritos lúgubres. Subitamente as sereias e os pássaros rodearam Raimundo, dançando uma sarabanda infernal, entoando um canto discordante cujos sons agudos se misturavam com o rugir das vagas, ao soprar de um vento de tempestade. O céu se tornou negro e, num crepúsculo sem cor, rasgado de relâmpagos, o pintor viu
a deusa flutuar acima da água negra e agitada.

No mesmo instante, a massa negra que formigava ao redor, apanhou-o e arrastou-o ao encontro de Afrodite. Ele sentiu a água molhar-lhe os pés e submergir-lhe o corpo.

Flocos de espuma chicoteavam-lhe o rosto. Bruscamente, os braços da deusa o enlaçaram, apertando-o contra o dorso frio e escorregadio como a pele de uma serpente.

Lábios gelados se colaram aos seus e um beijo sufocante lhe tirou a respiração. Terror e angústia se apoderaram de Raimundo. Vagamente, ele se debatia procurando furtar-se deste pavoroso abraço. De repente, ele gritou com fervor:

- Senhor Jesus, meu misericordioso Salvador, ajuda-me!

Quase que instantaneamente, os seres fantásticos que o rodeavam e com eles Afrodite, se engolfaram numa nuvem avermelhada que se elevava do mar. Ele próprio se sentiu repelido, com força, caiu sobre qualquer coisa de frio e de duro e reabriu os olhos.

O pintor encontrou-se estendido no solo banhado de suor, os membros como que quebrados. Era noite ainda, mas a aurora já se anunciava por uma faixa clara no horizonte e um crepúsculo cinzento.

Raimundo se levantou com dificuldade, acendeu uma vela e retomou o lugar diante do cavalete. Ao seu redor tudo estava calmo e silencioso. Afrodite parece que o fitava com seus olhos límpidos, sorrindo com sorriso voluptuoso e provocante.

- Uff! Que horrível e diabólico pesadelo! Verdadeiramente, esta figura da mulher de cera é tão espantosa e perigosa como seu abominável modelo. Mas espera, filha do inferno, eu vou domar-te - resmungou Raimundo. Tomando sua palheta e molhando um pincel na cor vermelha, ele traçou rápido como o pensamento, um crucifixo na mão erguida de Afrodite.

No mesmo instante um abalo violento sacudiu a casa. Ao redor de Raimundo tudo ruía. Gritos e rugidos se misturavam ao barulho. Depois, levantou-se diante dele uma cabeça com os olhos fora das órbitas. Um punho de dedos aduncos caiu sobre ele, fazendo-o rolar no chão.

Inesperadamente e com uma rapidez vertiginosa, nuvens negras se acumularam sobre Friburgo, uma tempestade se desencadeou e um raio veio ferir a casa do pintor. O relâmpago pôs fogo na tapeçaria do estúdio.

Celeremente o incêndio se propagou e logo a velha casa ardeu totalmente, ameaçando de destruição todo o quarteirão.

Durante esta mesma noite, Walter como sempre, entregava-se ao amor com sua bela amiga, quando de repente ele a viu agitar-se e gritar com compaixão:

- Pobre Raimundo, eu lhe trouxe infortúnio! Como ele está atormentado! Oh! fatal, fatal beleza! Cruel Leonardo!

Ela se calou visivelmente inquieta e ficou muito tempo sem falar. Depois desapegando-se dos braços de Walter, correu a agachar-se junto à parede, erguendo o braço para se proteger contra um projétil invisível. O anel mágico cintilava em seu dedo. Os feixes de raios multicores que emergiam da pedra
negra tomaram de repente a forma de um triângulo de fogo. No mesmo instante apareceu como que furando e fendendo a parede, uma cruz luminosa que veio chocar-se na ponta do triângulo incandescente, girou um momento sobre si mesma e fundiu-se na atmosfera. O triângulo então empalideceu e desapareceu.

Naema retomou seu lugar no nicho e mandou que Walter deixasse o gabinete. O jovem obedeceu silenciosamente. Contra sua vontade um arrepio de medo supersticioso sacudiu-o e este sentimento se mudou em angústia e terror quando, uma hora mais tarde, o som dos sinos anunciou que uma catástrofe ameaçava a cidade.

Walter atirou-se para a rua e com a multidão estupefata que corria de todos os lados, achou-se logo diante da casa abrasada de Raimundo. O jovem pintor, arrancado das chamas por um fiel criado, jazia na rua inconsciente.

Uma chuva torrencial veio pôr fim ao incêndio e ao perigo que ameaçava a cidade, mas as chamas tinham devorado o quadro de Afrodite e tudo o que a casa continha.

E quando depois de longos esforços conseguiram chamar Raimundo à vida, ele não reconhecia ninguém. Com olhar vazio e espantado, ele ficou acocorado, resmungando a palavra estranha e desconhecida para o povo: "Naema".

O médico declarou que, ferido pelo raio, o jovem perdera momentaneamente a razão.

Sombrio e pensativo, Walter entrou em casa. O infortúnio do amigo produzira sobre ele uma profunda impressão e a coincidência dessa catástrofe com a estranha visão da noite, sua relação evidente com qualquer coisa havida entre Naema e Raimundo, deram o que pensar ao jovem fidalgo e lhe inspiraram, mau grado seu, um temor supersticioso.

V — JULGAMENTO E CONDENAÇÃO

Fiéis aos planos que se traçaram, Filipina e Cunegundes observavam Walter, procurando descobrir o sortilégio que, segundo a convicção delas, era a causa da humilhante indiferença que ele demonstrava para com sua mulher, indiferença da qual esta procurava incessantemente vingar-se.

O fato do jovem se trancar toda noite no gabinete onde se achava a estátua e dormir ao lado atraiu vivamente a atenção das duas mulheres. E com instinto de ciúme e ódio, Filipina supôs no corpo de cera, cujo semblante tinha os traços de sua rival, uma obra de magia e uma inimiga.

Ela pensou em destruir a estátua, mas como? Walter ausentava-se pouco e de hábito, quando saía, o velho Gaspar guardava os aposentos de seu amo. Ele não consentiria em absoluto que tocassem na obra de arte que o fidalgo prezava tanto.

Um dia, contudo, que Walter saíra e Gaspar estava ocupado na estrebaria, Filipina conseguiu chegar até o gabinete de trabalho. No nicho, Naema reinava em seu pedestal, radiosa e impassível. Com um olhar rancoroso, Filipina a examinava. Sim, ela era linda, mas era apenas uma boneca de cera, ela não
podia rivalizar com uma mulher de carne e osso. Todavia uma convicção íntima dizia à jovem que era nesta boneca que se escondia o sortilégio. Seu olhar rancoroso que corria pela estátua parou de repente no colar que ela trazia e as pérolas de grossura enorme e de incomparável brilho, excitaram sua inveja.

Alçando-se na ponta dos pés, ela tentou tirar o colar, mas as pérolas pareciam fortemente coladas à cera, que lhe foi impossível destacá-las. Com cólera ela recuou e no mesmo instante percebeu o anel que ornava o dedo da estátua. O diamante negro flamejava lançando feixes multicores.

- Eis uma jóia bem supérflua para uma senhora de cera - resmungou Filipina e pegando ousadamente o anel, tentou retirá-lo, com risco de quebrar o dedo frágil que o usava. De súbito, os olhos de esmalte se animaram, dardejando sobre ela um olhar de ódio mortal. Depois, a mão de cera empurrou a jovem
paralisada de medo e os dedos rosados apertaram seu punho como pinças de ferro em brasa.

A dor provocada por este aperto foi tal que Filipina desmaiou. Quando voltou a si, ela se viu estendida no chão. A estátua estava em seu lugar no nicho, mas a dor que continuava a queimar-lhe o braço, provava que ela não tinha sonhado.

Contudo, nenhum traço visível havia na pele. Cheia de horror, Filipina fugiu e contou o fato à sua sogra. A senhora Cunegundes se persignou, muito emocionada, mas suplicou à sua nora que se calasse sobre o incidente, visto que isso podia dar lugar a suspeitas de feitiçaria pouco agradáveis para a família.

- Nós mesmas, eu o espero, conseguiremos quebrar o feitiço; porque começo a perceber onde está a chave do encantamento de Walter, - disse a velha senhora com convicção.

- Veja, Filipina - continuou ela, - o rosto de cera traz os traços da feiticeira maldita e foi de seu cadáver que alguém cortou os cabelos colados na cabeça da estátua.

Por conseguinte esteja certa de que é nos cabelos, tirados de seu próprio corpo, que está o feitiço. Mas veremos se ele resistirá à cruz e à água benta.

A ocasião de tentar este exorcismo não se fez esperar. Convidado por um primo que festejava o batismo de seu primogênito, Walter teve de ir sozinho a essa festa, porque pretextando indisposição, sua mulher recusou-se a acompanhá-lo. Quando a noite chegou e a maior parte dos criados estava deitada e adormecida, as duas mulheres se puseram a agir. Filipina carregava um círio bento e precedia sua sogra a qual numa das mãos trazia uma caldeirinha de água benta e recitava uma ladainha. Na porta do gabinete de trabalho, Filipina parou e murmurou com voz estrangulada:

- Oh! O círio se torna tão pesado que eu mal consigo arrastá-lo e os cabelos me arrepiam na cabeça.
- Recite uma ave-maria e entre. Você julga que os demônios nos abandonarão a praça sem combate? - respondeu a senhora Cunegundes que era enérgica de natureza e estava tão cheia de raiva contra a estátua, que ela tentaria uma batalha contra o próprio mestre Leonardo.

O gabinete estava fracamente iluminado por uma luz pousada na mesa, perto da cama de Walter, mas a grossa vela trazida por Filipina espalhava boa claridade e quando as duas mulheres pararam diante do nicho onde se entronizava o corpo de cera, brilhos multicores jorraram dos diamantes de suas presilhas.

No momento em que a senhora Cunegundes molhava o hissope, preparando-se para aspergir a estátua detestada, uma lufada de vento glacial surgiu não se sabe de onde e apagou o círio e a luzinha ao mesmo tempo. As duas mulheres se acharam em completa escuridão e no mesmo instante soltaram um grito de horror. Mãos invisíveis arrebataram-lhes das mãos os objetos que traziam e moíam-nas de pancadas, esbofeteando Filipina, enquanto que erguiam a senhora Cunegundes no ar pelos cabelos ainda espessos e depois a lançavam por terra.

As duas mulheres julgavam ficar loucas, mas nem um grito escapava de suas gargantas, cerradas como uma prensa. Walter que voltava muito mais cedo do que supunham, ouviu gemidos abafados em seu gabinete e para lá se precipitou, seguido de Gaspar que trazia um castiçal, encontrando sua mãe e sua mulher estendidas por terra, entre um círio quebrado e uma caldeirinha virada. À sua vista, puseram-se a gritar como insensatas.

- O que vocês vieram fazer aqui, e porque gritam de alvoroçar toda a casa?

- perguntou o fidalgo com cólera.

- Oh! Walter, esta estátua é habitada pelo demônio. Ela soprou em meu círio e o apagou, assim como a luzinha! - gritou Filipina.
- O medo, sem dúvida, cegou-as. Olhem, a luz está acesa e mesmo um castiçal queima sabre minha mesa de trabalha. E isto está assim desde que entramos. Gaspar é testemunha.

- Mas não é verdade, tudo estava escuro e nos bateram e puxaram os cabelos - gritavam fora de si Filipina e Cunegundes, confusas por verem acesas tanto o castiçal como a luzinha.

- Vocês estão tão doentes ou loucas, que vêem o diabo em toda a parte, exceto em vocês mesmas - observou severamente o fidalgo.

- E agora calem-se ou acabarão por atraírem sobre vocês mesmas a acusação de estarem possuídas pelo demônio. Depois de terem acusado de feitiçaria as vivas, encarniçam-se contra uma estátua de cera, unicamente porque ela se assemelha a um ser infeliz que vocês odiaram e destruíram, - acrescentou ele depois de ter despedido Gaspar.

Envergonhadas e furiosas, as duas mulheres se retiraram, bem convencidas e com razão, de que não foram sonhos as pancadas que lhes doíam ainda. Mas o medo delas era tal que ficaram juntas toda a noite, falando sobre os acontecimentos e discutindo os meios de expulsar o diabo, sem gritos nem barulho, porque compreendiam que Walter estava certo. Nos tempos críticos em que viviam, era perigoso divulgar fatos como os da noite e que bem podiam acabar por serem acusadas de conivência com o diabo.

Malevolentes e invejosos há por toda à parte e um desses inimigos podia aproveitar a ocasião para lançar uma suspeita sobre a honrada família dos Küssenberg. Ora, nos processos de feitiçaria nem a riqueza, nem a nobreza eram garantia de impunidade. Por conseguinte era preciso ser prudentes e agir com a mesma astúcia que o diabo, o qual com toda a evidência tinha colocado no corpo de cera um de seus agentes infernais para prender Walter em definitivo.

Era claro que o príncipe das trevas levara Leonor Lebeling, porque não se desaparece de uma prisão solidamente fechada sem a ajuda do demônio. A paixão do fidalgo por essa moça loura que ele adorava, ainda na estátua de cera, desprezando escandalosamente sua mulher legitima, era de fato uma suspeita de influência satânica.

Ao cabo de todas essas reflexões, decidiram cozer nas roupas de Walter uma hóstia consagrada e de aspergir seu quarto com água benta.

Graças ao poder fascinador que Naema exercia sobre o fidalgo, a impressão produzida pela infelicidade de Raimundo se desvaneceu rapidamente do espírito de Walter o qual, absorvido por sua louca paixão, vivia durante todo o dia apenas para esperar a noite.

Uma noite, alguns dias depois da expedição da senhora Cunegundes, Walter tendo se fechado, esperava impacientemente que se animasse sua bem amada, porém ela, imóvel em seu pedestal, fitava-o com tristeza. Ele então redarguiu:

- Naema, venha, minha querida!

Ela logo respondeu com voz velada:

- Não posso, mas se você tirar o gibão e o jogar ao mendigo que está de pé sob a janela, poderei aproximar-me de você.

Sem hesitar, sem mesmo refletir na esquisitice do fato de que no passeio que dava para o jardim, pudesse estar um mendigo, Walter tirou o gibão de veludo e abriu a janela. Realmente, embaixo dela estava um homem em andrajos, cujos olhos queimantes fixavam-se na janela. Quando o fidalgo lhe atirou o gibão, um estranho sorriso perpassou-lhe pelo semblante descarnado e avidamente pegou a
rica esmola.

Um sentimento fora do comum, misto de temor e repugnância, apertou o coração de Walter, mas ele não teve tempo de pensar nisso, porque já os braços macios de Naema abraçavam-lhe o pescoço, um beijo lhe fechava a boca e ele observou gracejando que até as mulheres de cera tinham seus caprichos.

O sentimento de inquietação que se apossara de Walter quando da catástrofe de Raimundo, e no momento em que ele próprio atirara sua roupa ao mendigo, reproduzia-se freqüentemente. Apesar da ascendência exercida por Naema, uma voz interior lhe dizia que ele se achava subjugado por uma força estranha e suspeita, e Walter receava reconhecer como diabólica. Ele confessava a si mesmo que a mulher de cera, retrato de sua noiva desaparecida, era um ser singularmente misterioso, terrível mesmo, considerado sob o ponto de vista da razão e por vezes lhe vinha o desejo de correr junto a seu tio, o abade, e confessar-lhe tudo, implorando socorro e conselho.

Mas bastava um olhar ardente dos olhos de esmalte, uma dessas horas de embriagadora paixão como só Naema sabia dá-las, para torná-lo de novo o escravo cego da fascinante e estranha criatura, pronto a tudo para defendê-la.

Notando que seu filho não usava mais o gibão de veludo verde no qual ela tinha cozido a hóstia, a senhora Cunegundes se aborreceu. Secretamente ela deu buscas e se convenceu de que o gibão desaparecera sem deixar traços. Apesar de seus defeitos, Cunegundes amava sinceramente seu filho único. Seu coração se pôs a tremer pela salvação de Walter e apesar da repugnância que ela sentia pelo gabinete de trabalho depois de sua aventura noturna, entrou nele uma manhã em que o fidalgo tinha saído e se pôs a procurar alguma nova prova da ação diabólica da estátua de cera.

Qual não foi seu susto, encontrando negligentemente jogada numa gaveta, a cruz que desde sua infância, Walter usava no pescoço.

- Deus poderoso! Ele não usa mais sua cruz. Mas espera, maldita cara de cera, é em teu pescoço que vou pendurá-la. Agora, em pleno dia, eu não tenho medo de ti, - murmurou ela rancorosamente.

Mas apenas estendera a mão para pegar a cruz, ela sentiu dedos aduncos e queimantes agarrá-la pela nuca, a cabeça espremida contra o rebordo da mesa e a garganta tão violentamente apertada que quase perdeu a consciência. Assim, logo que pôde respirar, largou a cruz na gaveta, jurando nunca mais pôr os pés nesse gabinete maldito, e exigir de seu filho a devolução ou a destruição dessa infame estátua.

No mesmo dia ela fez saber a Walter o seu desejo de ver afastada a estátua, mas na primeira palavra que ela pronunciou a esse respeito, o fidalgo tomou-se de cólera, declarando que ela era louca de se envolver em um ódio tão tenaz contra um objeto de arte, mas que se ele e a mulher de cera a estorvavam, ele partiria para seu castelo e levaria consigo também o objeto incriminado.

Assustada e desolada, a senhora Cunegundes se calou, mas desde esse dia nem ela nem sua nora atravessaram a soleira do quarto de Walter, evitando mesmo passar pelo corredor que lá conduzia.

O mês de maio viera, trazendo as flores e o calor, porém nada mudara na casa do fidalgo de Küssenberg, e a cólera e desespero de Filipina atingiram o auge. Há quatro meses que ela estava casada e a frieza desdenhosa de seu marido, sua aversão por ela, aumentavam em vez de diminuir.

Roída pelo ciúme e suspeitas indefinidas, Filipina foi tomada por um invencível desejo de ver o que Walter fazia quando se fechava em seu gabinete. Este projeto uma vez desabrochado em seu cérebro, ela não perdeu tempo em pô-lo em prática. Vindo a noite, ela entrou sorrateiramente no jardim, arrastou a escada do jardineiro e a encostou na parede, notando com satisfação que ela alcançava a janela de Walter, a qual estava aberta, mas tapada pelas cortinas abaixadas.

Era uma noite esplêndida, tépida e embalsamada. A lua clareava vivamente o jardim, para desgosto de Filipina que teria preferido uma profunda escuridão, contudo ela estava muito impaciente, para adiar o seu projeto. Lepidamente, subiu pela escada e com precaução afastou as dobras da cortina lançando um olhar no interior.

O que ela viu paralisou-a positivamente. De cabelos eriçados, a boca aberta, ficou imóvel fitando Walter sentado em sua poltrona e tendo nos joelhos a mulher de cera que, debruçada em seu ombro, abraçava-lhe o pescoço, inundando-o com seus cabelos de ouro. Os olhos do fidalgo se fixavam em sua estranha companheira, com uma expressão de adoração apaixonada que Filipina não lhe tinha jamais visto.

O terror e o ciúme tiraram a voz e os movimentos de Filipina, mas quando ela viu a mulher de cera levantar-se, apontá-la com o dedo e com um riso sinistro, ela gritou quase involuntariamente:

- Senhor Jesus e todos os bons Espíritos, nós louvamos a Deus, Nosso Pai, afasta-te Satanás!

No mesmo instante a escada vacilou e caiu, atirando a jovem contra o tronco de uma árvore, a cujo pé ela ficou estendida e desmaiada. Todo pálido, pois também vira sua mulher, Walter desceu ao jardim e encontrando Filipina como uma morta, chamou gente para ajudá-lo a transportá-la para o quarto e mandou buscar um médico.

Este notou em primeiro lugar que Filipina tinha uma perna quebrada e quando ela voltou a si sem reconhecer ninguém, o médico declarou que ela estava com um forte problema cerebral, sobre cujo desenrolar ele ainda nada podia dizer.

Pálida e aterrorizada, a senhora Cunegundes veio postar-se ao pé do leito de sua nora e uma de suas parentes, religiosa de um convento vizinho, foi chamada para auxiliá-la junto à doente.

Vários dias se passaram sem trazer nenhuma melhora. Filipina continuava a não reconhecer ninguém, rolava na cama num delírio espantoso e não falava senão na mulher de cera que ela tinha visto nos braços de seu marido.

O médico considerou que essas afirmações eram motivadas por um ciúme que sem dúvida atormentava a jovem mulher e agora criava em seu cérebro enfermo e sobre excitado imagens inverossímeis.

Todavia, surdos rumores começavam a circular na cidade sobre a estranha estátua oferecida por um desconhecido doador ao fidalgo de Küssenberg, no mesmo dia de seu casamento.

Murmuravam sobre esse estranho conluio, durante cujo decurso todo, Walter desdenhou sua jovem mulher. Discutiam também o fato esquisito de Raimundo, que pintara um admirável quadro desse misterioso modelo, ter perdido a razão em circunstâncias espantosas e em sua loucura falar apenas na mulher de cera, que ele chamava de Naema, contando a seu respeito, histórias extraordinárias e inacreditáveis.

Uma parte desses rumores chegou até à senhora Cunegundes, enchendo-a de ansiedade, e com sua energia habitual ela decidiu desfazer-se radicalmente da abominável estátua, antes que os boatos que circulavam a seu respeito, produzissem uma catástrofe. O meio mais rápido e eficaz de se desfazer da
estátua era quebrá-la, mas Cunegundes não queria destruí-la dentro de casa. Sabia-se lá que miasmas diabólicos se exalariam dela e empestariam toda a casa?

Ela julgou perigoso atirá-la igualmente no jardim e ficou decidido que a transportariam para a sala de jantar e daí a jogariam na calçada da rua.

Para ajudá-la em seu trabalho, a senhora Cunegundes conquistou o escudeiro de Walter, rapaz devoto e supersticioso, ao qual os processos de feitiçaria e a caça ao diabo que praticavam com furor, transtornaram completamente.

Leberecht, que amava muito seu amo e não duvidava que a mulher de cera tinha o poder de perder sua alma, consentiu de boa vontade em dar o seu concurso para acabar com o sortilégio. Aproveitando-se da ausência de Walter, ergueu a estátua com seu Pedestal e levou o leve fardo para a sala de jantar. Ele se preparava para arremessá-la pela janela aberta, quando subitamente aconteceu algo de espantoso e inesperado. A mulher de cera tornou-se tão pesada quanto chumbo e como que se incrustou no solo, e foi Leberecht que, atirado com violência para fora, rolou na calçada da rua, enquanto que Cunegundes, meio estrangulada por uma mão invisível, caía aos pés da estátua vitoriosa.

Depois deste incidente, a senhora Cunegundes declarou não querer ficar nem mais um dia sequer na casa de seu filho e antes do anoitecer, mudou-se apressadamente.

A fuga da senhora de Küssenberg, bem como os golpes inexplicáveis ao pobre Leberecht, suscitou em toda a cidade uma tremenda comoção. Puseram-se a falar tão alto da presença do diabo na casa do fidalgo, que os magistrados se agitaram e um inquérito foi aberto.

Ainda no mesmo dia, o pai de Filipina veio pedir-lhe que abandonasse a casa fatal, mas a jovem, já em convalescença, declarou não querer deixar seu marido e ficou, apesar de todas as rogativas.

Se ela esperava conquistar por esse meio as boas graças de Walter, se enganava. O jovem espumava de raiva ao pensar no novo escândalo ocorrido e declarou duramente à sua mulher que a considerava a causa de todos os seus infortúnios, pelo assassínio de Leonor e pelo estúpido ciúme com o qual ela
perseguia a estátua e as ridículas tentativas de destruição que terminaram neste vergonhoso escândalo.

Entretanto, o inquérito prosseguia, provocando uma cisão entre os juízes. Todos os eclesiásticos optavam pela origem diabólica da estátua. Os magistrados laicos emitiam dúvidas a esse respeito, supondo que a sobre excitação provocada pelos numerosos processos e o medo do diabo, tinham perturbado o juízo das senhoras de Küssenberg.

Walter negou energicamente ter alguma vez notado qualquer sinal infernal. Contudo, no fim do processo, os juízes ordenaram que trouxessem ao tribunal o objeto incriminado e, acompanhada de multidão enorme, a estátua foi trazida ao palácio da justiça. O povo, como os juízes, extasiaram-se diante da perfeição do trabalho e tiveram de confessar que a estátua não apresentava nada de extraordinário. Era uma figura de cera como qualquer uma, somente bem feita e mais ricamente ornada do que outras da mesma espécie.

Todavia o processo tomara grandes proporções para que se limitasse a uma simples verificação. As senhoras de Küssenberg foram chamadas como testemunhas e intimadas sob juramento a dizerem o que tinham visto. Apesar do medo e das reticências das duas mulheres, o depoimento delas eriçaram o cabelo dos assistentes. Trouxeram também Raimundo e à vista da estátua o pobre caiu em pranto.

Apesar de tudo, uma parte dos juízes, abrandados talvez pela admirável perfeição dessa obra de arte, continuava a duvidar de sua culpabilidade e acabaram por acertar com o bispo uma prova decisiva. A figura de cera devia ser levada à igreja e, colocada no altar e aí ficar durante toda a duração da missa. Se a estátua fosse de origem satânica, sinais inequívocos o demonstrariam durante o ofício divino.

No dia seguinte de manhã, o clero se reuniu com grande pompa na catedral, e a estátua colocada num andor deixou o palácio da justiça, onde passara a noite, para comparecer à missa. A vasta praça estava tomada por uma multidão compacta, através da qual os portadores abriam caminho muito lentamente.

Tudo correu bem até o pátio da igreja. Ao chegar lá, a frágil estátua de cera adquiriu um peso enorme a tal ponto que seus robustos carregadores não puderam sustê-la e a depuseram no chão. Outros homens se juntaram a eles, mas em vão. Na proporção do número crescente dos portadores e do esforço deles, aumentava também o peso da estátua. Pesada como um obelisco, ela estava enraizada no limiar da igreja. Gritos de horror e de medo se elevaram da multidão quando um padre, que apareceu para aspergir a estátua, sentiu-se mal.

Novas provas se tornaram supérfluas. Era evidente ser uma criação diabólica porque não podia penetrar no lugar santo. Os juízes estavam presentes. Sem voltarem ao palácio da justiça, pronunciaram a sentença no pátio da igreja. A figura de cera foi condenada à fogueira e a execução marcada para a manhã seguinte.

A estátua, que se tornou instantaneamente leve desde que a fizeram recuar do limiar da igreja, foi levada para uma das células da prisão, onde devia ser guardada à vista até o dia seguinte. Quanto ao Walter foi citado perante os magistrados solenemente reunidos em audiência extraordinária e no mesmo dia notificaram-lhe que ele devia reconciliar-se com sua mulher e começar uma vida conjugal honesta e cristã, se não quisesse ser acusado de conivência com o diabo e de ser suspeito de frequentar o sabá.

O que significava uma tal acusação e o que ela pressagiava de tortura, de sangue e de vergonha, era suficientemente conhecido pelo jovem. Assim, apesar do desespero profundo que o invadiu ao pensar em perder por uma segunda vez a mulher amada, ele estremeceu pensando em todo o opróbrio que se abateria sobre seu nome e, abaixando a cabeça, declarou submeter-se ao que exigiam dele.

Na manhã seguinte, enquanto a multidão curiosa se ajuntava na praça ao redor da fogueira, uma notícia terrível e inacreditável se espalhou bruscamente. O velho Caspar, todo transtornado, contava que a senhora Filipina acabava de ser encontrada desmaiada em seu leito. Quanto ao fidalgo, evidentemente atirado fora do leito por uma mão desconhecida, tinha uma ferida profunda na cabeça e contusões por todo o corpo. Não tinham ainda conseguido fazê-lo voltar a si. Era claro e indubitável que o diabo impedira a reconciliação dos jovens cônjuges. Este novo incidente provocou no povo uma tumultuosa agitação.

Toda a cidade estava em alvoroço, e se comprimia na praça, nas janelas e até nos telhados. As cabeças pululavam. Jamais, em época alguma, se vira um espetáculo tão extraordinário como a execução de uma feiticeira em efígie.

O céu estava cinzento. O dia se anunciava sombrio, encoberto. O ar pesava, sobrecarregado de eletricidade. Mas nisso ninguém prestava atenção, nem mesmo nas grossas nuvens negras que se acumulavam na atmosfera baça e no ribombar longínquo do trovão. Todos os olhos como todos os pensamentos, fixavam-se no cortejo que avançava, e, sobretudo, no andor sobre o qual se erguia maravilhosa figura de cera, bela e radiosa como uma vivente.

Quando o andor parou ao pé da fogueira, a escuridão aumentou bruscamente. Um vento violento sacudiu as árvores arrancando-lhes folhas e levantando nuvens de pó e de areia. O povo começou a erguer a cabeça e a trocar olhares inquietos. O juiz mandou que se apressassem. Rapidamente a estátua foi içada à fogueira e o carrasco pôs-lhe fogo imediatamente. A primeira acha começava a arder, quando um imenso relâmpago cortou o céu e um ribombo de trovão fez tremer o solo.

Uma verdadeira tempestade se desencadeou. Uma chuva torrencial, entremeada de granizo grosso como um punho, caía com estrondo nos homens que, apertados uns contra os outros impedidos de fugir pela multidão que se comprimia em todas as direções, se empurravam, se atropelavam e se pisavam vociferando. Os relâmpagos se sucediam sem interrupção, o ribombar do trovão ensurdecia, o vento assobiava, urrava, e sua violência era tal que erguia as achas e grandes troncos, lançando-os ao longe como palha seca. Somente a estátua parecia ainda intacta ao fulgor dos relâmpagos. Apenas o furacão açoitava por todos os lados sua túnica de gaze e erguia sua cabeleira dourada, espalhando-a
como centelhas.

O pânico apoderou-se da multidão. Com gritos e urros que se perdiam no rumor da tempestade, ela acabou por se dispersar em todos os sentidos, refugiando-se nas casas.

Todo o resto do dia e uma parte da noite, o tufão continuou os estragos. E quando ao amanhecer os moradores se arriscaram a sair de suas casas, verificaram que na praça não havia traços da fogueira, nem da linda estátua. De resto, esqueceram-na por entre os males e embaraços suscitados pela tempestade.

Três pessoas dentre as que foram pisadas na confusão morreram. Mais de trinta outras estavam bem feridas. Em quase todas as casas da cidade havia vidros quebrados e numerosos telhados estavam estragados. E ao pensarem nesse dia nefasto, todos se benziam e estremeciam de horror.

VI — SALVAÇÃO COMDESONRA

Leonor voltou a si graças a uma dolorosa sensação de frio glacial, mas imediatamente esta sensação mudou. Queimaduras percorriam-lhe o corpo, parecia-lhe rolar sobre brasas ardentes e com um grito medonho ela se levantou e abriu os olhos.

Com a consciência, voltou-lhe também a lembrança. Ela acreditava ver ainda a fogueira, a multidão hostil e agitada que ondulava a seus pés, e o carrasco que erguia uma tocha. Lembrava-se também da tempestade, dos relâmpagos, dos trovões, e dos granizos grossos que lhe caíam ao redor sem atingi-la. Daí por diante ela não se lembrava de mais nada. Apenas seu corpo estava dolorido, os membros rígidos e pesados como chumbo.

Medrosamente, ela lançou um olhar em volta e estremeceu. Achava-se no laboratório de mestre Leonardo, e ele próprio, de pé a dois passos dela, misturava alguma coisa numa taça. Ele parecia fatigado, o rosto estava ainda mais pálido do que de costume, porém, o olhar cintilava, projetando estranha e poderosa fascinação sobre quem o fitava. Um pouco mais longe, Oxarat estava ocupado junto de uma máquina de forma estranha e desconhecida, que crepitava como um braseiro, lançando em todas as direções feixes de fagulhas.

- Pegue e beba - disse mestre Leonardo aproximando-se e estendendo a jovem uma taça cheia de líquido fumegante. Leonor bebeu avidamente, pois se sentia indizivelmente esgotada. Um calor agradável percorreu-lhe os membros, mas os pensamentos se embaralhavam, tinha vertigens, um singular caos de lembrança e de quadros e mistura dos acontecimentos havidos desde há um ano, turbilhonavam em seu cérebro.

Pouco a pouco este estado desagradável se dissipou. Contudo, sua mente trabalhava ainda com dificuldade e apertando a fronte com as mãos, ela murmurou:

- Onde estou?
- Em minha casa, na sua casa, minha bela; de volta ao lar conjugal depois de sua pequena viagem que podia ter acabado mal. Enfim, tudo está bem quando termina bem - acrescentou mestre Leonardo com seu riso estridente e galhofeiro. - E a felicito, Naema. Sua vingança foi brilhante. Aos magistrados você deixou de cara quebrada, como se diz. E a senhora Filipina pagou duramente a impertinente fantasia de querer possuir o belo Walter. Uma só coisa creio vai afligi-la. É que este pobre fidalgo vai passar um mau quarto de hora.

Ele é acusado de magia negra e de conivência com o diabo. Ah! ah! ah! Logo que ele recobrar a consciência, será preso, e como o pai de Filipina encarniça contra ele todo o mundo, ele será posto a tormentos sem misericórdia, e certamente será queimado.

Leonor soltou um grito e agarrou a cabeça com as duas mãos, depois levantando-se com uma força inesperada, caiu de joelhos e erguendo as mãos postas, implorou:

- Oh! Leonardo, salve-o! Poupe-lhe o horror da tortura. Não o abandone nas mãos cruéis de seus inimigos!

Um sorriso sardônico aflorou aos lábios do feiticeiro:

- Bem, bem, já que você o ama e se interessa pela sorte dele, eu o salvarei e farei dele um dos nossos, isto é, trabalharei por fazê-lo, mas neste caso não há tempo a perder. Agora coma, depois repouse e quando precisar de você, eu a chamarei.

Ajudou a jovem a levantar-se e como Leonor cambaleasse, ele a amparou conduzindo-a a sala de jantar, onde uma esplêndida refeição estava preparada.

A moça sentou-se e comeu com vivo apetite. Não se lembrava de jamais ter tido uma tal fome. Quando se saciou e no momento em que se dispunha a erguer-se, apareceu a anã que a servia, a qual a auxiliou a ganhar seu quarto. Fê-la tomar um banho tépido e aromático, em seguida deitou-a, e quase
instantaneamente a jovem caiu num sono profundo e reconfortante.

***

A senhora Cunegundes se achava em casa de amigos, cujas janelas davam para a grande praça, porque ela desejava ardentemente ver queimar a estátua maldita, quando acorreu sua criada acompanhada do velho Gaspar, o qual lhe deu conta dos tristes acontecimentos havidos. Ao saber que sua nora fora manietada em seu leito e que Walter, gravemente ferido, jazia inconsciente, ela pensou ficar louca. E apesar do temporal que se aproximava, ela foi imediatamente para a casa de seu filho. Mal ela atravessava a porta com Gaspar, quando caíram os primeiros granizos e se estabeleceu o pânico. Porém, nesse momento, a senhora Cunegundes era insensível ao horror dos elementos desencadeados. Ela apenas via seu filho ainda estendido inconsciente no solo, porque os serviçais tiveram medo de tocar nele.

Filipina, o rosto violáceo, o pescoço coberto de manchas negras, uma expressão de indescritível espanto em seu rosto, jazia revirada nos travesseiros em desordem, tal como a encontraram.

Toda arrepiada, ela se afastou da moça, fez transportar Walter para um outro quarto e tratou dele. O jovem voltou a si em pleno delírio, e foram horas horríveis que sua mãe passou à sua cabeceira, ouvindo palavras incoerentes, mas que demonstravam de um modo suficientemente claro e compreensível, seus incríveis amores com a estátua de cera. Cunegundes sentia os cabelos se eriçarem ao ouvir seu filho falar das visitas noturnas de Naema e o rugir da tempestade que causava estragos lá fora, aumentava ainda mais o horror febril que a sacudia.

De manhã, logo que o dia clareou, ela teve de sofrer novas comoções morais. Os parentes de Filipina vieram buscar a moça, que levaram para a casa paterna definitivamente e o velho Schrammenstedt evitou a mão que ela lhe estendia, pronunciando tão duras e ameaçadoras palavras que Cunegundes fremiu de pavor e quase desmaiou.

Como aniquilada, voltou para junto de Walter que continuava a delirar, não a reconhecendo. O dia correu lentamente e a noite chegou sem lhe trazer nenhuma idéia salvadora. As palavras de Schrammenstedt lhe tinham feito compreender que Walter seria acusado de magia negra, talvez tentativa de assassinato de sua mulher, e que o ódio do pai ultrajado não conheceria misericórdia. Não faltavam provas contra seu filho. Ele seria torturado, mutilado, desonrado e queimado vivo e ela não tinha nenhum meio de livrá-lo deste fim atroz.

Uma pedrinha atirada do jardim pela janela aberta veio cair a seus pés, arrancando a senhora Cunegundes de seus pensamentos desesperados. Ela correu à janela e viu um jovem, seu afilhado, que ocupava o posto de escrevente no tribunal. Ela estimava muito esse rapaz, filho de uma amiga morta há tempo e que ela criava.

- O que você quer de mim? - perguntou-lhe.

- Madrinha Cunegundes, foi arriscando minha cabeça que vim preveni-la - respondeu apressadamente o rapaz saltando a janela, pois estava ao rés do chão.

- Madrinha, faça Walter fugir ou esconda-o muito bem, por que amanhã virão prendê-lo.

- Mas ele está inconsciente!

- Não importa, prendê-lo-ão do mesmo jeito e o arrastarão ao cárcere. Ele é acusado de ter feito um pacto com o diabo, e ter tido amores contra a natureza com uma mulher de cera e de se encerrar todas as noites apenas para ir ao sabá.

É horrível o que Schrammenstedt declarou contra ele. Acusa-o ainda de ter feito tentar estrangular por Satanás a desventurada Filipina. Portanto, não perca tempo, madrinha, se a senhora quiser salvar Walter. E agora, adeus! Tenho medo de que alguém me veja sair de sua casa.

Cunegundes nada respondeu. Tudo se escurecia diante de seus olhos e, tomada de vertigem, abateu-se no solo. Mas a iminência do perigo mortal que seu filho corria tirou-a desse torpor. Correu junto do leito, mas um simples olhar lançado sobre Walter que, lívido, aniquilado, jazia agora quase semelhante a um cadáver, convenceu-a de que tentar uma fuga era impossível. Transportá-lo para outro lugar, tal como estava, exigia ajuda, chamaria a atenção, e já a maior parte dos domésticos desertara da casa, e os que permaneceram, com exceção de Gaspar, recusavam-se a aproximar-se do doente. Ocultar Walter, ela não o podia, porque revistariam a casa, e os gritos que ele soltava em seu delírio, denunciariam qualquer esconderijo.

Tomada de louco desespero, Cunegundes se pôs a correr como uma doida, batendo a cabeça contra as paredes. Mas por fim, ela voltou ao pé do leito e, caindo de joelhos, se pôs a orar.

O céu parecia estar surdo às suas súplicas. Nenhum socorro, nenhuma idéia salvadora lhe vinha. Mas em lugar disso, um torturante remorso, um arrependimento desesperado de ter impedido o casamento de seu filho com Leonor instalou-se em seu coração duro, orgulhoso e egoísta.

Não seria mil vezes preferível vê-lo feliz, rodeado de afeição e de honra, casado com uma moça bela, amável, da qual não se podia dizer nada a não ser de sua pobreza, do que vê-lo desonrado e destruído, destinado a morrer uma morte horrível? O que ela não daria neste instante para mudar o irreparável, para ver Walter ir ao altar com sua pobre Leonor!

O som cadente da sineta, que penetrava pela porta principal, veio tirá-la de suas lágrimas e arrependimentos tardios. Sacudida por um arrepio nervoso, o corpo banhado de suor frio, aguçou-lhe o ouvido. Não seria o juiz com seus arqueiros que, apressando-se, vinham prender Walter?

Maquinalmente, sem saber o que fazia, lançou-se fora do quarto do doente, cuja porta ela trancou a duas voltas, e correu para uma janela que dava para a rua. Ao clarão avermelhado de uma lanterna pendurada no pórtico, ela viu um homem de alto talhe, envolto num grande manto e coberto com um chapéu enterrado na cabeça, de pé diante da porta e segurando pelas rédeas dois cavalos selados.

Cunegundes respirou aliviada. Não eram os arqueiros, graças a Deus! E como, neste momento, Caspar abria a porta da rua, ela entreabriu mansamente a janela para ouvir o que diziam:

- Eu sou um médico enviado por Sua Reverência, o monsenhor abade Eberhard, para tratar de seu sobrinho - disse o desconhecido.

- Faça entrar meus cavalos no pátio, mas não é preciso desarreá-los. Em seguida você me conduzirá junto ao doente e à nobre senhora sua mãe.

- Entre, senhor - disse respeitosamente o velho criado. E avisando a ama de Walter que, atraída pelo som da sineta, olhava pela porta semi-aberta, pediu:

- Ágata, leve o doutor enquanto eu cuido dos cavalos. Alguns minutos mais tarde, o desconhecido se inclinava diante da senhora Cunegundes e exprimia o desejo de ver o ferido imediatamente.

Apesar do profundo espanto que lhe inspirava o envio do médico pelo seu cunhado, o qual humanamente não podia ainda saber das desventuras ocorridas e da doença de seu sobrinho, Cunegundes não hesitou em fazer entrar o desconhecido no quarto de Walter, e mesmo ela estava por demais perturbada para refletir ao menos um pouco.

Tendo examinado o ferido, o médico fechou a porta e, atirando numa cadeira seu manto e seu chapéu, voltou-se para a mãe do fidalgo:

- Por obséquio, senhora, dê-me uma taça de vinho. Eu vim para salvar seu filho, se ele o quiser, mas antes de tudo é preciso dar-lhe forças.

Com as mãos trêmulas, Cunegundes trouxe o que ele pedia e enquanto o desconhecido despejava na taça um pouco de vinho e esvaziava um frasco que tirou do gibão, ela o examinou curiosamente.

Era um homem ainda jovem, alto e magro. Os movimentos de seus membros delgados e flexíveis tinham qualquer coisa de felino. Seu rosto pálido e os grandes olhos verdolengos mostravam algo dissimulado. E suas mãos, de compridos dedos afilados, eram pálidas e amarelentas como mãos de cera.

Tendo preparado a beberagem, que exalava um cheiro acre e vivificante, o desconhecido tirou do bolso um segundo frasco, muito menor do que o primeiro, e com seu conteúdo esfregou as têmporas, as mãos e o peito do ferido. Em seguida, ergueu-lhe a cabeça e levou-lhe a taça aos lábios. Walter bebeu avidamente sem abrir os olhos, depois recaiu soltando um suspiro rouco.

- Ele morreu! — gritou a mãe com angústia se precipitando sobre ele.

- Não, ele dorme, — disse o médico segurando-a. Deixe-o repousar. Dentro de uma hora ele terá forças suficientes para partir. Enquanto isso, nobre senhora, solicito-lhe o favor de servir o jantar. Tenho fome e estou deveras cansado porque fiz uma longa jornada.

Cunegundes apressou-se a dar ordens a Ágata e um quarto de hora depois, o misterioso médico sentava-se diante da mesa copiosamente servida. Comeu e bebeu com bom apetite, louvando o vinho e a carne de caça. Ao terminar a refeição, ouviram-se passos no quarto ao lado e na soleira e apareceu Walter, ainda pálido e esgotado, mas convenientemente vestido e perfeitamente lúcido.

- Santíssimo! Você se levantou, Walter! Como você se sente? - gritou Cunegundes.

- Eu me sinto bem, mãe. Estive doente? - perguntou o jovem examinando espantado o desconhecido, sentado à mesa nesta hora imprópria, em sua casa.

- Sim. Você esteve muito doente, mas antes de recordar tudo o que aconteceu, venha, coma e beba, porque precisa de forças, - respondeu o médico.

Walter obedeceu maquinalmente e comeu com apetite voraz. Verdadeiramente, ele parecia curado, mas sua cabeça estava vazia e lhe era difícil pensar.

A refeição terminou. O desconhecido de braços cruzados, encostando-se na mesa, disse-lhe, de modo imperativo:

- Conversemos, senhor fidalgo.

E contou-lhe resumidamente os acontecimentos havidos, cuja lembrança Walter tinha esquecido, e acrescentou:

- Amanhã você será preso e acusado de magia negra e de cumplicidade com o diabo. Você sabe, por experiência, como terminam semelhantes processos. Mas se você quiser escapar da tortura e da fogueira, estou pronto a ajudá-lo.

Walter passou a mão na fronte banhada de suor:

- Como é natural, prefiro a liberdade a uma morte horrível e infamante. Mas quem é o senhor, homem generoso, médico sem igual que vem curar-me como por milagre e agora quer livrar-me do suplício?

- Eu sou o amigo dos oprimidos, respondeu o misterioso visitante com um estranho sorriso. Mas é tempo de partir, senhor. Antes da aurora, precisamos estar longe daqui. Despeça-se de sua mãe e rápido!

O fidalgo se aproximou de sua mãe prostrada numa cadeira, desfeita e pálida como uma morta e, beijando-lhe as mãos, disse-lhe:

- Adeus, mãe! A senhora me fez muito mal, causou-me bastante dor por seu orgulho. Contudo eu a perdoo, porque a senhora sofreu muito e Deus a humilhou e a puniu severamente. Rever-nos-emos algum dia? Só Deus o sabe, porque daqui por diante minha vida e meu futuro dependem de meu salvador. Ore por mim e não me esqueça jamais.

Sacudida por soluços convulsivos, Cunegundes abraçou o filho e cobriu-o de beijos. Mas como o desconhecido lembrava que era preciso apressarem-se, e como Walter queria levar alguma coisa, ela tentou reencontrar sua calma e energia.

- Não lhe faltará ouro em minha casa, - observou o desconhecido. - Agradeço-lhe, mas prefiro levar comigo uma pequena soma, para não lhe ser pesado desde já, - respondeu Walter.

- Como quiser - respondeu o médico com um sorriso ligeiramente irônico.

Amontoaram em uma mala, moedas de ouro, jóias e roupas. Walter se despediu de sua ama e de Gaspar, e com a mãe e os dois fiéis criados, desceu ao pátio onde o aguardavam dois cavalos.

Por uma última vez, mãe e filho se abraçaram. Depois, a senhora Cunegundes apertou a mão do desconhecido, agradeceu-lhe calorosamente o auxílio e pediu-lhe que lhe dissesse o nome, para que ela pudesse orar por ele todo o resto de sua vida.

O médico remexeu o bolso e lhe entregou um cartãozinho. Em seguida, saltando na sela, gritou:

- Depressa, senhor, daqui a uma hora raiará o dia!

Dois minutos mais tarde, o portão se abriu, os dois cavaleiros em rápido trote desapareciam nas brumas da noite.

Alquebrada de alma e de corpo, chorando a mais não poder, a senhora Cunegundes entrou em seu quarto e nele se fechou. Ela queria estar sozinha com sua dor e seus remorsos.

Cansada de tanto chorar, ela se lembrou do cartão que lhe dera o desconhecido e que ela guardara na bolsa. Tirou-o para ler o nome do maravilhoso médico.

Talvez fosse uma indicação do país ou do lugar onde Walter ia viver. Mas apenas ela aproximou o cartão da luz da vela, um som rouco e abafado escapou de sua garganta e, sem forças, ela abateu-se no solo. No fundo negro do cartão estava pintado em vermelho um bode sentado, com uma tacha acesa entre os chifres e, em cima, via-se escrito com uma grande e bela caligrafia: Mestre Leonardo.

Naqueles tempos em que se praticava tão sabiamente a arte de caçar feiticeiros e de aprofundar os mistérios da magia negra, qualquer um sabia que era Satanás que, sob a forma de um bode, presidia o sabá e que nesta diabólica reunião, mestre Leonardo era um dos principais dirigentes. A senhora Cunegundes compreendeu que jamais tornaria a ver seu filho, irremediavelmente caído nas mãos das potências infernais. Voltando a si da síncope, seu primeiro cuidado foi queimar o cartão diabólico, que podia perder a ela própria se o achassem em sua casa. Após o que, ela reabriu a casa e se deitou porque se sentia muito indisposta.

No dia seguinte o juiz veio prender Walter, mas não o encontrou como era natural e seus criados depuseram conforme a verdade, que um homem dizendo ser médico, enviado pelo venerável abade Eberard, viera de noite elevara seu jovem amo. Ninguém sabia para onde, nem por quanto tempo.

O caso forçosamente parou aí. Walter desapareceu e não queriam acusar Cunegundes de conivência com ele, tanto mais que a pobre senhora estava gravemente enferma. A doença durou perto de três semanas e a convalescença foi bem mais longa, porque a incerteza sobre o destino de seu filho, do qual não vinha nenhuma notícia, minava a doente.

Quando enfim ela pode levantar-se e as forças lhe voltaram, ela declarou querer retirar-se para o claustro e tomar o hábito. Ela não confiou a ninguém que era para arrancar, por meio de incessantes preces, a alma de seu filho das chamas eternas, que ela queria entrar no convento.

***

Walter e seu companheiro cavalgaram muito tempo sem trocar uma única palavra. Iam num rápido galope e deviam estar muito longe de Friburgo, mas o caminho que seguiam era completamente desconhecido ao jovem. Ele sentia-se bem, a ferida da cabeça não queimava mais, mesmo esse cavalgar a passos velozes não o fatigava. Só que ele tinha dificuldade em pensar e na memória havia lacunas.

Com curiosidade que não sabia explicar, examinava de soslaio seu companheiro que, como rosto oculto pela gola do manto, galopava silenciosamente.

- Será indiscrição de minha parte perguntar-lhe para onde vamos, amigo e protetor desconhecido? -perguntou por fim Walter.

- Vamos para junto de Naema.

A este nome, o fidalgo estremeceu e soltou uma exclamação abafada. Ele acabava de se recordar de tudo. Não só do processo da maravilhosa estátua que estava viva sob seu invólucro de cera, como de sua condenação à fogueira.

- Então Naema está salva? - gritou ele comovido.

- Certamente que ela vive. Está em minha casa e hoje mesmo você a verá.

Vendo o misterioso e sinistro companheiro recair em seu mutismo, Walter se calou também pensando em Naema, o ser adorado que ele ia rever. Mas com o despertar da memória, uma outra cena reviveu igualmente. Quadro medonho e terrível que projetava uma sombra de mau agouro sobre sua Naema. Ele se recordava daquela noite em que, por ordem do tribunal e do bispo, devia reconciliar-se com sua mulher. Com o coração cheio de fel e de angústia, não pensando senão nessa fogueira que de manhã devia devorar a sua maravilhosa estátua de cera, ele entrara no quarto. Filipina já estava no leito, mas ele se aproximara da janela, tentando coordenar as idéias e achar algumas palavras convenientes para dirigir à sua jovem esposa. Com a fronte comprimida contra os vidros, cismava olhando para o céu, quando de repente um grito sufocado o fizera voltar-se e, petrificado de espanto, percebera Naema se inclinar sobre sua rival e com os dedos finos e flexíveis agarrar-lhe o pescoço.

Quando compreendeu que um assassínio ia consumar-se, ele se precipitou para o leito para impedi-lo. Ele não amava Filipina, mas não queria sua morte. Apesar de tudo, era sua esposa legítima e sua consciência o acusava de ter agido mal para com ela, cujo maior pecado se originara de seu ciúme e amor por ele. E a moça era bem jovem, dezoito anos, para morrer tão miseravelmente. Lembrou-se que havia gritado:

- Pare, Naema!

Todavia, como ele fosse agarrar-lhe o braço, recebeu não sabia de onde, um golpe formidável na cabeça e rolou no solo.

Seu último olhar consciente lhe tinha mostrado Naema, com os olhos chamejantes, cercada de fumaça pontilhada de faíscas, que emanava de seus cabelos e coloria de um reflexo purpúreo sua vaporosa túnica. Ele se recordou em seguida que tivera um momento de lucidez quando o erguiam, que ele vira o rosto pálido e transtornado de sua mãe, bem como o corpo de Filipina ainda estendido no leito, o pescoço violáceo, a camisola rasgada e o rosto crispado em mudo terror. Mais vagamente ainda, recordava-se de ter ouvido cantos fúnebres e sentido um cheiro de incenso. Com um arrepio disse a si mesmo que sem dúvida poderia ter ocorrido algo grave a Filipina.

Oh! Ele estava de fato a caminho do inferno e a paixão que fervia nele e que não tinha nada de comum com o amor que outrora lhe inspirara Leonor Lebeling, era um sentimento demoníaco, uma força que o aniquilava, que lhe anulava o raciocínio e a vontade, e que o colocara nesse caminho que agora seguia para atingir um fim desconhecido.

Um riso ligeiro, mas estridente fê-lo estremecer. Bruscamente ele se voltou para seu companheiro. Era mesmo ele que rira, e o jovem estremeceu sob o olhar sardônico e cruel que lhe dardejavam os grandes olhos verdolengos.

Nesse instante a aurora começava a tingir o horizonte. Os dois cavaleiros desembocaram da sombra profunda da floresta que acabavam de atravessar. Através da claridade branquicenta e brumosa do dia nascente, Walter percebeu um castelo fortificado, firmemente encravado no alto de uma rocha e ao qual conduzia um caminho estreito, em largos ziguezagues até o alto da montanha.

Ainda que cobertos de espuma, os dois cavalos subiam o perigoso trilho com uma segurança e rapidez espantosas. As muralhas maciças do castelo se distinguiam mais e mais claramente, porém produziam em Walter uma impressão de tristeza e de opressão. E as nuvens de corvos que voavam com grasnidos lúgubres por cima da velha e sombria construção, aumentavam ainda mais esta penosa impressão.

Enfim, chegaram a uma pequena plataforma em frente da ponte levadiça, que com a aproximação dos cavaleiros abaixou-se rangendo e penetraram num pátio pequeno e sombrio, rodeado de altas muralhas. No limiar de uma porta gótica, à qual se subia por alguns degraus, estava um homúnculo ruço, com ar dissimulado e obsequioso.

Neste momento, o galo cantou e uma lufada de vento glacial atingiu Walter nas costas. Ele se voltou para ver de onde isto provinha e viu com assombro que seu guia tinha desaparecido. Seu cavalo, com a rédea no pescoço estava sozinho.

- Sem dúvida, - pensou o jovem - ele já entrou por uma outra porta.

O homem ruço veio polidamente segurar-lhe o estribo, depois lhe pediu que o seguisse. Atravessaram um vestíbulo que devia ter servido de sala de armas, deram com uma escadaria de honra e passaram por toda uma série de salas ricamente mobiliadas ao gosto de séculos passados.

O que pareceu estranho a Walter é que tudo estava deserto. Nem um homem, nem um criado, uma servente, nada, ninguém aparecia nas salas, corredores e escadas. A mansão senhorial parecia vazia. Por toda parte reinava silêncio e solidão.

Por fim, seu condutor o introduziu num quarto onde se erguia em dois degraus um leito com cortinas de veludo. Os móveis eram de carvalho ricamente esculpido e sobre uma mesa havia uma jarra cheia de vinho e taças de ouro primorosamente cinzeladas.

- Eis aqui o seu aposento, senhor fidalgo, descanse e se precisar de um criado, toque esta sineta - disse Oxarat, o sinistro familiar de mestre Leonardo.

Tendo-o cumprimentado, ele se retirou e Walter ficou só. Mas como se sentia cansado, encheu uma taça do vinho capitoso e bebendo-a foi tomado de uma tal vontade de dormir que se despiu às pressas e caiu em profundo sono.

Quando acordou, caía à noite. Ele dormira todo o dia e despertava disposto, mas esfomeado como um lobo. Vestiu-se e esperou, mas como ninguém viesse, decidiu tocar a sineta. Um instante depois apareceu um anão de uma feiúra e deformidade repugnantes, mas muito bem vestido. Trazia em grande salva de prata uma refeição copiosa, que colocou na mesa e retirou-se depois de ter acendido as velas de cera de dois candelabros.

Walter bebeu e comeu com apetite de um verdadeiro convalescente, depois esperou de novo a vinda de seu hospedeiro ou de Naema, mas ninguém apareceu. Evidentemente era preciso ter paciência e não podendo resistir ao tédio, deitou-se de novo e dormiu.

O dia seguinte transcorreu no mesmo silêncio e na mesma solidão. O anão servia-lhe refeições excelentes, mas parecia surdo e mudo, porque não respondia a nenhuma pergunta e parecia mesmo não ouvi-las.

Walter começou a aborrecer-se e procurando alguma coisa que o ajudasse a passar o tempo, descobriu numa prateleira um velho manuscrito. Sentou-se perto da janela que dava para um pátio nu e deserto e se pôs a ler. Mas o manuscrito não continha senão fórmulas de conjurações, cantos estranhos e totalmente cheios de blasfêmias.

Walter atirou o livro com desgosto e se absorveu em tristes pensamentos. Seu cérebro reconquistara toda a lucidez e com um amargo sangue-frio ele sondou sua posição.

Perdera seus direitos de cidadão. Sua paixão pela misteriosa mulher de cera que - disso ele não podia duvidar - dispunha de forças diabólicas, fizera com que ele desprezasse todos os deveres de esposo e de cristão. O nome de Deus, de Jesus, a cruz que ele usava no pescoço, o serviço divino, numa palavra, tudo o que lhe mostrava o céu, inspiraram-lhe horror e aversão. Há meses que ele se deixara governar pelo espírito do mal e no final das contas caíra nas mãos de potência desconhecida e terrível.

Com um suspiro de angústia, o fidalgo perguntou a si próprio se sua mãe não tivera razão ao acusar Leonor de feiticeira. A jovem desaparecera estranhamente para reaparecer de modo mais estranho ainda e vir fatalmente destruir a paz e a honra de sua família, tornando a ele próprio, cúmplice involuntário de um crime.

A entrada de Oxarat veio interromper suas reflexões. 

- Siga-me, por obséquio, senhor Walter, o mestre o chama - disse ele.

O fidalgo se levantou imediatamente e seguiu seu condutor. Este parou diante de uma porta coberta de sinais cabalísticos e fez-lhe sinal de entrar.

Ao primeiro olhar, Walter compreendeu que se achava no laboratório de um alquimista e procurou com os olhos o feiticeiro. Viu seu misterioso salvador de pé junto a uma alta janela gótica. Os raios do sol poente o envolviam em réstia de luz avermelhada, que dava a este homem alto e magro, de rosto pálido e anguloso, alguma coisa de estranhamente sinistro e infernal.

- Seja bem-vindo entre nós - disse mestre Leonardo com sua voz clara e metálica, respondendo com uma inclinação de cabeça à saudação do fidalgo. - Eu o chamei para que nós nos expliquemos, fidalgo, para lhe dizer quem sou e o que você terá de fazer aqui, - continuou o castelão. - Você não é uma mulher medrosa e tímida, posso então lhe falar francamente, ainda que Naema, apesar de ser mulher, consentiu corajosamente em tudo o que era necessário para escapar da fogueira. Mas antes de tudo falemos claro de sua posição, fidalgo Walter de Küssenberg. Você está proscrito pela lei, acusado de magia negra, de um pacto com o diabo e de relações criminosas com uma estátua de cera. Uma única dessas acusações bastaria para entregá-lo à tortura e à fogueira. As provas contra você abundam e você tem um implacável inimigo no pai de sua mulher. Sua condenação é inevitável e as torturas que lhe aplicarão, vingarão amplamente os sofrimentos da senhora Filipina. Você treme, é natural, mas no momento você não tem nada a temer. Acrescentarei para sua lembrança que no mundo onde você viveu até agora, você tornou-se um mendigo. Desaparecido ou queimado, você perdeu seus direitos. Seus domínios passarão para o primo Edilberto. Quanto à fortuna de sua mãe, ela a doará à Igreja, sendo sua intenção tomar o hábito. Contudo, enquanto você estiver aqui, como já lhe disse, isso pouco lhe importa. Seus juízes não o acharão e você gozará sempre de sua independência, da riqueza e da posse da mulher que você ama.

- O que você exige de mim em troca de todos esses bens; e quem é você, homem horrível e misterioso? - perguntou Walter tentando sacudir o sentimento de dolorosa angústia que o sufocava.

Um sorriso de sombrio orgulho franziu os lábios do castelão:

- Meu nome lhe explicará tudo. Eu sou mestre Leonardo.

Walter recuou cambaleando e involuntariamente gritou:

- Leonardo! O bode asqueroso do sabá?

- Sim, o rei alegre do sabá, da sombria potência e dos prazeres delirantes que nenhum freio segura, - respondeu o homem diabólico com uma risada discordante. - E neste sabá você tomará parte, Walter, para ser definitivamente um dos nossos. Esta noite nossos afiliados se reunirão lá na charneca. - Ele
mostrou o lugar, deserto e queimado, que se via da janela e que o sol poente inundava de luz sangrenta. - Quando soar o sino, você atenderá o chamado e estará na festa. Senão, amanhã ao romper da aurora, você se achará em Friburgo, à disposição dos juízes e em frente da fogueira da qual o fiz escapar. Eis aí, fidalgo, quais são minhas condições. Mas de modo nenhum eu o quero constranger e lhe dou tempo e liberdade para refletir.

Ele fez com a mão um sinal de adeus e desapareceu por detrás de um reposteiro, enquanto que, aniquilado, Walter se prostrava numa cadeira. Num mudo desespero, ele torcia as mãos e a convicção de estar perdido inundava-lhe o corpo de suor glacial. O que fazer?Para onde e como fugir? O inferno e as penas eternas dançavam diante de seus olhos. Todavia, orar, pronunciar o nome de Deus ou do Salvador neste lugar de abominação, ele não ousava.

Um olhar lançado por acaso na janela lhe mostrou que a noite chegara e lhe pareceu que lá, na charneca maldita, dançavam já, duendes e turbilhonavam nuvens negras de corvos.

Com um surdo gemido, ele fechou os olhos, perguntando a si próprio se a tortura e a fogueira não seriam preferíveis ao execrável sabá que se preparava. Mas neste momento, dois braços enlaçaram-lhe o pescoço e uma voz, fresca e bem conhecida murmurou:

- Não tema nada, meu querido, é comigo que você irá.

Walter estremeceu e levantou-se. No mesmo instante os círios de cera na mesa de trabalho de mestre Leonardo acenderam-se por si mesmos e ele viu ajoelhada diante de si, não mais a estátua de cera, mas a própria Leonor, viva e adorável, tal qual a tinha conhecido.

Somente em lugar de sua comprida cabeleira, eram espessas madeixas louras que se derramavam pelas espáduas. Ela vestia um vestido simples de lã branca e de toda sua pessoa emanava um perfume doce e delicioso.

Vendo erguidos para si os olhos cheios de amor de sua amada, seus lábios vermelhos que lhe sorriam, Walter esqueceu tudo. Com um gesto apaixonado puxou-a para seus braços e cobriu-a de beijos.

Walter não se cansava de perguntar à jovem sobre seu misterioso desaparecimento e sobre a relação que havia entre ela e a figura de cera. Ela ria, gracejava, embriagava-o com suas carícias, mas dava respostas evasivas.

Súbito, o som vibrante ainda que longínquo de um sino se fez ouvir. Leonor empalideceu tão bruscamente que mesmo seus lábios embranqueceram e tomando a mão de Walter, ela murmurou:

- Vamos, vamos! Depressa! O mestre nos chama!

O jovem tentou libertar-se.

- Não, não, deixe-me. Prefiro as chamas da fogueira às chamas eternas da maldição.

- Walter, Walter, você me abandona, você me deixa só, porque eu devo comparecer lá. Rompi com o passado, reneguei meu Deus, sou uma amaldiçoada e não posso furtar-me quando me chama o sinal do sabá. Oh! Eis o sino que soa pela segunda vez. Venha!

Ela escorregou para o chão e abraçando-lhe os joelhos, repetia:

- Venha comigo, o céu o reprovou, ele foi surdo para nós dois. Siga-me então a esta festa, você jamais viu coisa semelhante, você ainda não gozou desse prazer que faz esquecer tudo.

Vendo o jovem hesitar ainda, ela se afastou chorando:

- Adeus! Adeus para sempre, - disse ela, - eu não posso demorar-me mais.

Jamais ela fora tão bela e tão sedutora como neste instante. Como uma torrente inflamada, o sangue encheu o cérebro de Walter, afogando temor e escrúpulos. De um salto alcançou Leonor e pegou-lhe o braço:

- Leve-me ao inferno, contanto que estejamos juntos, - gritou ele com voz ofegante.

Com um grito de alegria, Leonor abraçou-o e arrastou-o. Apressadamente desceram as escadas, atravessaram os pátios e deixaram o castelo. Com uma segurança que provava conhecer bem este caminho perigoso, Leonor desceu o estreito e escarpado trilho que levava ao fundo da garganta. Saltando de pedra em pedra, atravessaram a torrente e subiram a colina oposta, menos abrupta que a primeira, porém pedregosa, fendida, coberta de arbustos espinhentos, que pareciam espectros agachados nas sombras da noite.

Enfim, eles desembocaram na charneca, vasto terreno árido coberto de erva amarelecida e de moitas de espinheiros. Já no subir, eles encontraram sombras que chegavam de todos os lados, deslizando, silenciosas e apressadas, para a reunião conhecida.

A lua acabava de aparecer e clareava a paisagem desolada, refletindo-se ao longe num pequeno lago. Havia já uma multidão de mulheres e homens e mesmo crianças, as classes e os sexos misturados, nobres e plebeus, senhoras e mendigos e toda uma população de anões e anãs. Correndo sempre, Leonor e seu companheiro atingiram a extremidade da charneca, onde ela se limitava com a montanha. Mas de repente, Walter parou e observou arrepiado o estranho e sinistro espetáculo que se desenrolava diante dele. Entre várias árvores desprovidas de folhagem e cujos troncos enormes e ramos nus e retorcidos projetavam sombras fantásticas, erguia-se um outeiro.

Em sua crista, três pedras negras formavam uma espécie de dólmen e entronizada neste simulacro de altar acocorava-se uma estátua de madeira, negra e felpuda, com a cabeça cornuda de bode e com todos os atributos de Satanás.

Braseiros acesos em todo o seu redor iluminaram com luz vermelha e fumacenta o outeiro e uma velha enrugada que estava agachada ao pé do dólmen tinha na mão direita um punhado de varas e entre os joelhos, um pote de pedra.

Com uma voz aguda e estridente, a megera cantava encantamentos. De súbito, uma vara pareceu inflamar-se em sua mão, o canto cessa e mergulhando dois dedos da mão esquerda no pote, a feiticeira gritou estridentemente duas vezes em voz alta.

Um clarão pareceu jorrar do pote de onde pulou um animalzinho sobre o dólmen. A estátua do bode pareceu animar-se e crescer.

Seus olhos se iluminaram, uma fosforescência se expandiu de todo seu corpo e se perdeu em espirais.

Leonor e Walter se colocaram na primeira fila. Os olhos da jovem cintilavam de selvagem entusiasmo e a todo o instante ela sussurrava aos ouvidos de seu companheiro, pálido e desfigurado, explicações do que se passava.

Uma procissão asquerosa, todos vestidos de veludo verde ou de seda carmesim, trazendo sininhos no pescoço, acabava de desfilar, dirigindo-se para o lago, quando viram chegar como um tufão, fazendo sibilar o ar com sua carreira desenfreada, um gigantesco carneiro preto, de olhos incandescentes. Em suas costas montava uma mulher jovem e linda, cujos longos cabelos negros esparramavam-se ao vento, e seu pálido rosto se crispava de pavor. Com as duas mãos ela se agarrava ao espesso pelo de seu estranho corcel que, com largo salto, atingiu o meio do círculo.

- É a rainha do sabá, - murmurou Leonor, enquanto que a multidão aclamava furiosamente a recém-chegada.

Tão logo a linda jovem apareceu sobre o dólmen ao lado do bode monstruoso, a missa negra começou e durante o desenrolar dos atos ímpios desta cerimônia odiosa, a multidão que formava uma corrente viva diante do casal infernal, punha-se a dançar.

Aos poucos a corrente humana se desata, as vagas humanas se dispersam pela charneca em um festim improvisado. Todavia, aí nada falta. Nem o hidromel que despejam aos jorros, nem os doces, nem a carne delicada. Todos se fartam, mergulham numa orgia inacreditável, até o momento em que aparecem os primeiros sinais da aurora. Um cocorocó retumba semelhante ao som sonoro de uma trombeta e o badalar longínquo de um sino se faz ouvir. Num abrir e fechar de olhos tudo se extingue, a multidão se dispersa às pressas, os traços do festim desaparecem como por encanto e o sol nascente ilumina apenas a charneca solitária, agora silenciosa.

Embriagado pelo hidromel e tonto de horror, Walter nunca pode se recordar de como voltara ao castelo e se deitara. E quando ele acordou no dia seguinte, como depois de um sonho absurdo, sentia a alma dolorida e o espírito pesado e perturbado.

Depois desta noite medonha, a vida do jovem decorreu sem incidentes dignos de nota. Todos os dias ele via Leonor e tomava suas refeições com ela. Faziam juntos passeios a pé e a cavalo, mas não conseguiam ultrapassar um certo limite.

Se eles teimavam em querer ir mais longe a pé, eram tomados de invencível fadiga e, por vezes, adormeciam sob a primeira árvore que encontravam. A cavalo, os animais, como que repelidos por uma barreira invisível, empinavam e recusavam-se a avançar.

Fora dessa restrição, Walter gozava de liberdade total e o misterioso castelão provia todas suas necessidades com generosidade principesca, rodeando-o de luxo refinado.

De quinze em quinze dias festejava-se o sabá e era obrigatório para Walter e Leonor assistirem a ele. Mas como o homem se habitua a tudo, o fidalgo também se acostumara ao horror destas reuniões, e a elas comparecia com uma espécie de indiferença. Ele tinha a sensação de ser a presa de um pesadelo do qual, cedo ou tarde, despertaria e a simples idéia deste despertar o enchia de angústia e de terror.

Assim decorreram muitos meses quando, inopinadamente, começou a acontecer ao fidalgo uma coisa estranha. De noite ele acordava em sobressalto, coberto de suor frio e parecia-lhe ouvir ao longe o canto vago de salmos ou de preces. Em tais momentos, a lembrança de sua vida de outrora, honrada e cristã, enchia-o de remorsos e do desejo de voltar àquela calma e pia existência antiga.

VII — LUTA TENAZ

Enquanto Walter levava esta vida sacrílega, sua mãe desde que se restabeleceu, pôs em execução o projeto de se retirar para um convento. Em virtude de seu zelo piedoso e da grande doação que ela fez à comunidade, o bispo abreviou-lhe o noviciado e deu-lhe permissão para professar. Com ardor e uma
fé profunda, a senhora Cunegundes, agora irmã Úrsula, rogava por seu filho, que ela acreditava estar entregue às chamas do inferno. Incessantemente ela dizia missas, distribuía esmolas e procurava os santos eclesiásticos cujas preces podiam ser eficazes à alma de seu filho, de seu pobre Walter, que ela chorava como morto.

Um dia em que se celebrava uma festa no convento em honra de uma imagem milagrosa, havia entre os peregrinos um velho monge mendicante que caiu doente. Irmã Úrsula cuidou dele e quando, restabelecido, ele se dispôs a deixar a abadia, ela lhe deu uma rica esmola. Em seguida, como já o fizera mais de uma vez com outros, contou-lhe seus sofrimentos e pediu-lhe que orasse por Walter.

- De certo, de certo, minha irmã! Orarei por seu filho, mas creio poder fazer muito mais por ele indicando-lhe um santo homem cuja intercessão diante de Nosso Senhor é bastante poderosa para arrancar uma alma das próprias garras de Satanás.

- E onde está este santo homem? Como poderei encontrá-lo? - perguntou-lhe irmã Úrsula toda arrebatada.

- Eu mesmo, cara irmã, lhe servirei de guia, se sua abadessa e seu confessor o permitirem. E agora vou contar-lhe a história do venerável eremita e a irmã verá que mais do que nenhum outro, ele é competente para frustrar a astúcia do demônio, curar os possessos e fazer milagres. Se ele quiser ajudar seu filho, ele o salvará, morto ou vivo. Para começar devo dizer-lhe que numa garganta solitária e selvagem das montanhas dos Volges, existe um pequeno convento colocado sob a proteção de São Lázaro, o bem-aventurado irmão de Marta e Maria, que Nosso Senhor ressuscitou. Não longe do convento acha-se uma capela dedicada ao Salvador. Foi um jovem e muito rico fidalgo dos arredores que a construiu, em gratidão a Deus por tê-lo salvo de um perigo mortal durante uma caçada. Esse mesmo fidalgo, que era religioso e caritativo, também contribuiu para a reconstrução do convento, cujos antigos edifícios ameaçavam ruir. Contudo, é velho o ditado que diz que a alma é forte e a carne fraca.

Esse mesmo jovem, apesar de suas virtudes e de sua religiosidade, sucumbiu à tentação. O demônio apoderou-se de sua alma, arrastando-o a uma perdição igual a esta de que seu
filho foi vítima. Ele mesmo me contou, porque o santo eremita, frei Lázaro, e o jovem fidalgo que acabo de mencionar, são o mesmo homem. Portanto, de sua própria boca ouvi a história de todos os crimes dos quais se tornou culpado. Ele frequentou até o sabá e o diabo acreditava tê-lo definitivamente, quando se deu o milagre que operou sua salvação. Uma noite, depois de uma orgia infame, ele se torcia e retorcia no leito não podendo dormir. Apesar de seu esgotamento, o sono lhe fugia, decidiu tomar um forte narcótico e já tinha aberto o frasco, preparando-se para contar as gotas,
quando uma luz repentina e brilhante encheu seu quarto e a dois passos dele apareceu um homem com uma túnica de uma brancura esplendente e flutuando acima do solo.

- Eu sou Lázaro, - disse a aparição. - Tu sabes, eu estava morto e a palavra de Jesus me ressuscitou. Tu crês tua alma perdida para sempre, mas está no poder do Salvador devolver-te a vida verdadeira e eterna. Segue-me, eu te conduzirei à salvação.

A doce majestade que emanava da alma santa, o poder persuasivo das palavras que ela acabava de pronunciar, abalaram o pecador. Ele se levantou e seguiu Lázaro. Aonde iam? Quanto tempo caminharam?Ele jamais pôde dar-se conta disso. Somente, ele acabou por cair esgotado e perder os sentidos.

Cantos religiosos fizeram-no voltar a si, e com estupefação ele verificou que estava estendido diante da soleira da capela que ele mesmo tinha construído outrora.

No interior havia muitos peregrinos que, prostrados diante da imagem de Jesus, oravam com fervor.

Um tal milagre sacudiu-lhe a alma culpada até seu mais íntimo refolho, e quando os peregrinos deixaram a capela, ele se prosternou aos pés deles com lágrimas de arrependimento. Um ancião venerável, de aspecto ascético, aproximou-se, orou por ele e molhou a cabeça com água benta. No mesmo instante o pecador sentiu uma dor horrível por todo o corpo, em seguida um peso enorme pareceu destacar-se dele, e pela primeira vez desde anos, ele orou com fervor.

Desse dia em diante, ele jurou consagrar o resto de sua vida ao arrependimento e à oração. Dedicou o que lhe restava da fortuna à caridade, dotou o convento e ornou a capela com um magnífico quadro de São Lázaro e Jesus ressuscitado. Em seguida professou e se fez monge neste mesmo convento para cuja existência ele contribuíra tanto, mas não viveu aí. Num lugar selvagem e inteiramente isolado, ele descobriu uma gruta perto de uma fonte. Foi para lá que ele se retirou, orando e chorando seus pecados. Mais de uma vez, contou-me ele, o demônio veio tentá-lo, esperando apossar-se de sua alma, mas Jesus e São Lázaro não o abandonaram nestes momentos de luta, e Satanás foi definitivamente vencido. Agora o irmão Lázaro é mais do que octogenário, mas o poder de sua prece é tão grande que ele cura os possessos e converte os pecadores mais endurecidos.

Ele trata também de diversas doenças com a água de sua fonte, que considera santa, porque mais de uma vez, ao orar de noite, ele viu brilhar dela uma cruz luminosa.

Ouvindo esta narrativa, irmã Úrsula caiu em lágrimas, porém uma nova esperança de salvar Walter acendeu-se em seu íntimo. No mesmo dia ela se ajoelhou aos pés da abadessa e do confessor pedindo-lhes autorização para empreender essa peregrinação.

Ambos consentiram com alegria, deram-lhe uma irmã convertida para acompanhá-la e, sob a guarda do velho monge, as duas mulheres partiram.

Depois de viagem fatigante chegaram ao convento de São Lázaro, mas apesar do cansaço, irmã Úrsula tinha tal pressa de ver o eremita, que após algumas horas de repouso, ela se pôs a caminho novamente.

O trajeto era longo e os trilhos pelos quais se subia às montanhas, difíceis e perigosos. Contudo o amor materno sustinha a pobre mulher. Ainda que sua roupa estivesse rasgada e seus pés em sangue, avançava sempre e até que ela e seu guia atingiram a chapada onde se encontrava a gruta. Ao lado da entrada, encoberta por uma cortina de erva selvagem, uma fonte jorrava da rocha viva e suas águas cristalinas deslizavam com um doce murmúrio no leito pedregoso, descendo para a planície em sinuosidades caprichosas.

Do interior da gruta se elevava uma voz grave e ainda sonora, que suplicava por todas as almas transviadas, implorando ao céu que não as abandonassem, à volta ao redil de uma ovelha perdida sendo mais preciosa ao bom pastor do que a presença de todo seu rebanho.

Sob a injunção de seu guia, irmã Úrsula penetrou na gruta e com o coração palpitante, parou junto da soleira. Era uma espaçosa cavidade, no fundo da qual uma grossa pedra servia de altar. Aí se viam colocados um Evangelho e um grande crucifixo de marfim com a imagem do Redentor, ao lado dos quais brilhavam velas de cera em candelabros de prata.

Perto da parede via-se um punhado de folhas secas e uma imagem da Virgem, diante da qual brilhava uma pequena luz.

O monge contara que uma vez por semana mandavam do convento círios, óleo e pão, o qual, com a água da fonte, constituía todo o alimento do asceta.

Diante do altar estava ajoelhado um velho de longa barba branca e de ar inspirado. Apesar de gasto pelas macerações, seus traços traziam ainda os sinais de beleza notável.

Tomada de profunda emoção, irmã Úrsula caiu de joelhos e rompeu em soluços, mas o eremita não demonstrou prestar-lhe atenção, e somente quando ele terminou suas preces e cantou um hino em honra ao Salvador, sua divina mãe e São Lázaro, seu patrono, é que ele se ergueu e fitou a religiosa prostrada, com um olhar escrutinador.

- Levanta-te, mulher, eu te reconheço, - disse ele após um pequeno silêncio e com severidade. - Tu te convenceste afinal de que os bens e as honras terrestres não são mais do que pó e podridão diante do Senhor, que nada pede ao homem senão um coração puro? Teu orgulho, tua avidez, teu coração malvado, entregaram à morte e à desonra toda uma inocente família, e arrastaram à perdição uma meiga e virtuosa, mas fraca criança. Foi graças a ti que as entidades do mal adquiriram poder sobre ela. E para te punir por teres dado mais valor a um pouco de ouro e a alguns títulos do que à virtude e a um amor puro, teu filho caiu na mesma perdição. E agora levanta-te e dize-me o nome de teu filho, a fim de que eu o nomeie em minhas orações. É uma nobre e santa tarefa arrancar de Satanás uma alma que ele já pensa possuir. Conheço os abismos que teu filho atravessa e procurarei salvá-lo. Tu, durante este tempo, volta para tua cela, ora e arrepende-te de teu orgulho que Deus humilhou. E, sobretudo, ora, ora sem desfalecimento, a força da oração é imensa, ela é mais poderosa do que as trevas. Se teu filho encontrar o caminho da salvação, Walter virá agradecer-te por teres pensado nele e o Senhor te perdoará, porque o amor materno foi mais forte do que os maus pendores que obscureciam tua alma.

Ele a ergueu, abençoou-a, deu-lhe de beber da água de sua fonte e um pedaço de seu pão para ela comer, e disse-lhe ao entregar-lhe uma pequenina cruz de madeira:

- Vai em paz, minha filha, ora e espera.

Reconfortada e cheia de fé e de esperança, a mãe de Walter beijou a fímbria do burel do eremita, depois voltou ao convento para repousar um dia ou dois antes de retomar o caminho de sua cela.

Chegada que foi à noite, frei Lázaro se pôs a orar. Numa ardente evocação, ele implorou a todos os bons Espíritos que o ajudassem em sua tarefa, todavia dirigiu-se especialmente ao arcanjo São Miguel:

- Espírito poderoso, grande combatente da luz, inspira-me! - pedia ele com unção extática. - Eu sei que devo arrancar esta pobre alma da perdição, que o céu deve triunfar sobre o inferno, mas não sei como agir, porque sou fraco e cego. Tu que és forte, invencível, clarividente, guia-me e sustenta-me.

No ardor das evocações, o eremita esquecia-se das horas. Toda sua alma erguia-se às regiões bem aventuradas e seu apelo humilde e cheio de fé não foi inútil. Súbito, um jorro de claridade inundou a gruta e lhe apareceu o arcanjo vitorioso, rodeado de grande falange de Espíritos luminosos.

Ele resplendia como o sol. Sua auréola imensa, mais branca do que a neve, mais cintilante do que diamantes, pareciam perfurar a abóbada da gruta. Seu rosto, de beleza sobre-humana, irradiava energia e bondade, e na mão tinha uma espada cuja lâmina era como um relâmpago.

- Levanta-te, Lázaro. - disse ele, - toma tua cruz e caminha direito diante de ti. Um anjo te guiará e encontrarás a ovelha desgarrada na relva. A fumaça negra que ela exalará, o terror que lhe inspirará tua aproximação, te mostrarão que é aquele que procuras. Vais sem medo, a fé será tua força, a cruz tua espada, e meu pensamento te inspirará e te protegerá.

A radiosa visão empalideceu e desapareceu. Mas cheio de uma ardente gratidão, o eremita ficou longo tempo prosternado, agradecendo a Deus a grande graça que lhe acabava de conceder.

Em seguida, ele fez apressadamente seus preparativos de viagem. Num saco ele pôs um pão e uma cabaça cheia de água da fonte. Tomou numa das mãos a cruz e na outra um bordão e de madrugada deixou a gruta. Não sabia para qual lado se dirigir, mas de repente viu uma pomba que esvoaçava diante dele, pousando num ramo, se ele parava e retomando o vôo, se ele se punha de novo a caminhar. Frei Lázaro compreendeu que essa pomba era o guia celeste que lhe prometera o arcanjo e seu coração se encheu de alegria, porque ele já antevia em pensamento o triunfo do bem, e uma pobre alma devolvida ao Senhor, purificada e redimida.

Durante três dias e três noites caminhou assim, atravessando montanhas e planícies, e sempre a pomba continuava a voar diante dele. Na manhã do quarto dia, tendo atravessado uma espessa floresta desembocou numa clareira. A erva aí era verde e espessa. Bonitas flores cresciam nela, mas o ar estava impregnado de um odor de carniça que tirava a respiração do eremita. Lázaro caiu de joelhos e erguendo a cruz fez o sinal da redenção nos quatro pontos do horizonte.

Antes que ele tivesse tempo de se levantar, caiu num fosso que ele não tinha visto e um enorme lobo se atirou sobre ele, de goela aberta e cheia de espuma.

O temível animal parecia raivoso, mas o eremita não se deixou amedrontar:

- Em nome de Deus e dos bons espíritos! - Disse ele elevando a cruz.

Tirando do saco um pedaço de pão, estendeu ao lobo e acrescentou. - Se tu és um animal comum, toma e farta-te!

Mas o lobo recuou. Os olhos lhe saltavam das órbitas e com urros se pôs a arrastar em direção ao asceta. Este ergueu a cruz acima dele, gritando:

- Em nome de Deus. Recua Satanás!

O lobo então rolou em convulsões, gritando com voz humana, como um homem que estrangulam. Em seguida ele desapareceu bruscamente e o eremita continuou seu caminho.

Mais longe, numa volta do caminho, frei Lázaro viu um homem deitado na relva ao pé de uma árvore e profundamente adormecido.

Ele era jovem, belo e estava ricamente vestido. Porém seus membros magros, seu rosto envelhecido antes do tempo, demonstravam que ele se entregava a excessos.

Seu peito arfava e de todo seu ser evolava uma fumaça negra, enquanto que sobre sua cabeça voejava um gigantesco abutre.

Frei Lázaro se lembrou das palavras do arcanjo e compreendeu que encontrara aquele que procurava. Mas quando ele quis aproximar-se dele, da relva ergueu-se uma cobra que tentou morder o pé do eremita. Este a afastou com a cruz e, como que decepada, a cabeça do réptil destacou-se do tronco que se abateu no capim. O abutre então se opôs à aproximação do eremita, dando-lhe com o bico e com as asas, mas vencido por sua vez pelo símbolo da redenção, desapareceu nos ares e Lázaro, aproximando-se do adormecido, esvaziou-lhe na cabeça o conteúdo da cabaça.

Era mesmo Walter que, atormentado neste dia por uma angústia excepcional, saíra para um passeio e tentara atravessar o limite que lhe traçaram. Tomado, como sempre, de fadiga mortal ao atingir a barreira invisível, adormecera e apenas despertou quando a água benta o molhou. Sentindo uma dor espantosa, ele rolou no capim, torcendo-se em convulsões. A espuma corria-lhe da boca, e seu rosto crispado e retorcido, tornara-se irreconhecível. Os olhos saltavam das órbitas e por vezes proferia horríveis blasfêmias, ou emitia vozes de animais. Ele latia como um cão, urrava e arreganhava os dentes como um lobo, ou cantava como um galo.

Era um espetáculo medonho, mas frei Lázaro estava calmo e intrépido. Sem vacilar, erguia sua cruz, repetindo com voz imperiosa:

- Saiam, espíritos inferiores! Eu não lhes abandono esta alma, saiam, ou eu lhes aplicarei a cruz que doma o umbral e seus agentes!

As entidades não cediam. Eles torciam a vítima, infligindo-lhe uma cruel tortura, eles próprios berrando como danados.

- Bem, - disse então o eremita, - já que vocês não querem sair, eu os levarei comigo e em minha casa vocês terão uma vida dura.

Ele se inclinou e tentou erguer Walter, porém este se tornara tão pesado quanto uma rocha.

- Senhor Jesus, em teu nome nenhum demônio pode resistir, assiste-me, ajuda-me a salvar esta alma culpada! - Exclamou Lázaro.

E no mesmo instante, da boca de Walter escapou um grunhido, enquanto que ele caía como morto. Porém, seu corpo ficou leve e o eremita o ergueu nos braços como se fosse uma criança.

Louvando o Senhor e milagrosamente cheio de força sobre-humana, frei Lázaro retomou o caminho de suas montanhas. A pomba o guiava de novo, mas desta vez a estrada parecia tão curta e fácil quanto fora comprida e penosa na vinda. E os primeiros raios do sol nascente douravam o horizonte, quando o eremita depôs seu fardo ao lado da fonte que corria na entrada da gruta.

Durante todo o caminho um enxame de vespas o seguia de longe e, zumbindo, juntou-se numa cavidade da rocha, tanto eram grandes a força e o atrevimento dos espíritos.

Sem perda de tempo, frei Lázaro despojou Walter das roupas que ele trazia, queimando-as numa fogueira de lenha. Escapou-se delas uma chusma de insetos que fugiram em todas as direções.

Desalojadas pela fumaça, as vespas também voaram e desapareceram. Dando graças a Deus por esta nova vitória, o eremita se ajoelhou ao pé de Walter sempre sem sentido e tirando água da fonte, molhou-o todo. Por fim, quando esvaziou-lhe na cabeça a terceira cabaça, o pobre homem abriu os olhos e sentou-se assustado.

Lázaro trouxe então uma vestimenta de pano grosseiro e sandálias de palha trançada. Em seguida, ele acabou de vestir-se, ajudou-o a levantar-se e o levou para a gruta. Quando Walter, muito fraco e perturbado ainda, sentou-se, ele lhe disse:

- Você quer, meu filho, voltar aos princípios do bem e pedir perdão a Deus, dos crimes que você cometeu? Os espíritos inferiores saíram de você, seus olhos estão abertos, e agora você possui todo seu livre arbítrio.

Somente neste instante Walter viu o imenso serviço que o santo velho lhe prestara. Sentiu seu coração livre de um peso enorme e caindo de joelhos beijou os pés de seu benfeitor, soluçando como uma criança.

- Eu o compreendo, meu filho, - disse o ermitão pousando-lhe a mão na cabeça, - porque, como você, eu fui um miserável maldito que zombava de seu Criador. A graça me tocou, obtive o perdão do Senhor, meus lábios voltaram a ser dignos de pronunciar seu nome e, em sua infinita misericórdia, ele me permitiu que resgatasse o passado salvando meus irmãos transviados da perdição. Agora, meu filho, ouça o que lhe concerne. Com a ajuda de Jesus Cristo e pelo poder de seu santo nome expulsei os demônios que possuíam e torturavam sua alma e subjugavam-lhe o corpo. Mas apenas por isso, eu não creio que você esteja livre deles. Eles voltarão para perturbá-lo com quadros imundos, com a tentação sob todas as formas. Eles despertarão em você, desejos impuros e sofrimentos agudos. Enfim, eles farão tudo o que lhes for possível para retomar a possessão sobre você e reconduzi-lo àquela infernal confraria. Aqui perto há uma gruta.

Para ela eu o levarei e lá você acabará sua salvação, porque se quiser ficar livre, deverá combater rudemente. Mas não estará desarmado. Prender-lhe-ei ao pescoço uma partícula da cruz que me trouxeram de Jerusalém. Além disso, terá na mão uma cruz que você não deve jamais largar. Um círio bento o iluminará.

Unicamente você deverá ter o cuidado de não dormir, porque é de noite e durante o sono do homem que os demônios têm mais força. Você então dormirá de dia e de noite velará e orará se, contudo, quiser conformar-se com meus conselhos.

- Se o quero! - gritou Walter abraçando os joelhos do ancião. - Se você mandar, venerável irmão, irei hoje mesmo entregar-me à justiça humana. Que as chamas da fogueira devorem este corpo infame, que serviu de gozo a Satanás.

Que arranquem a língua que blasfemou contra Deus! Que quebrem estes membros que pisaram, e insultaram os símbolos sagrados! Fale que eu obedecerei, porque compreendo agora que as torturas do corpo não são nada em comparação com as penas eternas!

O eremita sorriu.

- Pobre criança transviada! Compreenda que Deus, infinitamente bom e misericordioso, não precisa de sua carne martirizada e queimada. Ele quer seu arrependimento, sua vitória sobre o mal, a destruição de suas paixões. Saiba também que os sofrimentos da fogueira não são nada em comparação com a luta que você deve empreender contra os demônios que virão atacá-lo.

Prove a sinceridade de seu arrependimento e a força de sua fé, dominando-os. E agora, venha! É preciso reconfortar o corpo e dormir. Quando chegar a hora, eu o acordarei.

No fundo da gruta, dissimulado na cavidade da rocha, havia um armário onde o ermitão guardava provisões destinadas aos doentes, aos peregrinos, aos visitantes e aos viajores perdidos. Dele retirou um pão, um queijo, um pote de mel e uma jarra de vinho, que depositou na mesa rústica, convidando Walter a comer e a beber. Quando o fidalgo se fartou, obrigou-o a deitar-se em seu próprio leito de folhagem.

Logo, a respiração regular e profunda do jovem anunciou que dormia. Lázaro, que o contemplava com afeição, veio então ajoelhar-se diante do altar. Ele não sentia nenhuma fadiga, mas uma grande necessidade de orar, de agradecer a Deus. Parecia-lhe que tudo o que fizera durante sua longa vida, fora em vão e que somente hoje ele cumprira um dever verdadeiramente digno do Senhor, e todo seu coração se inflamou no desejo de salvar esta alma obscurecida e criminosa.

Quando o sol se escondeu, o eremita acordou Walter que se sentia inteiramente recomposto, e o conduziu a uma pequena gruta, próxima da sua.

Lá também havia um altar pequeno e improvisado, sobre o qual se erguia uma grande cruz com a imagem do Salvador e também um livro de salmos aberto.

De lado, numa pedra mais baixa, estava um grande pedaço de pão e uma cabaça cheia d'água.

- Veja, meu filho, você passará aqui as noites em prece e se durante oito meses nenhum demônio aparecer para atormentá-lo, você poderá, mas somente então, considerar-se liberto definitivamente. Agora pegue esta cruz de madeira na ponta da qual coloquei um círio aceso. Ele lhe servirá por muitas noites. Deste pão, toma e coma quando os demônios lhe infligirem fome cruel. Desta água santa, beba quando a sede ardente devorá-lo e quando lhe apresentarem uma bebida diabólica. Porque o tentarão de todas as maneiras. Seja firme, resista. As primeiras noites serão as mais duras, porém delicioso é o repouso depois da vitória. Agora eu o deixo, mas orarei por você em minha gruta, a fim de sustentar sua coragem. Ainda uma coisa: você está vendo aquele galo branco pousado num ramo seco?Quando seu canto ouvir, eles o deixarão.

Ficando só, Walter experimentou primeiro um grande bem-estar e uma profunda tranqüilidade. Apertando a cruz contra o peito, ajoelhou-se diante da imagem do Redentor, e à claridade da luzinha e do círio, começou a ler os salmos e as preces que o eremita lhe indicara.

Um longo tempo decorreu. Nada perturbava sua unção e em voz alta ele lia justamente uma ladainha à Virgem, quando de repente um vento frio percorreu a gruta, um estranho desassossego tomou-lhe o íntimo e um medo inexplicável se apossou dele. Um suor gelado inundou-lhe o corpo, os cabelos se arrepiaram e um estremecimento nervoso sacudiu-o da cabeça aos pés.

Subitamente surgiram na sombra dois olhos fosforescentes e ele viu uma serpente que se arrastava em sua direção, fascinando-o com suas terríveis pupilas esverdeadas.

Depois, um surdo grunhido se fez ouvir e ao lado do réptil, apareceu um lobo que o fitava com uma malvadez infernal. Rapidamente, toda a gruta se encheu de animais imundos e quando Walter lançou ao seu redor um olhar apavorado, ele se viu encurralado num círculo intransponível.

De todos os lados ameaçavam-no goelas abertas e dentes agudos. Olhares odientos o miravam, ratos enormes investiam contra ele, corvos e morcegos pairavam sobre sua cabeça.

Com a garganta cerrada, mas dominando corajosamente seu terror, Walter cantou as últimas linhas da página, e depois, mergulhando a mão na água benta, aspergiu amplamente a imunda malta que se comprimia ao seu derredor. Mas quase no mesmo instante ele soltou um grito de dor. Um rato acabava de mordêlo na perna, enquanto que um outro animal enterrava-lhe os dentes nas costas.

- Jesus, Maria, sustentem-me! - gritou ele com angústia. E subitamente tudo empalideceu à sua volta. Os odiosos animais desfizeram-se na escuridão e desapareceram.

Walter respirou aliviado e, prosternando-se, agradeceu ao Salvador o socorro manifesto, mas a trégua não foi longa. Ele apenas começava a cantar um salmo, quando foi tomado por uma fome devorante e por sede inextinguível. Ao mesmo tempo, surgiu-lhe na frente um ser horrendo e disforme que ele se recordava ter visto no sabá.

Trazia uma bandeja cheia de iguarias apetitosas e uma taça de vinho aromático, que lhe estendeu com um sorriso de mofa. Lembrando-se do que o eremita lhe dissera sobre as investidas diabólicas, Walter desviou os olhos, partiu um pedaço de pão e o comeu e bebeu um gole de água. A isto a face do ser infernal se crispou, sua bandeja de comida se desfez, e ele próprio fundiu-se numa nuvem negra e nauseabunda.

Walter retomou o versículo interrompido do salmo, mas logo uma brisa glacial começou a soprar na gruta. O frio era tão intenso que o penitente pensava gelar. Batiam-lhe os dentes e os dedos rígidos mal seguravam a cruz.

Então ele ouviu um alegre crepitar e a alguns passos acendeu-se um braseiro que devia irradiar um calor reconfortante, se ele se aproximasse, porém Walter não se moveu e seus lábios arroxeados continuaram a recitar as palavras do salmo.

Pouco a pouco o frio terminou, mas foi substituído por um vapor úmido que caía no solo formando poças d'água sujas que rapidamente se estenderam. De todas as partes a água se filtrava borbulhando. Molhou os pés de Walter e depois lhe atingiu os joelhos. As paredes da gruta desapareceram e de todas as direções surgiram ondas agitadas que encharcavam o jovem até o pescoço que a cada instante ameaçavam afogá-lo. Então apareceu uma barquinha dirigida por um  capaz de olhos doces e complacentes que, aproximando-se de Walter, estendeu-lhe a mão, convidando-o a subir a seu lado.

Por resposta, Walter abraçou-se à pedra que lhe servia de altar e que o crucifixo dominava como um farol de salvação e murmurou com uma voz quase extinta:

- Jesus, meu Redentor, não me abandones pelos meus pecados!

Uma lufada de ar tépido e embalsamado acariciou seu rosto e pareceu sacudir as ondas geladas e turvas. Tudo sumiu e a gruta retomou seu aspecto habitual. Vendo-se assim vencidos em todos seus ardis, a cólera se apossou dos maus Espíritos e como uma nuvem negra, apareceram de todas as partes. Pedras, restos humanos foram atirados em Walter, ferindo e machucando-lhe todo o corpo.

Mas ele suportava tudo com humildade e paciência, invocando somente o santo nome de Deus, até que o galo cantou pela terceira vez.

Imediatamente tudo se dissipou, o primeiro raio do sol clareou a entrada da gruta e esgotado, mas feliz, Walter prostrou-se aos pés do altar.

A voz alegre de frei Lázaro que lhe dizia:

- Felicito-o, meu filho, você combateu valentemente! - arrancou-o de seu torpor.

Endireitou-se e beijou a mão do eremita, que o ajudou a erguer-se e acrescentou com um sorriso:

- Você não pode ainda julgar-se vencedor. Eu o previno que novas lutas e duras provas o esperam, porque os demônios não abandonam facilmente uma presa que eles julgavam possuir definitivamente.

- Sofrerei tudo, mas me livrarei dessa escravidão - respondeu Walter enxugando a fronte banhada de suor. - Amplamente mereci o meu castigo e por maior que seja o poder dos maus espíritos, eles não me dominarão mais.

- Persevere, meu filho, em tão louváveis disposições e você reconquistará a graça eterna. Venha agora à minha gruta e fortifique-se com o alimento e o sono para as lutas da noite.

Walter o seguiu com reconhecimento e tendo comido e bebido, deitou-se na cama de folhas secas. O sol declinava quando acordou.

Não se lembrava de ter jamais dormido tão bem mesmo em seu leito macio, sob as cortinas de brocado da antiga casa.

Chegada a noite, depois de ter compartilhado da frugal ceia do eremita, Walter retirou-se para sua gruta e se pôs a orar. Desta vez ele sentia mais segurança e cantou com voz firme e sonora os salmos da penitência.

Depois que o galo assinalou com seu canto a meia-noite, uma lufada de ar frio encheu de novo a gruta. Em seguida no fundo escuro da rocha, apareceu um ponto luminoso que se tornou um disco imenso. E aí, como num espelho, começaram a desfilar os mais tentadores quadros. Todas as seduções da beleza e da volúpia se desenrolaram numa realidade embriagadora diante dos olhos deslumbrados e perturbados do pecador arrependido, estimulando-o e excitando-lhe os sentidos, revolvendo tudo quanto restava em sua alma de desejos impuros.

Mas Walter permaneceu firme ainda que todo fremente, com a cabeça em fogo, a respiração opressa. E ficou de joelhos invocando os bons Espíritos, suplicando-lhes que lhe amparassem a fraqueza com suas forças celestes. Sua prece não foi vã. O disco luminoso arrebentou-se com uma crepitação sinistra e em seu lugar apareceu mestre Leonardo.

Uma infernal perversidade desfigurava o rosto do ser misterioso, quando ele gritou com voz rouca:

- Ingrato, miserável poltrão, que prefere levar uma vida inepta, com o rolar de orações, vestir-se de trapos e comer pão seco, em lugar de gozar de uma existência principesca!Tudo isso porque conseguiram amedrontá-lo. Mas você tem de voltar! Você me pertence, você confraternizou conosco no banquete do sabá, você celebrou a missa negra e cuspiu nos símbolos que adorava. Sua alma me pertence!

A estas palavras Walter, que estava de joelhos, levantou-se e erguendo a cruz, respondeu com voz firme e enérgica:

- Recue, inimigo dos homens, serpente imunda que ousa lançar sua peçonha contra o Senhor, dono do Universo! Você é impotente contra mim, porque sua força diabólica se derrete diante do símbolo da redenção. Portanto, afaste-se e desapareça antes que eu o fustigue com esta cruz!

Mestre Leonardo recuou soltando um grito agudo e lançou no rosto de Walter uma baforada de ar inflamado e um tamanho cheiro de cadáver em decomposição, que a respiração lhe faltou. Ao mesmo tempo uma verdadeira avalanche de restos humanos, de sapos, de lagartos e de vermes repugnantes, caiu sobre ele, cobrindo-o de resíduos pastosos e fétidos.

Walter ficou de pé com a cruz erguida e gritou com voz forte:

- Senhor Jesus, meu Mestre e Protetor, envia teus espíritos superiores, para que eles me defendam contra esse demônio vomitado pelo inferno.

Mestre Leonardo soltou uma horrível blasfêmia e desapareceu, atirando na cabeça de Walter uma emissão fluídica que quase o apanha.

O canto do galo e os primeiros clarões da aurora trouxeram-lhe o repouso. O eremita veio, abraçou-o, felicitou-o e afirmou-lhe que ele estava no caminho da graça.

Porém devia acautelar-se para não enfraquecer e não dar o espírito do mal por vencido, porque era justamente nos momentos de descuido que ele aproveitava para recapturar suas vítimas.

Na terceira noite, Walter começou sua vigília com mais coragem ainda. Ele se sentia como um convalescente depois de grave enfermidade. A fraqueza, o peso de todo seu ser, o insaciável desejo de gozar que nada podia satisfazer, tudo isso desaparecera. Seu cérebro estava claro, todo seu corpo leve e cheio de tranqüilidade.

Com uma alegre disposição, ele se pôs a orar e como as horas decorressem calmas e silenciosas, começou a pensar que o demônio, convencido de sua impotência, o largara.

Mas repentinamente, ele estremeceu e seu coração parece que parou de bater. Na abertura formada pela entrada da gruta, ele viu Leonor, não a figura de cera, nem a mulher sombria e apaixonada que ele conhecera no castelo de mestre Leonardo, mas a sublime e inocente criança que ele encontrara na
casinha do velho Lebeling e que lhe inspirara um tão vivo e profundo amor.

Como então, ela vestia um simples vestido de lã, uma estreita fita azul segurava seu cabelo rebelde na fronte de marfim, as tranças espessas pendiam quase até o colo e tendo nas mãos uma cítara, ela cantava uma dessas árias populares, tristes e doces, de que ele tanto gostava.

Oh! Como estava linda! O coração palpitante de Walter corria para ela e já ele abria a boca para chamá-la quando, de súbito, lembrou-se que o diabo era hábil em maquinações e que talvez ele contasse com a fraqueza de seu amor por Leonor. Ele parou imediatamente. Umedeceu a boca com água santa e firmando a voz perguntou:

- Quem é você e para que me quer?

Então a suave voz de sua bem-amada respondeu com tristeza:

- Estou muito só e abandonada, meu Walter. Não posso vir abraçá-lo, reencontrar em seus braços o amor e a felicidade?

- Se de verdade você é minha adorada Leonor, saúde-me em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vem beber da água santa de minha cabaça e beijar a cruz que tenho nas mãos. Então você poderá aproximar-se de mim e nós oraremos juntos.

Enquanto ele falava, viu com horror o vestido branco de Leonor se colorir de manchas negras, sua cabeça loura se dissipar e se transformar na face crispada de mestre Leonardo. Soltando uma gargalhada infernal, o ser perverso pareceu estourar como uma bomba, fundir-se numa nuvem preta e espessa que salpicou Walter de imundícies e sumiu enchendo a gruta de um abominável cheiro de carniça.

- Senhor, meu Deus, era mesmo o demônio! E eu que já queria chamá-lo, tomando-o por Leonor! - murmurou Walter benzendo-se.

Muitas noites se seguiram bastante calmas. Por vezes os espíritos do mal apareciam inopinadamente, dançavam ao redor dele uma sarabanda infernal, procuravam perturbá-lo por meio de quadros impudicos ou blasfemavam de modo horrível, mas Walter, mais forte, conhecia já suas manhas e não se deixava fraquejar. Sem mesmo lançar um olhar em seus perseguidores, ele fazia orações e cantava hinos à glória do Salvador e eles acabavam por desaparecer.

Em seguida tudo cessou. Todas as noites Walter velava e orava, mas nada o vinha perturbar, tudo era silêncio e solidão. Depois de terem decorrido perto de três semanas sem que nenhum ser inferior reaparecesse, ele se persuadiu que tinham renunciado a atormentá-lo.

O ermitão, ao qual ele exprimia esta convicção, sacudiu a cabeça:

- Não se iluda com tais esperanças, meu filho, e, sobretudo, não se embale numa perigosa tranqüilidade. Conheço a tenacidade de Satã e lhe predigo que esse abandono simulado é a calma antes da tempestade, o encolher-se do tigre ante um bote decisivo; mais do que nunca, vigie e mantenha-se em guarda.

E frei Lázaro não se enganava. Alguns dias depois dessa conversa, Walter, de joelhos diante do altar, orava com fervor quando sentiu perto de si um aroma suave e penetrante que ele se lembrava de já ter respirado. Ergueu os olhos e ficou petrificado. A seu lado estava Naema, mais bela do que nunca. A túnica de gaze mal encobria suas formas admiráveis. As ondas de seus cabelos dourados acariciavam as faces do penitente e seus grandes olhos fosforescentes o fitavam, cheios de ardente paixão.

De todo o ser de Naema emanava um perfume perturbador de rosas e de violetas que embriagava e enervava ao mesmo tempo.

- Walter! - murmurou ela inclinando-se para ele, tão perto que seu hálito perfumado o acariciava - será que você me pode abandonar, rejeitar-me como réproba, de medo de um inferno ridículo que não existe? Procurei-o muito, meu amado, antes de encontrá-lo aqui, tão pobre e tão miserável, meu belo e querido amigo!...

De novo ela se inclinou, estendendo os braços para abraçar Walter. Este recuou com terror e ergueu a cruz.

- Naema, recue! Eu não tenho mais nada de comum com você. Em vão me vem tentar com sua beleza. Você já não o pode - disse ele com tenacidade.

Então Naema caiu de joelhos e estendendo para ele as mãos juntas, suplicou-lhe com as mais ternas palavras que não a repelisse. Ela se arrastou a seus pés, derramando uma torrente de lágrimas, repetindo que não podia viver sem ele, sem seu amor.

O poder da mulher que ele amara tão apaixonadamente era grande ainda e sua maravilhosa beleza exercia sobre os sentidos de Walter um ascendente quase irresistível.

Pálido como um morto, tremendo de febre, coberto de suor, ele se encostara à parede, apertando no peito o símbolo da salvação. Seus lábios frementes balbuciavam palavras incoerentes, farrapos de preces cujo sentido ele já não compreendia. Ele lutara vitoriosamente contra os demônios que o assediaram, suportara o frio, a fome e as dores físicas, frustrara as malícias diabólicas e resistira às mais voluptuosas visões. E agora ele tremia, sentia-se enfraquecer à vista dessa mulher bela, bela de fazer esquecer a condenação, cujo ser todo parecia exalar os mais ardentes desejos, despertar uma paixão insensata e infernal.

Walter percebia o abismo abrir-se a seus pés. Tudo o que ele conquistara com um tão penoso trabalho esboroava-se. A carne rebelde, os sentidos indisciplinados se erguiam como serpentes, abraçando-o, escravizando-o, impelindo-o para essa mulher que se arrastava para ele, aproximando-se sempre. Já ela o tocava, embriagando-o com o perfume que irradiava. A cabeça lhe girava. O sangue, como uma torrente inflamada, afluía-lhe ao cérebro, obscurecendo-lhe a vista.

Um instante mais e a cruz cairia de suas mãos trêmulas, e os braços flexíveis de Naema lhe enlaçariam o pescoço, quando subitamente entre Walter e a infernal tentadora, se interpôs uma mão luminosa segurando uma cruz.

Naema recuou, empalideceu e sumiu no crepúsculo que anunciava a aurora, enquanto que Walter caia desfalecido.

Ao se passar o que acabamos de narrar, o eremita orava em sua gruta e sua alma, clarividente graças à vida pura e ascética, assistira ao terrível combate travado por seu discípulo. No momento decisivo, ele viera em auxílio do fidalgo, projetando por uma emissão de vontade, o símbolo luminoso da salvação entre Leonor e sua vitima.

Quando voltou a si de sua prece extática, foi logo para junto de Walter, que ele achou ainda sem sentidos. Lavou-lhe o rosto com água santa e logo que Walter reabriu os olhos, levou-o ao ar livre, onde os raios vivificantes do sol nascente e os aromas das plantas e das flores acabaram por restabelecê-lo.

Lázaro felicitou-o por ter corajosamente lutado, mas avisou:

- Junte suas forças, meu filho, a luta suprema que lhe predisse acaba de começar. A terrível visão virá tentá-lo novamente, impondo-lhe o mais tremendo combate que um homem possa travar: o combate contra os sentidos, os quais ele não aprendeu a dominar. E somente quando você os tiver domado é que poderá considerar-se livre das cadeias do mal. Ore, então, como eu orarei, para que Deus lhe conceda a força de destruir a mulher enviada por Leonardo.

Walter abaixou a cabeça. Agora compreendia muito bem o quanto era difícil livrar-se dessa força inferior à qual ele imprudentemente se ligara. Após ter-se reconfortado com o sono e com um pouco de alimento, Walter, humilde, mas corajoso, voltou ao lugar de seu suplício, na gruta onde sofrera todas as torturas do combate, suportara dores pungentes e onde se erguia a fogueira invisível na qual ele consumia todas as fraquezas da carne.

O fidalgo orou sem ser perturbado por várias horas e já julgava que Naema não voltaria mais. Todavia à meia-noite, ela surgiu no fundo da gruta e se pôs a tentá-lo.

O suor banhava o corpo de Walter, que se defendia apenas com a cruz ao procurar Naema aproximar-se dele. O confronto durou até o raiar do dia e esgotou-o de tal modo que ele mal pode arrastar-se até a fonte e foi incapaz de dormir.

Com angústia pensou que na chegada da noite ele estaria sem forças e que lhe era indispensável domar de qualquer modo a infernal visão que, afinal de contas, podia levá-lo a sucumbir. Mas como fazer? Ardentemente Walter implorou a Deus e aos bons Espíritos que o inspirassem.

Não cessando de orar, o fidalgo esperou a vinda de sua perseguidora. Na hora habitual ela apareceu mais bela e mais fascinante do que nunca. Mas, em seus olhos sombrios, entre olhares de amor, brilhavam relâmpagos de cólera e de impaciência. Ela se mostrava mais ousada do que das outras vezes, atacando sua vítima com uma raiva cruel.

Vendo seus esforços falharem, ela ergueu de repente os dois braços e começou a fazer passes no ar. De seus dedos emanavam longas réstias de luz avermelhada, que lançava sobre Walter e fê-lo fraquejar, depois de ser invadido por uma pesada sonolência. Suas pálpebras se fecharam. Como uma serpente,

Naema deslizou e se inclinava para imprimir-lhe um beijo nos lábios, além de com um golpe brusco fazê-lo largar a cruz, quando no limiar apareceu frei Lázaro, que bradou com voz trovejante:

- Acorde, Walter, ou o demônio o reconquistará!

Como que tocado por uma ducha de água gelada, o fidalgo se endireitou e a consciência de ter estado tão perto da derrota o encheu de súbita cólera.

Agarrando Naema pelos longos cabelos, ele a derrubou, brandindo a cruz por cima de sua cabeça. O ser demoníaco se torcia soltando gritos horrorosos e procurando livrar-se, mas Walter o mantinha com mão de ferro. E por súbita inspiração, com o círio preso na ponta da cruz, ele pôs fogo na cabeleira de Naema.

- Em nome de Jesus e de Maria, consuma-se, criação infernal, volta para o abismo de onde você surgiu e não ouse mais aparecer em meu caminho - disse ele com voz forte e dando um passo para trás.

No mesmo instante o corpo de Naema pegou fogo inteiramente, derreteu-se crepitando, sibilando, urrando, depois explodiu com um estouro semelhante ao do trovão. Uma sombra negra escapou-se das chamas e desapareceu, deixando após si um odor fétido. Alguns minutos depois não restava da forma vivente de cera mais do que um pouco de cinzas enegrecidas e misturadas com restos de ossos calcinados.

Walter deu um grito e se atirou nos braços do ermitão que, com lágrimas de alegria, apertava-o contra o peito.

VIII — VITÓRIA CONTRA O MAL

O desaparecimento de Walter que ele julgava possuir definitivamente, enchera mestre Leonardo de uma raiva espantosa. Contudo ele contava ainda com Leonor para reaver a alma do jovem. Não tendo conseguido enganá-lo ao tomar ele próprio as formas da jovem, resolveu usar uma vez mais a figura de cera.

Pelo processo que ele empregara tão bem, exteriorizou o corpo perispiritual de Leonor a qual, transformada em Naema, procurou seu antigo amante e tentou seduzi-lo, usando de todos os recursos de sua beleza, de todas as forças de que dispunha, porque à vista de Walter e a vontade de mestre Leonardo, reacenderam toda a paixão que ela sentia pelo fidalgo e sob a inspiração de seu infernal dominador, ela decidira matar Walter, se não conseguisse vencê-lo.

Vimos que todos os seus esforços malograram. Apesar do sofrimento que lhe causava a presença da mulher amada e da paixão que se movia ainda no fundo de sua alma, o jovem se mantivera firme e na super excitação do fanatismo e do êxito religioso, queimara viva sua temível tentadora.

Na noite em que se desenrolava o último ato desse drama, gritos espantosos alarmaram todo o castelo de mestre Leonardo. Oxarat e a anã precipitaram-se para o quarto onde repousava, como da primeira vez, o corpo rígido e gelado de Leonor. Com espanto eles verificaram que a jovem despertara e rolava no leito, envolta numa fumaça negra e soltando gritos que nada tinham de humanos.

Quase no mesmo instante apareceu mestre Leonardo que, vendo o que se passava, pegou o frasco que continha a essência que a anã despejava nas brasas para conservar um aroma vivificante no quarto, esvaziou-o numa bacia cheia d'água e embebendo um pano, cobriu o corpo de Naema, que caiu em
convulsões, torcendo-se, blasfemando e implorando a morte para se livrar de dores insuportáveis.

Pouco a pouco as convulsões cessaram, mas a desventurada continuava a gemer surdamente. Então, mestre Leonardo tirou o pano que secara rapidamente e viu que o corpo da jovem não era mais do que uma só chaga, carnes queimadas, calcinadas em alguns lugares até os ossos. Numa palavra, qualquer coisa de horrendo e de indescritível.

Somente a cabeça, ainda que inchada e coberta de manchas sanguinolentas, estava quase intacta.

Com os dentes cerrados, tremendo de raiva ao ver que existia uma força superior à sua e o subjugava, o sinistro castelão contemplou por um instante sua vítima, e ordenou a Oxarat que fosse buscar no laboratório uma caixinha que ele indicou.

Tendo pingado no vinho algumas gotas de um líquido incolor, ele o deu para a infeliz beber, e quase imediatamente Leonor caiu numa insensibilidade completa e igual à da morte. Depois, ele tirou da caixinha um saquinho de pó branco com o qual lhe polvilhou todo o corpo. Enquanto isso, Oxarat e a anã trouxeram uma banheira que encheram de leite morno em que Oxarat misturou ovos frescos e uma essência escura que coloriu o leite de cor estranha, imitando as cores do arco-íris.

Quando o banho ficou pronto, mestre Leonardo mergulhou nele o corpo de Leonor, e a anã segurou-lhe a cabeça, enquanto que ele colocava faixas de pano para que a cabeça não escorregasse e não mergulhasse no líquido. De quando em quando, ele derramava entre os lábios azulados e crispados da
enferma uma colher de essência fortemente aromática, durante o que a anã mantinha uma fumigação acre e penetrante. Isto continuou toda à noite e uma parte da manhã. Em seguida, mestre Leonardo mandou que estendessem no chão um lençol no qual esparramou uma espessa camada de pasta, feita de pó branco, de ovos frescos e da essência escura que tinha colocado no banho. Com o auxílio de Oxarat, o mago ergueu a desventurada, que tinha mais o ar de morta do que de viva e deitou-a no lençol, cobriu-a inteiramente da mesma pasta, enrolou-a como uma múmia e a pôs no leito.

O corpo ao sair do banho tinha um aspecto menos horrível. As chagas empalideceram e as menos profundas se cobriram como que de leve gaze. Todavia, mestre Leonardo parecia muito preocupado. Tendo ordenado a Oxarat que vigiasse continuando as fumigações e ministrasse o vinho misturado com a essência, retirou-se. Mas voltou ao cair da noite e renovou o banho de leite, de ovos e de essência, bem como as aplicações da pasta branca. Desta vez, Leonardo pareceu mais satisfeito e manteve o tratamento que estava dando bons resultados. Continuou assim a ministrar-lhe as gotas narcóticas, que mantinham a doente numa benéfica inconsciência dos sofrimentos que suportava. Ao cabo de dez dias, o corpo de Leonor readquiriu aparência humana. As queimaduras menos profundas eram vistas apenas como manchas arroxeadas, as outras se cicatrizaram rapidamente e mesmo a carne parecia recompor-se, dando aos membros a naturalidade e a graça primitivas.

Com um sorriso satisfeito, mestre Leonardo a examinou, depois verteu-lhe entre os lábios ainda pálidos, mas já ligeiramente coloridos, uma colher de vinho quente ao qual misturou uma infusão de erva, o que transformou o estado letárgico de Leonor num sono profundo e reconfortante. Algumas horas mais tarde ela despertou em plena consciência, mas um arrepio a sacudiu ao encontrar o olhar frio e cruel de mestre Leonardo fixado nela.

Este pareceu não notar esta impressão pouco lisonjeira.

- Ei-la fora de perigo, minha amiga - disse ele com bom-humor - as dores que lhe restam são suportáveis e se você for inteligente e paciente, poderá levantar-se dentro de uma semana e comer e respirar um pouco de ar fresco.

Pela sua beleza, minha querida Naema, não tema nada. Cuidei dela com a ternura de um amante e logo você estará adorável como sempre.

A jovem nada respondeu. Leonor estava tão fraca que não se podia mover e todo seu corpo a incomodava, ainda mais do que a tortura. Contudo, tinha fome e quando a anã lhe serviu um pouco de ave e de legumes que lhe introduziu na boca como a uma criança, comeu com apetite e tornou a cair em sono calmo e profundo. Desde esse dia, sua convalescença progrediu a olhos vistos. Todos os dias a anã lhe esfregava o corpo com um ungüento preparado por mestre Leonardo, e de noite Leonor ficava durante três horas no banho de leite. Seus padecimentos diminuíam celeremente, os sinais das feridas desapareciam cada vez mais, seus membros ganhavam a elasticidade de outrora e apenas a mortal palidez do rosto e uma indizível fraqueza recordavam ainda o espantoso acidente.

Um dia, mestre Leonardo que a visitava todas as manhãs, anunciou-lhe que ia levá-la para a casa de amigos onde ela se restabeleceria mais depressa.

Uma hora mais tarde, dois anões a carregaram de liteira até o pé da montanha. Uma carruagem, à qual Oxarat servia de cocheiro, os esperava e partiram. Na boca da noite chegaram a uma grande chácara rodeada de pastos, limitada de um lado por floresta de pinheiros e do outro por um pequeno lago.

O chacareiro e sua mulher, idosos ambos, acolheram mestre Leonardo com uma obsequiosa deferência, porém inspiraram pouca confiança a Leonor, a quem o olhar dissimulado da mulher desagradou. Depois de copiosa refeição à qual ele honrou, mestre Leonardo partiu. A chacareira conduziu Leonor ao quarto que estava preparado e lhe apresentou uma moça alta, magra e feia, como a criada destinada ao seu serviço, que a despiu em seguida, vestindo-a com roupa de dormir.

Somente de manhã a jovem se sentiu com coragem para examinar o que a rodeava. Seu quarto, mobiliado simples, mas confortavelmente, dava para um pomar cujas parreiras, carregadas de uvas maduras, a tentaram. Ela se divertia também em colher flores no campo vizinho, descansava à sombra dos pinheiros e sentia-se contente em sua nova residência.

Decorreram muitas semanas desta existência calma e monótona. Leonor via raramente seus hospedeiros. A criada servia-lhe regularmente o leite e as refeições, sempre tudo muito bem preparado, mas a deixava só o resto do tempo.

A jovem observou que, por vezes, à noite, todos deixavam a casa e, então, o badalar longínquo de um sino feria-lhe os ouvidos. Leonor conhecia esse som lúgubre e vibrante, sabia que reunião anunciava e um arrepio de horror sacudia-lhe as fibras do ser. Todavia não exigiam que acompanhasse os habitantes da chácara e ela agradecia a mestre Leonardo por este favor.

Pouco a pouco, ela recuperava sua saúde e sua beleza, suas faces tornavam-se rosadas, a cor branca e nacarada e sua pele acetinada como antigamente. Porém, em sua alma reinava um sombrio desencorajamento, e ela sentia um vazio atroz e esta incurável tristeza se refletia em seus olhos.

Freqüentemente, ela pensava em Walter. Não lhe guardava rancor pelos sofrimentos que ele lhe infligira. Ele, que se arrependera e que se achava no caminho da salvação, não podia agir de outro modo. Mas a convicção de que ele estava irremediavelmente perdido para ela, que sua regeneração o separava dela para a eternidade, enchiam-na de sombrio desespero.

Leonor passava horas a sonhar, num abatimento profundo, não ousando elevar seu pensamento a Deus e implorar-lhe a graça. Porque se furtivamente sua alma atormentada se voltava para Deus, dores agudas e insuportáveis trespassavamlhe todo o corpo e, cheia de terror, ela repelia prece ou arrependimento, para evitar sofrimentos que ultrapassavam suas forças. Somente quando pensava no
passado, nas horas de felicidade inocente, de puro e calmo amor, é que ela gozava de um pouco de tranqüilidade.

Mestre Leonardo, ao partir, lhe prometera ir visitá-la, mas não apareceu e unicamente Oxarat veio duas vezes saber notícias dela. Entretanto, nos primeiros dias de outubro, chegou seu sinistro companheiro, que se maravilhou visivelmente da beleza que ela reconquistara. Leonor estava no jardim e brincava com um passarinho que havia achado ferido e que curou e domesticou. O olhar cínico e ardente de mestre Leonardo causou arrepios à jovem, mas ela não ousou resistir à carícia apaixonada que ele lhe testemunhou.

Na mesma noite retomaram o caminho do castelo. Leonor adentrou um invencível sentimento de tristeza nessas paredes onde ela sofrera tanto e o pensamento de ser obrigada a assistir ao sabá a fazia agitar-se. Contudo, este tormento lhe foi poupado. Não havia mais reuniões ou simplesmente a excluíram delas? Ela não soube dizer mais nada, mas sentiu-se extremamente feliz por não ver mais tais horrores.

Mestre Leonardo parecia apaixonado por ela como nos primeiros dias e a enchia de presentes, um mais precioso do que o outro. Compreendam o espanto da jovem quando, um dia, ele a chamou ao
laboratório e lhe disse que decidira casá-la.

- Cada membro de nossa comunidade, minha querida Naema, tem por obrigação contribuir, na medida de suas forças, para o enriquecimento da confraria. O momento de cumprir este dever toca agora a você. O senhor de Riding pediu-a em casamento. Ele é velho, mas imensamente rico e em virtude de sua avançada idade, ele não viverá certamente mais do que alguns anos ainda.

E depois de sua morte nós herdaremos sua enorme fortuna. O conde a ama com paixão. Ele viu-a no dia de nossas núpcias e desde então aspira possuí-la. Eu lhe concedi sua mão, sem mesmo consultá-la, porque não podemos deixar escapar uma tal ocasião. Somente quero preveni-la de que dentro de duas semanas celebraremos as bodas e que em seguida você partirá com seu marido para viver num de seus castelos. Todos ignoram que ele é membro de nossa comunidade e é de seu interesse guardar bem este segredo. Devo acrescentar que, ainda que a conveniência me force a cedê-la por algum tempo a este velho libertino, meu amor por você permanece o mesmo. Irei visitá-la e providenciarei para que você volte a mim o mais cedo possível.

De cabeça baixa, Leonor ouviu sem interromper este cínico discurso. Nada mais a espantava e tudo lhe era indiferente. Não descera a todos os abismos e sofrera todos os opróbrios? Estava apática demais para estremecer ainda ao pensar em pertencer a este homem desconhecido. Seu coração morrera desde que o único homem que ela amou com toda sua alma se perdera para sempre para ela. Um sentimento de ódio enchia seu coração por esse ser sem piedade que lhe fizera pagar uma vida salva por tantas mortes antecipadas, que usava dela para todas suas maquinações infernais, sem jamais se importar com os sofrimentos que disso resultavam.

- Estou pronta, porque pertenço a você de corpo e alma e que protesto posso fazer? - respondeu ela e um sombrio clarão iluminou seus olhos. - Porém eu maldigo mil vezes esta vida que comprei com o preço de minha salvação, e que me fez pagar por torturas mais atrozes do que a própria fogueira.

A moça lhe virou as costas e saiu.

Sombrio, inquieto, sobrancelhas franzidas, mestre Leonardo apoiou-se com os cotovelos em sua mesa de trabalho e pensou:

- O velho fermento está sempre vivo em seu íntimo - resmungou ele - e ai de mim se ela cair em poder dos malditos! E ele, esse santo recentemente aparecido, está a procura dela para resgatar-lhe a alma! Canalha! É por isso que Naema deve ir embora daqui. Antes que ele a encontre lá embaixo, ela pode morrer. Depois do presente que lhe deu o seu querido Walter, sua vida não vale grande coisa.

Alguns dias mais tarde houve no castelo um banquete em honra do noivo de Naema, o qual lhe foi apresentado na mesma ocasião. Era um velho de baixa estatura, magro, amarelo, enrugado, repugnante apesar de trajar-se cuidadosamente. Ele ofereceu à noiva, soberbos presentes, mas ela mostrou-se totalmente indiferente.

No dia marcado para o casamento, que devia celebrar-se à meia-noite, uma grande sociedade se reuniu. O próprio Leonardo vestiu a noiva com um esplêndido vestido do qual ele lhe fez presente. Era um vestido de brocado de prata incrustado de pérolas finas, um véu de rendas incomparáveis e um diadema de diamantes, que formava com o colar, os braceletes e o cinto das mesmas pedras, uma jóia de verdadeira rainha. Foi também mestre Leonardo quem oficiou a cerimônia nupcial, se assim podemos chamar a comédia sacrílega a que ele dava o nome grave e místico do sacramento que a Igreja celebra.

Segundo o uso, ele a oficiou de trás para diante, uniu os esposos com anéis cheios de sinais cabalísticos e, em lugar da bênção, proferiu uma abominável blasfêmia. A festa terminou com um banquete esplêndido e ao romper do dia, os recém-casados deixaram o castelo rumo a seu domicílio.

***

Depois de sua grande vitória, uma temporada de calma e de repouso começou para Walter. Frei Lázaro o levara para o convento e o prior o abençoara e lhe ministrara a comunhão. Quem poderá descrever os sentimentos de alegria inefável, de profundo reconhecimento que o pecador arrependido experimentou ao receber o voto que o admitia de novo à comunidade dos cristãos? Tendo voltado à gruta, ele se punha a orar todas as noites. E como os demônios não o perturbassem mais, ele teve também longas horas para pensar no passado e no futuro.

Como ele recomporia sua vida? Voltar ao mundo lhe parecia impossível, mesmo que o absolvessem da acusação que lhe pesava nas costas. Graças a seus pecados, havia ao redor dele apenas ruínas. Leonor estava duplamente perdida, Filipina dementada e com ela a esperança de possuir uma família. Sua mãe professara. Raimundo era louco. Não, não, o mundo nada mais lhe podia dar e ele tinha provado o poder do demônio. O que poderia fazer de melhor senão se consagrar ao Senhor pelo resto da vida? Depois de muito meditar resolveu tornar-se monge.

O eremita aprovou esta resolução e o prior do convento acolheu-o de boa vontade, como noviço. Ele consagrava estima e afeição a este jovem que expiara tão valorosamente seus pecados e sofrera tão duras provas.

Por seu próprio pedido, o abade lhe impôs um severo noviciado. Trabalhava o dia todo e de noite orava, concedendo-se apenas o repouso indispensável para não desfalecer.

Todos os monges o amavam por sua doçura, sua paciência, sua serviçal afabilidade e ao cabo de três meses o prior autorizou-o a professar.

Walter santificou pelo jejum e pela meditação o dia que antecedeu esta grave cerimônia. Em seguida dirigiu-se à igreja para passar nela, a última noite em que pertencia ao mundo. Ele tinha o pressentimento de que, apesar de sua purificação e de sua vida ascética, o Espírito do mal viria ainda uma vez atacá-lo e tentar arrancar-lhe a palma da vitória.

Só uma luz acesa diante do altar clareava a pequena igreja mergulhada na sombra e no silêncio. E por muito tempo nada perturbou Walter. Porém, quando o relógio do convento bateu meia-noite, uma vaga tristeza e angústia sem nome oprimiram-lhe o coração e um suor frio percorreu-lhe o corpo. Ele sentia ao seu redor a presença de seres invisíveis e um sopro gelado o trespassava. Depois, percebeu olhos queimantes, mas sem corpo, que dardejavam sobre ele, olhares rancorosos. Mãos frias e gelatinosas o apalpavam, procurando empurrá-lo para longe do altar em frente do qual estava ajoelhado. E ele não podia resistir senão com grande dificuldade a esta força. Esgotado de fadiga, tremendo com todos os seus membros, Walter orava em voz alta, quando seu coração paralisou de terror.

O balir de uma cabra acabava de fazer-se ouvir. Um clarão vermelho, semelhante a um incêndio, acendeu-se no fundo da igreja, fechando a saída e neste fundo projetava-se mestre Leonardo com todo o horror de sua majestade diabólica. Atrás dele se comprimia um imenso cortejo de seres refletindo em seus rostos desfigurados todas as paixões criadas pelo mal, cortejo hediondo que queria avançar, atirar-se sobre Walter, fitando-o com ferocidade e ódio mortal.

- Você nos pertence ainda, renegado! - Urrou mestre Leonardo com voz rouca. E estendendo para ele a mão pálida e de dedos terminados em garras, tentava apanhá-lo, enquanto que seus aliados infernais rodeavam Walter, espremendo-o e sufocando-o. Este se levantou e ergueu a cruz. A malta recuou um pouco, tripudiando, urrando e soltando gargalhadas estridentes. A cabeça de Walter girava neste caos infernal e em sua fraqueza gritou:

- Jesus Cristo, meu Salvador, envia um de teus anjos para me proteger. Tu vês o meu arrependimento, meu amor por ti. Não me abandones!

No mesmo instante, um raio de luz emergiu do lado direito do altar e um mensageiro celeste apareceu ao lado de Walter. Era um adolescente de beleza suave, vestido com uma túnica de neve. Uma grinalda de flores ornava seus cabelos louros e uma estrela brilhava-lhe na testa. Com uma mão erguia uma cruz luminosa e com a outra brandia um gládio resplendente. Aroma delicioso evolava-se de todo seu ser e doce harmonia fazia vibrar a atmosfera. Avançando contra a falange do mal que se comprimia e recuava diante dele, o mensageiro do céu levantou a espada resplendente e gritou com voz imperativa:

- Saiam deste lugar, Espíritos das trevas e escravos da matéria. Que o mal que evocam caia sobre vocês mesmos. A alma deste penitente está livre da obsessão e desde já ele se torna implacável adversário da iniqüidade. Ele conhece todas suas maquinações e maldades. Temam-no porque vocês deverão curvar-se à sua passagem. E agora retornem ao abismo de onde surgiram!

Erguendo sempre a cruz e a espada, o anjo avançou contra mestre Leonardo que, aterrado e abatido no solo, arrastava-se torcendo-se como uma serpente e soltando rugidos de animal feroz.

Os seres que o acompanhavam se dispersaram como nuvens negras, incapazes de suportar o contato das forças do bem, da pura harmonia do céu. Passo a passo o ser luminoso obrigava mestre Leonardo a recuar e quando ele transpôs a porta da igreja, uma detonação longínqua anunciou que fora definitivamente vencido.

Walter caiu de joelhos e estendendo os braços para seu celeste libertador, gritou derramando lágrimas de gratidão:

- De que maneira devo louvar o Senhor para agradecer-lhe sua infinita misericórdia?

O Espírito luminoso sorriu com bondade e tocando com sua espada de fogo a testa e o peito de Walter, respondeu-lhe:

- É arrancando das trevas as almas extraviadas que serás agradável ao Senhor. Vai, combate pelo bem e a luz divina te concederá uma força invencível.

Ao toque da espada de fogo, Walter sentiu qualquer coisa de pesado destacar-se dele. Uma chuva de centelhas o inundou, enchendo todo seu ser de calor, de vigor e de um poder jamais experimentado. Ao mesmo tempo, suas pálpebras se abaixaram e como através de uma bruma, ele viu o mensageiro do céu fundir-se numa névoa luminosa e desaparecer, adormecendo em seguida.

O sol nascente enchia a igreja de luz, quando Walter abriu os olhos. Ergueu-se para orar e percebeu que sua roupa estava rasgada e que na pele do braço estava impressa a imagem de uma cruz.

Ele compreendeu que foi o anjo quem o marcara assim e o dotara da força necessária para o desempenho da missão que lhe destinavam.

Com alegria e humildade, agradeceu a Deus. Depois, chegou-se ao prior ao qual contou a visão cujo sinal visível lhe mostrou. E o abade e frei Lázaro experimentaram uma alegria profunda. Abençoaram
o neófito e algumas horas mais tarde, às vozes dos cânticos sagrados, Walter vestiu o hábito branco dos dominicanos e tomou o nome de Miguel, em honra do arcanjo vitorioso, vencedor do espírito das trevas.

Desse dia em diante, profunda tranqüilidade e alegre confiança encheram a alma de frei Miguel. Seu exterior estava transformado, se bem que pálido e magro, ele reconquistara toda sua máscula beleza e apenas a expressão era outra. Doçura infinita se pintava em seu rosto, uma luz interna parecia irradiar-se de todo seu ser e em seus grandes olhos luminosos, severos e profundos, brilhava uma poderosa vontade que tornava seu olhar difícil de suportar.

Ele parecia nada notar dessa mudança. Com indizível ardor Walter se preparava com jejuns e preces para a luta que o anjo lhe indicara. Logo, muitas curas de obsediados, algumas pela imposição de suas mãos, atraíram a sua atenção, mas ele ainda não se julgava bastante forte para travar o grande combate.

Terrível era a época. Contudo o mal aumentava em vez de diminuir. Satanás estava mais forte do que nunca. Foi nessa ocasião que frei Miguel decidiu ir visitar sua mãe. Ele queria agradecer-lhe a peregrinação que ela fizera por sua intenção, e dar-lhe a alegria de sabê-lo vivo.

Bateu na porta do convento e a seu pedido foi introduzido no parlatório. Ao reconhecer o filho e ao vê-lo vestido com o hábito, irmã Úrsula quase desmaiou de alegria, porque compreendeu que ele estava salvo. Longamente, mãe e filho se abraçaram e quando a primeira emoção passou, conversaram. Ele contou-lhe toda a história das provas que tinha sofrido até a vitória final e pôs sua mãe a par da missão que o Senhor lhe confiara. Falou do passado e com horror e pesar recordaram os tristes acontecimentos dos quais sua casa fora teatro.

No decorrer da conversa, o monge lembrou-se de seu amigo Raimundo o qual, graças a Naema, perdera a razão. Irmã Úrsula lhe contou que o infeliz vegetava miseravelmente em Friburgo, incapaz de ganhar seu pão e tratado pela caridade de uma parenta velha, que recolheu o antigo artista agora objeto de piedade e de mofa.

Um doloroso remorso por ser a causa da perda de seu amigo encheu o coração de Miguel e ele tinha muita experiência para compreender que algum espírito do mal, mandado por mestre Leonardo subjugara a alma do pobre Raimundo.

Não era seu dever tudo fazer para salvá-lo?Sua consciência lhe respondeu que sua missão lhe impunha essa tarefa e resolveu cumpri-la.

Depois de algumas horas passadas com sua mãe, despediu-se dela, prometendo vir visitá-la sempre que possível. Agora ele tinha pressa de ir ver Raimundo.

O rumor da conversão do fidalgo de Küssenberg, de sua tomada de hábito e da vida ascética que levava, já tinha chegado a Friburgo. Souberam também que ele semeava o caminho de sua vida, de boas obras e de curas milagrosas. Assim, muitos olhares curiosos se fixaram no alto porte do dominicano que, de cabeça baixa, atravessava a cidade dirigindo-se para a casinha da velha Margarida, onde vegetava o pobre louco. A mulher acolheu o monge com respeito, mas exprimiu-lhe a convicção de que Raimundo era incurável.

- Ele está inteiramente idiota e se fala é sempre de coisas esquisitas, que não têm sentido comum - disse ela com um suspiro.

- Nada é impossível a Deus. Leve-me ao pé do doente, minha boa Margarida. Eu orarei por ele e talvez o Senhor o aliviará.

A mulher o conduziu então a um quartinho que dava para o quintal. Perto da janela o pobre louco estava agachado, de olhos fechados e murmurando palavras incoerentes.

Frei Miguel ergueu a cruz e disse com gravidade: - Nosso Senhor Jesus Cristo atravessará esta porta. Todos os Espíritos do mal devem afastar-se.

E tirando do peito um frasco de água fluida, aspergiu Raimundo.

O pintor estremeceu, abriu os olhos e depois caiu em convulsões. Então o monge se aproximou, derramou-lhe água na boca, fez esparramar fumaça de incenso e pronunciou as preces prescritas pelo ritual para libertação do obsessor.

Uma voz esganiçada que não era a de Raimundo pôs-se a blasfemar e a injuriar o monge, mas este continuou a orar e a ordenar o espírito impuro que deixas-se sua vítima, esclarecendo-o.

Súbito, o louco soltou um grande grito, e dele saiu um odor fétido, que mergulhou na chaminé, enquanto que o doente se prostrava como morto. Miguel lhe lavou o rosto, mandou que lhe trouxessem uma roupa limpa e ele mesmo queimou os velhos trajes de Raimundo.

O pintor continuou prostrado, aparentemente sem vida, mas o monge não se alarmou. Pediu a Margarida que se retirasse e ficando só, acendeu círios e se pôs em preces durante a noite toda.

Muitas vezes ele ouviu ao seu redor um rumor surdo, clarões fosforescentes esvoaçavam nos cantos escuros, mas a isto se limitaram às tentativas das forças malignas e ao primeiro raio do sol, Raimundo abriu os olhos em plena razão.

Vendo um monge ajoelhado ao seu lado, perguntou com espanto, sem reconhecer Walter:

- Meu irmão, será para assistir a um enfermo que você está aqui? Será que eu estive acamado?

- Sim, meu pobre amigo, você esteve bem doente. Mas ei-lo curado pela graça de Deus. Mas você não me reconhece? - perguntou-lhe o monge levantando-se e estendendo-lhe as mãos.

- Walter! Você!Que desventura o levou a renunciar ao mundo? - gritou Raimundo todo comovido.

- Será uma desventura renunciar à vida mundana? - observou o outro com um sorriso. - Você vê em mim agora frei Miguel da ordem de São Domingos, um pecador arrependido, ao qual Deus concedeu a graça de curar pelas mãos e pela oração os doentes como você. Mas conversaremos mais tarde. Antes de tudo agradeçamos ao Senhor que lhe livrou a alma das trevas em que ela vivia.

Durante o dia todo os dois amigos conversaram e quando ele soube da história de Walter, Raimundo já muito impressionado pela sua cura declarou a seu amigo que ele também se faria monge para acompanhá-lo junto aos doentes e ajudá-lo nas obras de caridade. Mas frei Miguel sacudiu a cabeça.

- Antes de pensar em si mesmo - disse ele - você tem de cumprir o sagrado dever de assegurar os dias da velha parenta que o recolheu e cuidou quando você estava na miséria e abandonado por todos. Sempre que cumprimos o nosso dever, somos agradáveis ao Senhor! Assim, se depois de ter garantido o futuro da bondosa Margarida e ter provado a força de sua vocação no torvelinho da vida mundana, ainda perseverar no desejo de ser monge, venha procurar-me e você será bem-vindo.

Raimundo reconheceu a justeza das palavras de seu amigo e prometeu conformar-se com seus conselhos. À tarde, frei Miguel retomou o caminho do convento, porém antes de deixar Friburgo, ele foi ao cemitério e orou longamente no túmulo de seu antigo escudeiro, Leberecht. Lá derramou lágrimas amargas, porque ele se considerava como o assassino involuntário deste ser morto tão prematuramente.

A cura de Raimundo despertou grande admiração e criou para frei Miguel uma fama consolidada. Doentes vinham ao convento buscar alívio para seus males e recomendarem-se às suas preces. Ele, entretanto, continuava sua vida laboriosa e ascética, esperando que se lhe apresentasse a ocasião de empreender a missão que o anjo lhe designara.

Uma noite teve um sonho que considerou como o sinal de que o momento de agir tinha chegado. Dirigiu-se de manhã ao prior, confiou-lhe o sonho e solicitou a permissão para partir, pedindo-lhe também uma cruz, que ele levaria no pescoço dentro de um medalhão. Tendo obtido uma coisa e outra e levando alguns círios e uma caldeirinha de água, se pôs a caminho.

Caminhava ao acaso, mas firmemente convencido de que ia onde era preciso. Ele se sentia tomado de um poder desconhecido que emanava de todo seu ser. Caminhou assim muitos dias e uma tarde parou numa pequena clareira para repousar e dormir um pouco à sombra de uma árvore. O lugar era solitário. Ao longe via-se uma cadeia de rochedos e toda a paisagem, mergulhada no crepúsculo, tinha qualquer coisa de sinistro e desolado. Mas o monge era inacessível ao medo. Deitou-se e dormiu e em sonhos viu um espírito, seu celeste libertador, que lhe dizia:

- Levanta-te e vai. Atrás daqueles rochedos terás um combate agradável a Deus.

Miguel acordou sobressaltado. Parecia-lhe ouvir ainda a voz da entidade e cheio de um piedoso ardor, partiu imediatamente. Mas com grande espanto seu, ao abaixar-se para pegar o saco que continha sua magra refeição, ele viu em cima dele uma machadinha de cabo de marfim perfeitamente materializada. (1)

***
(1) — Um fenômeno evidente de transporte de objeto, possível pela
interferência de um médium. (N. da E. )
***

Compreendeu que este presente misterioso devia ter um fim desconhecido para ele. Miguel ocultou a machadinha sob o hábito e com passo apressado dirigiu-se para os rochedos designados. À medida que ele se aproximava, um clarão pálido se fazia ver. Depois, um murmúrio confuso de vozes, de cantos misturados com gritos roucos, feriu-lhe os ouvidos. Bruscamente, ele parou. Este rumor de uma multidão agitada, a melodia destes cantos, os gritos entrecortados de blasfêmias, ele os conhecia bem e um estremecimento sacudiu-lhe todo o corpo. Mas a hesitação não durou mais que um segundo. Mais depressa, retomou seu caminho, subiu numa das rochas e, oculto na escuridão, lançou um olhar ao seu redor.

A seus pés se estendia uma charneca árida, clareada por fogos acesos aqui e ali e no fundo, sobre um montículo encimado pelo espécie de dólmen que ele já vira em reunião semelhante, erguia-se o repugnante símbolo da profanação, dominando a turba formigante que, a seus pés, se expandia em todos os excessos da orgia.

Uma santa cólera se apoderou de frei Miguel e ele sentiu em si a força e a energia necessárias para dispersar esta diabólica reunião. Desceu à planície e caminhando nas sombras dos rochedos, ganhou o montículo onde se entronizava o ídolo, erguendo os dois braços de tochas cuja luz vermelha e vacilante clareava sua face bestial.

Lentamente, sem ser notado, Miguel subiu no montículo, saltou sobre o dólmen e com um só golpe de machadinha partiu o ídolo monstruoso que rolou por terra. Em seu lugar apareceu, dominando a planície, a alta figura de um monge vestido de branco e erguendo numa das mãos um círio que se acendeu sem que ele soubesse como e na outra a cruz.

Um instante de mortal silêncio se estabeleceu. Em seguida, gritos humanos se elevaram de toda a parte e qualquer coisa de indescritível se produziu. Um formigueiro parecia em ebulição. Como louca, a multidão se arremessava por todos os lados, atropelando e esmagando-se. Alguns caíam em convulsões e eram pisados, outros pareciam tomados de loucura.

Mas de repente este pânico se mudou em ira. Uma parte dos fugitivos deu meia volta e, como enraivecidos, atiraram-se no dólmen no qual se mantinha sempre de pé a figura branca do monge. O rosto inspirado, os olhos voltados para o céu, ele continuava a brandir o símbolo da salvação e o hino santo que ele cantava com voz sonora, por instantes dominava o barulho infernal.

Como uma avalanche, os furiosos rodearam o dólmen, tentando escalá-lo, agarrar o hábito do monge para tirá-lo de sua posição, estrangulá-lo e fazê-lo em pedaços.

Era verdadeiramente um quadro terrificante o círculo dessas faces bestiais, espumando, crispadas de ira, desses braços erguidos e armados de projéteis diversos, que se arrastavam aos pés do homem intrépido que, armado somente de sua fé e do poder de sua vontade, aventurara-se neste lugar de horror e de maldição. E evidentemente estas armas eram eficazes, porque um círculo intransponível parecia cercar o monge. Contra este círculo se quebrava a malta enraivecida, que caía blasfemando.

Ao romper da aurora a multidão se dispersou. Com um olhar triste, o monge contemplou esse campo onde as mais vis paixões se tinham degradado - e depois dedicou toda sua atenção e cuidados aos sobreviventes.

Em primeiro lugar ocupou-se dos obsediados. Aspergiu-os com água e fez preces com suficiente força de vontade que muitos infelizes ficaram livres de seus atormentadores, os quais fugiram dando gritos agudos.

Quando o sol iluminou com seus raios vivificantes a planície desolada, o mais difícil estava feito. Miguel salvara os que o podiam ser e pensara nos feridos. Os miseráveis seres se amontoaram ao seu redor, contemplando-o com respeito e gratidão. Então ele lhes começou a falar do Pai celeste, de seu divino filho e de sua infinita misericórdia para com todo o pecador que se arrepende. E tal era o poder persuasivo de sua palavra, que as lágrimas corriam de todos os olhos e um raio de esperança iluminou as almas ensombrecidas, despertando nelas o desejo ainda vago de se reconciliarem com Deus.

Humildemente, eles se prosternaram diante do pregador inspirado, suplicando-lhe que os ajudasse a reconquistar a iluminação.

- Certamente, meus irmãos! Eu não os abandonarei neste lugar de perdição - respondeu alegremente Miguel - Sigam-me, eu os conduzirei a um lugar onde vocês poderão, pelo arrependimento e pela prece, iniciar uma nova existência. Ponham-se em colunas e os que estão sãos amparem os feridos e em marcha!

A frente de sua estranha corte, frei Miguel retomou o caminho do convento, cantando hinos com sua bela voz e confortando os que fraquejavam, com afetuosas palavras.

Ele decidira confiar a tropa dos arrependidos aos cuidados de frei Lázaro e sabia que ninguém melhor do que ele era capaz de repor estas almas perturbadas e cambaleantes no caminho da virtude. O piedoso eremita aceitou o encargo com alegria, e a fama de frei Miguel cresceu ainda mais. Com um temor respeitoso e supersticioso, o povo olhava este jovem monge, esbelto e pálido, que ousara o que ninguém antes ousara: desafiar as entidades inferiores diretamente em seu próprio centro de ação.

IX — A LUTA DOS MONGES

Depois do simulacro de casamento com o senhor de Riding, a vida de Leonor sofrera uma mudança radical. O velho pecador, insaciável de prazeres de toda a sorte, gostava do ruído e da sociedade.

Ele se instalara com Leonor, a quem apresentava em toda a parte como sua legítima mulher, num bonito castelo perto de Estrasburgo e nessa esplêndida mansão, as festas e os banquetes se sucediam sem interrupção, reunindo toda a alta sociedade dos arredores.

A estranha beleza da senhora de Riding excitou a admiração geral. Mas todas as homenagens e atenções dos mais brilhantes fidalgos deixavam a jovem fria, apática e indiferente. O luxo principesco que a rodeava, o perene murmurar da multidão enfeitada que enchia sua casa, pesavam à jovem, cuja saúde se tornara precária.

Com um interesse doentio, ela procurava apenas adivinhar, entre estes homens e mulheres tão alegres e indiferentes, quem pertencia à seita infame, mas a coisa era difícil de descobrir, pois cada um ocultava cuidadosamente seu perigoso segredo.

Procurando um pouco de solidão que para sua alma amargurada era necessidade imperiosa, Leonor adquiriu o hábito de dar todas as manhãs um passeio solitário pelos arredores, proibindo a qualquer criado que a acompanhasse.

Um dia, num desses passeios, encontrou uma mulher cujo rosto simples e bom lhe recordou insistentemente sua pobre tia Brígida.

Dolorosamente comovida, ela manteve conversação com ela. Soube que se chamava Ana, era mulher de um guarda-caça de seu marido e mãe de três filhos, dos quais, o mais velho, um rapaz de catorze anos, era paralítico das duas pernas. A família era muito pobre e Ana voltava justamente da cidade, onde fora vender o pano que tecera e comprar medicamentos para o doente.

Leonor deu à pobre mãe uma moeda de ouro e prometeu ir visitá-los e levar-lhes auxílio. Mas as bênçãos da boa Ana causaram dores e mal-estar à patroa. Apesar disso, Leonor tornou-se uma visitante assídua da casinha do guarda. Ela gostava de ver o rosto dessa mulher que lhe recordava sua segunda mãe e revia nela os radiosos quadros de um passado para sempre perdido. Para as crianças, ela trazia brinquedos e gulodices e suas inocentes carícias proporcionavam uma alegria serena.

Assim, ela conquistou a inteira confiança dessa boa gente e eles tinham uma veneração mista de piedade por sua jovem senhora, tão bela, tão pálida e tão triste!

Em uma de suas visitas à cabana, Ana contou à sua benfeitora que nutria alguma esperança de que seu filho recobrasse o uso das pernas. Ela soubera que nos arredores um santo monge, pela prece e pela aplicação das mãos, operava curas miraculosas e ela queria chamá-lo para ver seu doente.

Após esta notícia, Leonor se absteve por muito tempo de ir à cabana, mas um dia em que o tempo era particularmente belo, ela lá foi desejosa de ver as crianças.

Já ao se aproximar sentiu um abalo e ao entrar parou pálida e perturbada. De pé, junto ao doente sentado numa poltrona, estava um homem alto, vestido com o hábito branco dos dominicanos. Alguma coisa no porte desse homem lhe parecia familiar, mas sua voz a fez estremecer da cabeça aos pés.

Ela cambaleou e estendeu os braços, agarrando-se à ombreira da porta. No mesmo instante o monge voltou-se e erguendo a cruz fitou-a com severa tristeza. Era Walter e um terror sem nome se apossou de Leonor. Como se um vento de tempestade a arremessasse para longe dele, ela fugiu e não parou senão à entrada do castelo, esbaforida.

Mas aí as forças a abandonaram. A cabeça lhe girava, as pernas não a sustinham, dor aguda lhe retalhava o peito, enquanto que uma torrente ardente lhe subia à garganta. De repente um fluxo de sangue jorrou-lhe da boca e sem sentidos, ela tombou para trás.

Alguns criados espantados se precipitaram para ela, levaram-na para o quarto e avisaram o marido. O senhor de Riding que adorava sua bela esposa, comoveu-se fortemente e chamou à sua cabeceira os melhores médicos de Estrasburgo que declararam seu estado muito grave. Disso ele imediatamente avisou mestre Leonardo, que chegou no dia seguinte e quis ministrar à doente remédio desconhecido da farmacopeia comum, porque afinal ele era um sábio químico e médico, mas Leonor recusou terminantemente deixar-se tratar por ele.

- Estou cansada de morrer pela metade e quero acabar de uma vez. Agora ou mais tarde não escaparei da maldição - disse ela com amargura.

Mestre Leonardo protestou fracamente contra esta decisão e partiu, recomendando a Riding que vigiasse bem sua mulher, para que nenhuma pessoa suspeita pudesse penetrar no castelo.

Contra toda expectativa, Leonor se restabeleceu o suficiente para se levantar, andar, dar pequenos passeios e receber visitas. Mas a cor amarelada apresentada por sua pele tão branca e nacarada de outrora, o brilho febril de seus olhos e sua decadência visível, tudo indicava que seus dias estavam contados.

A própria Leonor sentia que a vida lhe fugia e uma atroz angústia a devorava. Não era a morte que ela temia, mas as torturas das regiões inferiores que a esperavam quando ela cessasse de viver. A festa da Páscoa se aproximava e a infernal confraria se preparava para festejá-la a seu modo pelos atos mais ímpios. O senhor de Riding e quase toda sua criadagem que eram afiliados, preparavam-se para partir para o castelo de mestre Leonardo onde, desta vez, todas as orgias deviam ser praticadas.

Mas Leonor, cujo estado piorara subitamente, estava tão fraca que foi preciso desistir de levá-la, o que a encheu de alegria. A moça pediu somente a seu marido que permitisse que a mulher do guardacaça viesse cuidar dela, pois lhe era muito simpática. Riding consentiu nisso de boa vontade.

Ele não desconfiava da simples e ingênua camponesa e sua presença junto à enferma, ainda lhe permitia leva uma camareira, desesperada por ter de faltar a festas tão esplêndidas.

Na manhã da partida de quase todos os moradores do castelo, Leonor teve uma nova perda de sangue pela boca e ficou tão fraca que teve de ficar deitada.

- Minha querida senhora - disse-lhe então Ana que a observava com inquietação - não quer ver um padre e receber orações? Isso a aliviará e confortará.

Estas palavras sacudiram a pobre Leonor, e agitando-se na cama, suspirou:

- Ah! Se eu o pudesse! Mas não posso, eu sou uma maldita, condenada às chamas eternas.

A boa mulher pensou que sua senhora tinha enlouquecido. Como que ela, tão boa, tão meiga, tão caridosa, podia estar amaldiçoada? Mas recordando-se do senhor Riding - cuja reputação era duvidosa, - temor e pena a tomaram e, pretextando ter de ir ver o que se passava em sua casinha, ela desapareceu e foi procurar frei Miguel que ainda andava pelos arredores tratando de alguns obsediados. Contou-lhe o que acabava de se passar, suplicando-lhe que viesse ver a doente e curar-lhe pelo menos o espírito.

Miguel ouviu de cabeça baixa. Ele compreendia que tinha chegado o momento de experimentar seu supremo sofrimento, e de arrancar, se possível a alma da mulher amada do poder das forças inferiores. Sentia também que tudo o que tinha sofrido até esse dia não era nada diante da luta que o aguardava. Contudo, sem hesitar, ele resolveu penetrar no castelo por bem ou pela força e não deixar
a cabeceira da moribunda enquanto ela não expirasse reconciliada com o Altíssimo.

- Irei amanhã cedo, Ana. Prepare, sem que ninguém veja, água e zimbro para fazer fumigações, - disse ele. - Hoje, véspera da sexta-feira santa, devo orar e preparar-me para amanhã.

Ficando só, Miguel se ajoelhou para buscar em ardentes preces a força para salvar a alma de Leonor. Quando ele interrompeu a oração para acender um círio, viu com espanto frei Lázaro de pé em sua porta.

- Vim, meu irmão, para ajudá-lo na luta que o espera e trouxe alguns objetos de que necessitaremos. Um sonho me mostrou a pobre mulher cujo espírito vamos disputar ao seu terrível dominador e sem tardança me pus a caminho. Felizmente, cheguei a tempo.

Miguel agradeceu com efusão. Com o amparo de Lázaro ele se sentia invencível. Os dois monges discutiram como agir e tendo o eremita manifestado a opinião de que o próprio mestre Leonardo viria defender sua presa, Miguel perguntou-lhe se verdadeiramente ele o tinha como poderoso gênio do mal.

Lázaro sorriu.

- Não. Para ser a corporificação do mal ele é miserável demais. É somente um instrumento da extrema degradação que domina em maior ou menor parcela grande parte da humanidade. Porém, mais do que os outros, ele se aprofundou na ciência do mal e por isso tornou-se um dos chefes. Mestre Leonardo é o nome de guerra dos chefes diabólicos, que um transmite ao outro. Este que você conhece, quando vivo, se chamava Bertoldo Schwarzefels e eu o conheci muito bem.

- Como! - exclamou Miguel horrorizado, - o homem que eu vi beber, comer, entregar-se a todos os excessos, é um morto, um espectro? Será possível?

- Sim, meu irmão, é possível. Existem espíritos que se chamam a gêneres, seres híbridos e perigosos, que momentaneamente são tangíveis e se fazem visíveis.

- Você conheceu este Bertoldo e está bem certo de que ele morreu?

- Como não! Não posso ter nenhuma dúvida a esse respeito, mas você verá ao lhe contar resumidamente sua história: Quando eu era moço e levava nesta mesma região uma vida mundana, tinha por vizinho um velho fidalgo muito rico, o conde de R... , do qual Bertoldo era sobrinho. Foi em casa do conde que conheci Bertoldo. Diziam então que ele se ocupava de magia negra e de alquimia e
possuía conhecimentos extraordinários dessa ciência tenebrosa. Acrescentavam que ele tinha esbanjado seu patrimônio e que nada mais lhe restava do que o velho castelo onde instalara seu laboratório e onde você e a desventurada Leonor viveram.

O conde de R. tinha dois filhos: um deles, digno e belo jovem, que foi meu amigo e uma filha, Inês, um anjo de beleza e de virtude, que foi então o meu ideal. Por cruel malefício, Bertoldo conseguiu afastar de mim e conquistar o amor de Inês, mas ele a seduziu e a abandonou. Foi só depois de muitos anos que eu soube o nome do sedutor. A infortunada se calava obstinadamente, jurando mesmo, coisa incrível, que o tinha esquecido. Assim, moralmente perdida, ela fez-se freira. No mesmo ano, o irmão Eberardo morreu caindo do cavalo de uma maneira incompreensível. Seu escudeiro guardou por toda a vida a convicção de que o cavalo fora enfeitiçado e, como possuído de maus instintos, cuspiu da sela seu cavaleiro.

Bertoldo tornou-se o único herdeiro do conde. Mas nesse tempo caíram nas mãos do infeliz pai, provas da vida tenebrosa de seu sobrinho e das obras de magia de que se ocupava. Como era um homem pio e bom, não quis perdê-lo completamente, mas exigiu que se arrependesse, renunciasse ao comércio de Satã e expiasse o mal cometido, tornando-se monge. Caso contrário, ameaçou-o de denunciá-lo à justiça como feiticeiro.

Rangendo os dentes, mas apanhado como um rato na ratoeira, Bertoldo cedeu e recebeu ordens num convento dos Beneditinos, situado não longe daqui e do qual restam apenas ruínas. Seu tio o dotou com enormes riquezas e ao morrer legou ainda consideráveis bens à comunidade. O pobre homem pensava ter salvado a alma do seu sobrinho.

Como ele se enganou!

Diz o ditado que os que se parecem se juntam. O prior do convento em que Bertoldo se fizera monge era um desses padres sacrílegos, que estavam filiados à seita do mal para satisfazer suas paixões bestiais e, graças a ele, a podridão moral invadira toda a comunidade. Bertoldo, o mágico e freqüentador do sabá foi-lhe uma preciosa aquisição.

Nessa época eu também me tornara uma presa da perdição. Encontrei no sabá, Bertoldo, um dos mais furiosos blasfemadores e seu prior que era então o mestre Leonardo.

Este miserável morreu pouco tempo depois. Acharam-no morto, parece, sobre o dólmen da charneca maldita, mas ocultaram cuidadosamente o fato e sepultaram-no com todas as honras no cemitério do convento.

Foi Bertoldo, ou melhor, frei Beatus, porque tal era seu nome na religião, quem substituiu o defunto prior. Mais ímpio ainda do que seu predecessor, ele organizou orgias demoníacas nos próprios muros do monastério. Devo confessar que eu mesmo assisti a muitas dessas reuniões sacrílegas e também àquela em que a cólera celeste atingiu Bertoldo.

Naquela noite, sobre o altar, no lugar do Redentor, entronizava-se o bode infame. O maldito, transbordando de civismo, acabava de tirar do relicário uma santa relíquia e a profanava com horríveis blasfêmias, quando de repente um relâmpago partiu, não se sabe de onde, e fulminou o monge, que caiu morto nos degraus do altar.

Ainda muitos monges, grandes culpados também, ficaram como que asfixiados e tiveram de guardar o leito doentes. Eu próprio então me certifiquei da morte do criminoso prior, mas fizeram correr o boato de que ele morrera do coração e enterraram-no, como seu predecessor, no cemitério da comunidade. Na mesma noite de suas exéquias, o fogo incendiou o monastério. A maior parte dos monges adormecidos, bem como os doentes dos quais lhe falei, pereceram nas chamas. Alguns que sobreviveram, arrependeram-se. Do monastério, não restou mais do que a galeria de arcadas do claustro, uma parte da igreja e o cemitério.

Você com certeza viu essas ruínas na planície. Elas têm má fama e mesmo os viajantes evitam aproximar-se delas. Não sem razão, como você vai ver. Já antes de sua destruição, boatos suspeitos corriam sobre o convento e o bispo projetava fechá-lo. Depois do incêndio, testemunhas depuseram que nas ruínas o sabá era celebrado e que até o defunto prior saía de sua tumba e nele tomava parte. Tive muito tempo depois da confirmação desse fato por um religioso com o qual eu conversei sobre esse triste passado. Ele me contou que a pobre Inês, tendo sabido do incêndio do convento, quis ir ver se a tumba de seu pai não fora danificada. Ela veio, mandou fazer alguns consertos e na noite que precedeu sua partida, ela foi orar no túmulo de seu pai e como que despedir-se dele. A irmã convertida que a acompanhava teve medo de ir de noite ao cemitério mal afamado, mas Inês era corajosa e desejava, justamente, orar e chorar na solidão.

Em seu recolhimento, ela não reparou que já era meia-noite, quando subitamente um medonho barulho se fez ouvir. Um vento de tempestade estalava e dobrava as árvores, fogos fátuos corriam pelos sepulcros com sinistras crepitações. Súbito, ao clarão de um relâmpago, ela viu erguer-se o espírito do homem que a seduzira e abandonara.

Os olhos fosforescentes do espectro fixados nela tiravam-lhe a coragem e quase a razão. Muda, paralisada, nem protestou quando ele se aproximou, falou-lhe de amor e por fim arrastou-a ao sabá onde ela sofreu mil opróbrios.

Desesperada, ela acabou por invocar Jesus e Maria. Então o monstro quis estrangulá-la, mas teve de largá-la ao ouvir o cantar do galo. De manhã, a irmã convertida encontrou-a agonizante. Foi o mesmo religioso de que lhe falei quem lhe ministrou os últimos sacramentos e ouviu da própria boca de Inês as minúcias que acabo de lhe contar. Depois, a graça me tocou, esqueci Bertoldo e nada mais soube até o momento em que o reencontrei como seu perseguidor e da pobre Leonor. Eu soube também que este espírito do mal preside o sabá e mora no castelo de seus antepassados, desde muito tempo tornado propriedade de um de seus parentes afastados. Mas ninguém da família jamais quis habitá-lo nem visitá-lo. Abandonaram-no simplesmente à ação do tempo, não suspeitando que o sinistro primo, morto há cinqüenta anos, ocupara-o de novo.

- A paciência do Senhor não se cansará e não o arremessará nas trevas onde é seu lugar? - perguntou Miguel suspirando.

- Penso que a medida de suas iniquidades está cheia, e que sua hora vai soar! - respondeu solenemente frei Lázaro. - Mas agora venha, meu filho, precisamos estar juntos de Leonor, ainda em perigo.

Apressadamente, os dois monges terminaram os últimos preparativos. Levaram uma centena de círios e uma grande ânfora de água fluidificada. Entretanto, a mulher do guarda-caça, ainda que tremendo de medo, preparara tudo como lhe ordenara frei Miguel. Porém, foi a enferma quem lhe causou mais embaraços, pois tomada de repentina inquietação, chorava de dores agudas por todo o corpo e apesar de sua fraqueza, queria a todo o custo levantar-se e deixar o castelo.

Ana compreendeu que era o obsessor que a atormentava e empregou todos os seus esforços para impedi-la de fugir antes da chegada do monge. O desassossego de Leonor aumentava sempre. Ela tremia, soluçava e por fim, empurrando Ana com cólera, se levantou, vestiu malgrado sua fraqueza algumas roupas e gritando que não podia ficar, que devia fugir, avançou para a porta empurrando Ana, que se agarrava nela com tal força que quase a derrubava.

De repente, Leonor parou e caiu de joelhos enquanto que seu rosto se contraíra horrivelmente. Na soleira acabavam de aparecer Lázaro e Miguel com um círio aceso na mão.

- É Deus quem os traz. Eu não podia mais impedi-la de fugir! - Exclamou Ana, persignando-se.

- Ela não fugirá nunca mais! - Disse gravemente Miguel, erguendo Leonor que se prostrara no chão como morta e pousando-a no leito. Depois, às pressas, ajudou Lázaro a preparar tudo. Este tirou do pacote que trouxera um candelabro de sete braços e uma toalha que estendeu diante da soleira. Colocou o candelabro aceso na cabeceira de Leonor e no pé do leito uma grande cruz e cercaram a cama com quarenta círios acesos. Aspergiram todo o quarto com água fluida e queimaram incenso. Quando Miguel tirou a cruz que usava e passou-a para o pescoço da moribunda, ouviram-se urros iguais aos de lobos. Leonor se torcia em pavorosas convulsões: Gritos e estouros repercutiram, espirais de chamas voaram pelo quarto, perdendo-se também na lareira. Em seguida se fez silêncio e Leonor abriu os olhos.

- Walter! - murmurou ela reconhecendo-o, - oh! Salve-me, não entregue minha alma ao demônio!

- Não tema, querida - respondeu Miguel carinhosamente. - Você será salva. Eles não poderão transpor a soleira, os imundos que tanto a fizeram sofrer.

Você vê quanta luz há aqui? A cruz está diante de você e a toalha do altar na frente da porta.

Você não morrerá antes de ter recebido as orações e se reconciliado com Deus. Foi o Senhor quem nos enviou para ampará-la. Minha pobre Leonor vamos orar juntos.

O ex-fidalgo se ajoelhou e tomando entre as suas as duas mãos da agonizante as uniu e fê-la repetir as palavras da prece que receitava. Leonor orava docilmente, com fervor apesar das dores atrozes que sentia e somente por vezes um grito traía seus sofrimentos. Tinha a sensação de lhe arrancarem os cabelos um por um. Por último, um frio glacial a invadia. Como apesar de tudo, ela continuava a orar, as dores diminuíram pouco a pouco, dando lugar a uma profunda tranqüilidade.

Essa trégua durou muitas horas e fez bem à jovem. Pela primeira vez, depois de alguns anos, ela elevou seu pensamento a Deus com amor e esperança. Mas à meia-noite o castelo se encheu de barulho e de movimento. Ouviram-se no pátio, cavalos relincharem e galoparem, cães ladrarem, a criadagem gritar. E poucos instantes depois, o senhor de Riding se precipitou para o quarto de Leonor, mas parou como que enraizado diante da soleira, proferindo uma blasfêmia. Ele estava hediondo, com suas roupas em desordem, os cabelos eriçados, a face convulsionada e o suor o banhava cada vez que ele fazia um esforço para transpor a porta que lhe barrava a passagem.

Espumando de raiva, ele tentou jogar impropérios nos dois monges, mas não o conseguiu e mudando de tática começou a implorar que o deixassem passar para dizer adeus à mulher amada. Porém, os monges não lhe deram nenhuma atenção. Miguel sustentava Leonor, enxugava-lhe o suor gélido que lhe inundava a fronte e dava-lhe de beber da água fluida, enquanto que Lázaro orava em voz alta, enchendo o quarto de turbilhões de incenso.

De repente, um surdo estrondo fez tremer o solo e oscilar as paredes maciças do castelo. Um silvar agudo rasgou o ar e na soleira apareceu mestre Leonardo materializado.

Ele estava medonho e irreconhecível. Cólera e maldade infernal desfiguravam-lhe o rosto anguloso, coberto de cor esverdeada de cadáver. Todo seu corpo tremia como que sacudido por estranha febre.
Blasfemando e agitando a mãos ele mandou que Naema, sua criatura, seu sopro, sua escrava, se levantasse e viesse imediatamente para junto dele. E tal era ainda o poder do espírito sobre sua infortunada vítima que, pálida e trêmula, ela obedeceu, levantou-se e quis correr para ele. Miguel a segurou e apertando-a contra o peito, não a deixou fazer o menor movimento. Lázaro se colocou diante da porta e brandindo a cruz gritou com voz trovejante:

- Acabou o seu poder, execrável produto do mal, você não terá esta alma porque suas horas estão contadas e você vai ser entregue aos sofrimentos que por tanto tempo infligiu aos outros.

Como tomado de loucura, mestre Leonardo rolou no solo torcendo-se como uma serpente e misturando blasfêmias com tão horríveis esconjuros que até os intrépidos monges empalideceram e um arrepio os sacudiu. Porém, a pobre Leonor, sempre prostrada nos braços de Miguel, murmurava palavras de gratidão e de bênção. Riding tentou mais uma vez transpor a porta, mas caiu como que asfixiado e não se mexeu mais.

Por fim, mestre Leonardo pareceu recobrar um pouco de sangue-frio. Como uma mancha negra ele se agachou na soleira, vigiando cada movimento dos monges, perturbando-os com blasfêmias e lançando sobre Leonor, que tinham deitado no leito, maldições e pragas que enchiam a jovem de mudo terror.

Assim, passaram-se a noite e o dia de sábado de aleluia, mas quando começou a noite de Páscoa, a ira reapossou-se de mestre Leonardo, que não se arredava da soleira.

Urrando e tripudiando, ele gritou:

- Devolva-me o anel que você usa no dedo, miserável que protegi com esse talismã. Devolva-me, pois você me renega!

- Não, - respondeu Miguel, retirando o anel e o colocando na mesa. - Este talismã infernal ficará aqui e se dissolverá no momento em que se operar a libertação desta alma atormentada.

Vencido seu último engodo, mestre Leonardo se pôs de pé e visivelmente queria fugir. Mas Lázaro ergueu os dois braços e exclamou imperiosamente:

- Fique e não ouse arredar-se desta porta até o momento em que a justiça divina o atinja.

Com gritos de fera e rugidos que estremeciam as paredes mestre Leonardo rolou por terra, mordeu o solo, por fim pediu, suplicou, rogou que o deixassem livre, mas Lázaro foi inflexível. E enquanto ele mantinha assim subjugado o ser perverso e perigoso que causara tanto mal, Miguel ministrava a Leonor o passe revigorante e apenas a água fluida tocou seus lábios, ela ergueu-se radiosamente transfigurada, exclamando:

- O Senhor seja louvado, eu estou salva!

E caiu morta sobre os travesseiros.

No mesmo instante, começaram a repicar os sinos que anunciavam a ressurreição do Senhor. Distintamente se ouvia o grave som da catedral de Estrasburgo e a este sinal, Lázaro bradou:

- Bertoldo Schwarzefels, laico ímpio, Beatus, padre renegado, morto-vivo, volta ao pó ao qual você pertence pela lei divina e humana. Por esta cruz, corto os laços infernais que ligam sua alma a este corpo que é uma simples aparição momentaneamente tangível.

Mestre Leonardo permaneceu imóvel e agachado. Turbilhões de fumaça e de chamas avermelhadas emergiram dele. De repente um relâmpago riscou o espaço, um ribombo repercutiu ao longe e quando a nuvem de vapor negro se dissipou, o espírito havia desaparecido.

Acalmou-se um pouco a terrível emoção dos monges e eles agradeceram ardentemente a Deus a grande vitória que ele lhes concedeu. Em seguida, como amanhecia, deixaram a câmara mortuária para tomar as providências necessárias para o sepultamento de Leonor.

Com o consentimento do bispo, o cadáver da moça foi colocado em um caixão, que lacraram com fechos de cera fluida, carimbados com o sinal da cruz.

A pedido de frei Miguel levaram-no para o cemitério do convento de São Lázaro, protegido pelas preces dos bons monges e de seu antigo noivo contra os ataques dos espíritos inferiores.

A notícia dos pavorosos acontecimentos desenrolados no castelo durante a noite de Páscoa, espalhou-se pelo público e o senhor de Riding, suspeito de conivência com o diabo foi preso. Tendo o inquérito provado com toda a evidência que ele era culpado, que freqüentara o sabá e que cumprira ritos satânicos, foi condenado à morte e queimado vivo alguns dias mais tarde na grande praça de Estrasburgo. Grande número de seus criados e de outras pessoas provadas serem cúmplices, partilharam de seu suplício. E falou-se por muito tempo deste enorme auto-de-fé, o mais rico em vítimas a que até então se assistira.

A fortuna do senhor de Riding foi confiscada e seu castelo transformado em hospício, mas contam que, durante cada noite de páscoa, via-se correr ao longo dos corredores um monge de alta estatura, o rosto contraído por uma louca angústia.

Os proprietários do castelo de mestre Leonardo comoveram-se também. O barão Schwarzefels, primo segundo do criminoso Bertoldo, foi para lá acompanhado de seu capelão.

A velha mansão tinha agora um aspecto de ruínas e mais sombrio, mais desolado do que nunca. No interior encontraram grande quantidade de ouro, de jóias e de baixela preciosa, porém, nenhum traço de Oxarat e dos anões. O laboratório estava intacto, mas todas as essências, ungüentos e manuscritos desapareceram. A chaminé do grande fogão sobre o qual se amontoavam alambiques vazios e retortas quebradas, rachara de alto a baixo.

Todo o ouro e os objetos preciosos achados no castelo foram, por ordem do barão Schwarzefels, distribuídos aos pobres. E o edifício foi destinado a tornar-se um monastério, mas este projeto não pode ser posto em execução. Por uma tempestade furiosa, um raio caiu sobre a casa maldita e um incêndio destruiu-a até os alicerces.

O castelo não foi mais do que uma ruína, sobre a qual se encarniçou o fogo do céu. Não se passava um ano sem que os raios fizessem novos estragos. As torres ruíram, os baluartes se esmigalharam e as muralhas caíram. A rocha tornou-se nua e o povo a chamava de a rocha do diabo.

Mas a lenda da estátua de cera sobreviveu ao castelo destruído e aos séculos que transcorreram. Transmitem-na de geração em geração e nas vigílias da noite ainda se conta a história de mestre Leonardo, o morto-vivo, de sua vítima Leonor e da grande vitória ganha pelo bem contra as forças do abismo.

FIM


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